Elisabete Matos, uma cantora apaixonada como "Tosca"


A soprano Elisabete Matos está de regresso ao São Carlos para interpretar a partir de dia 15 o papel principal da ópera "Tosca", uma cantora apaixonada com a qual se identifica em alguns aspectos.

"Numa questão de relacionamento, é evidente que sou apaixonada, deixo-me caminhar às vezes sem pensar, evidentemente depois com os ciúmes típicos de quando se gosta", afirmou à Lusa a cantora, questionada sobre se se identifica com esta heroína de Puccini.

"Sou de facto apaixonada por tudo o que faço", sublinhou.

Elisabete Matos, que vive há 20 anos em Madrid e tem feito uma carreira com projecção internacional, confessou que esta "deve ser" a nona produção da "Tosca" que faz, mas é a primeira vez que a vai fazer no São Carlos.

"É uma mulher com uma força fantástica e eu identifico-me, mas penso que nunca seria capaz de chegar ao limite de matar alguém", acrescentou a cantora sobre esta personagem que continua a considerar "um desafio" fazer.

"Há sempre coisas novas a adicionar a um papel, coisas que não tínhamos sequer pensado", justificou a cantora, depois de um ensaio em Lisboa e na véspera de um concerto em Valência.

Na sua opinião, Tosca "vive para a arte e vive para o amor (por Cavaradossi) e vai descobrindo no decorrer da ópera que é capaz de fazer coisas que nunca imaginaria".

No final, quando se põe a questão da morte do homem que ama ou de ter de matar Scarpia (o vilão), ela decide e num acto de loucura, mas determinada, opta pela segunda opção, continuou.

A "Tosca" que o São Carlos vai apresentar em 11 récitas até 7 de Junho, uma produção concebida pelo encenador canadiano Robert Carsen para a Vlaamse Opera de Antuérpia, contará com dois elencos nos três papéis principais.

Elisabete Matos e Gweneth-Ann Jeffers interpretam Tosca, Vladimir Vaneev e Johannes von Duisburg cantam Scarpia e Evan Bowers e Emil Ivanov fazem o papel de Cavaradossi.

A direcção musical é de Lothar Koening, que já dirigiu a Orquestra Sinfónica Portuguesa no Centro Cultural de Belém e se estreia agora no São Carlos.

Sobre o seu regresso, Elisabete Matos revelou que cantar no único teatro lírico português é "um acto emocionalmente tocante" e "um momento muito especial", mas não esconde porque optou por se radicar em Madrid há duas décadas.

"Neste momento eu poderia eventualmente decidir viver em Portugal porque já estou num momento em que posso escolher, posso partir, porque a carreira está alicerçada. Quando isso não acontece, ficar cá significa perder o barco para muitos lados. Não é fácil porque não há mercado de trabalho", admitiu.

Apesar de ter atingido "um certo status na carreira", a soprano continua a preferir a capital espanhola.

"Evidentemente que é preferível viver num sítio onde se parte facilmente para qualquer parte do mundo e onde se tem acesso à cultura, a concertos, à ópera, à pintura, a tudo. E digamos que no campo da música ainda estamos um bocadinho atrás, temos um único teatro de ópera que faz uma temporada pequena, é sempre muito mais limitado", sublinhou.

"Depois, temos um carácter que é pensar sempre que tudo o que vem de fora é que é bom e a maior parte das vezes não é", apontou.

Elisabete Matos faz entre 60 e 70 espectáculos por ano, entre óperas e concertos. Depois da "Tosca", vai continuar com uma série de concertos em torno de Puccini e em Setembro será a estreia de "Turandot", em Antuérpia, novamente numa produção de Robert Carsen.

Antes, conta passar uns dias em casa. "A casa é uma das coisas que me relaxa imenso", revelou a cantora, que gosta de cozinhar e de tratar de plantas.

"Há montes de coisas que gosto de fazer, mas a nossa profissão é um bocado um sacerdócio, para ter umas coisas temos de abdicar de outras", disse.

Lusa/FIM

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