Milú, O Adeus da Namoradinha de Portugal






Milú (Maria de Lurdes de Almeida Lemos)
(Lisboa, 24 de Abril de 1926 - cascais, 5 de Novembro de 2008)
Foi uma mulher lindíssima, uma actriz cujo talento chegava rápido ao público, uma personalidade encantadora. Hoje, no dia em que o seu corpo deixou de respirar, recordo-a a sentar-me aos seus pés, quando os meus pais a visitavam, tinha eu oito ou dez anos e ela era uma deslumbrante vedeta, uma "star" à proporção portuguesa, e eu a olhava com os olhos do encantamento mágico. Há um ano e uns meses, no São Luiz, foi homenageada e nessa altura escrevi umas palavras que agora recordo. Aqui. Como não deixarei de a recordar nunca, nem eu nem os portugueses que a continuarão a ver e ouvir nos filmes que a imortalizaram.


HOMENAGEM A MILÚ
A RTP transmitiu hoje a homenagem a Milú, realizada há dias no Teatro São Luiz. Foi uma festa bonita, com alguns excelentes momentos ("Xutos e Pontapés" a tocarem emocionados "Minha Casinha", o depoimento apaixonado de Raul Solnado, o entusiasta de António Pedro Vasconcelos, o bem humorado de Artur Agostinho ou o vivíssimo de Carmen Dolorers, e até Cavaco Silva esteve bem a entregar a comenda). Muitos tiraram-me palavras da boca, mas acho que tive mais sorte que muitos deles. A Milú foi também uma paixão minha de juventude (quem não estava apaixonado pela Milú por essa altura?). Ela nasceu a 24 de Abril de 1926, eu em 1942, leva-me alguns anos de vantagem, quando eu tinha para aí 10 anos, estava ela no esplendor da sua glória, nos seus 26 anos fulgurantes, era uma star, e os meus pais que se davam com alguns nomes das artes plásticas, do teatro e do cinema, eram visitas frequentes da casa da Milú, que então vivia, ao que me recordo, para os lados da Almirante Reis (se a memória não me falha). O que não me falha de certeza na memória é a recordação da excitação absolutamente anormal de estar na presença na vedeta, dela me afagar os cabelos, de me dar ternos beijinhos de boas vindas e despedidas (oh!, como eu gostarias que aquelas visitas fossem continuas entradas e saías de casa!). Quando os meus pais encontravam o Manuel Paião ou o Eduardo Damas, ou o Manuel de Lima, com quem invariavelmente visitávamos Milú, para mim era dia grande. Depois comecei a vê-la com muito maior atenção no cinema, e nunca um filme era mau por causa dela. Ela dava sempre um raio de luz, de elegância, de alegria, de modernidade em todos os filmes onde aparecia. Muitos anos depois, um dos meus amigos diários foi o Manuel Guimarães que tinha pela Milú uma admiração enorme. Trabalhara com ela num filme tragicamente transfigurado pela censura, mas que, mesmo assim (ou também por causa disso), me emocionou muito (“Vidas Sem Rumo”, 1956). Muito falámos da Milú então.
Maria de Lurdes de Almeida Lemos apareceu no final, em palco, com radiosos 80 anos e a pose de diva que nunca perdeu. Lembrou Gloria Swanson a descer a escadaria da glória passada. Em vez de chamar por Cecil B. De Mille chamou por António-Pedro Vasconcelos, agradecendo o que o cineasta por ela fizera. Foi bonito.
Milú foi cançonetista, actriz de cinema e de teatro de revista, tendo-se estreado aos doze anos em "Aldeia da Roupa Branca", ao lado de Beatriz Costa. Em 1942, quando eu nasci, e enquanto Orson Welles dirigia “Citizen Kane”, nos EUA, Milú é a "Luisinha" de "O Costa do Castelo", de Artur Duarte, e a sua voz imortalizou a música "Minha Casinha" mais tarde recriada pelos "Xutos e Pontapés". Outro sucesso seu foi "Cantiga da Rua". Casou pela primeira vez, em Dezembro de 1943, aos dezassete anos, e dizem que “Lisboa se despovoou para ir ver a noiva à igreja de São Sebastião da Pedreira.” Interrompeu então a carreira, mas foi obrigada a regressar, para novos sucessos, "Cantiga da Rua","O Leão da Estrela", em 1947, "O Grande Elias", em 1950, entre outros. As revistas de cinema e quase todas as outras escolhiam-na para capa, pois a sua beleza deslumbrava. Fez teatro de revista no Teatro Avenida, nomeadamente em "Ó Rosa Arredonda a Saia" e no Teatro Variedades com "A Vida é Bela" e entrou em alguns filmes em Espanha, nos anos de 1943 e 1946. Casou, pela 2ª vez em 1960, com Luís Nobre Guedes, e viveu no Brasil até 1968, tendo actuado na televisão brasileira, esporadicamente. A sua última aparição deu-se em cinema, em "Kilas o Mau da Fita", de José Fonseca e Costa, em 1980.
Os filmes de Milú: Aldeia da Roupa Branca (1939), O Costa do Castelo (1943), Doce lunas de miel ou Doze Luas-de-Mel (1944), Barrio ou Viela (Rua Sem Sol) (1947), O Leão da Estrela (1947), A Volta de José do Telhado (1949), O Grande Elias (1950), Os Três da Vida Airada (1952), Agora É Que São Elas (1954), Vidas Sem Rumo (1956), Dois Dias no Paraíso (1958), O Diabo Era Outro (1969) e Kilas, o Mau da Fita (1981).
Lauro António in “Lauro António Apresenta”



Maria de Lurdes de Almeida Lemos
conhecida apenas por MILU
(1926-2008)

Actriz de cinema e teatro de revista portuguesa. Estreou-se, aos doze anos, no filme "Aldeia da Roupa Branca" ao lado de Beatriz Costa. Extremamente bonita e fotogénica, encantou gerações de portugueses e portuguesas, podendo, sem favor, ser comparada às "estrelas" de Hollywood. Foi também uma presença assídua na rádio, onde começou aos dez anos a cantar. Em 1942, é a "Luisinha" no filme "O Costa do Castelo", de Artur Duarte, e a sua voz imortalizou a música "Minha Casinha" mais tarde reinterpretada pelo conjunto musical "Xutos e Pontapés", com enorme sucesso. Outro sucesso foi "Cantiga da Rua". Casou, pela primeira vez, em Dezembro de 1943, aos dezassete anos. Lisboa despovoou-se para ir ver a noiva à igreja de São Sebastião da Pedreira. Interrompeu a sua carreira artística, mas os e as fãs obrigaram-na a regressar. E mais sucessos se seguiram, numa das épocas mais criativas do cinema português: "Cantiga da Rua","O Leão da Estrela", em 1947, "O Grande Elias", em 1950, entre outros. Foi sem sombra de dúvida "a namoradinha de Portugal". As revistas de cinema e quase todas as outras escolhiam-na para capa, pois a sua beleza deslumbrava. Fez teatro de revista no Teatro Avenida, nomeadamente em "Ó Rosa Arredonda a Saia" e no Teatro Variedades com "A Vida é Bela" e entrou em alguns filmes em Espanha, nos anos de 1943 e 1946. Casou, pela 2ª vez, em 1960 e viveu no Brasil até 1968, tendo actuado esporadicamente na televisão brasileira. A sua última aparição em cinema foi em "Kilas o Mau da Fita", de José Fonseca e Costa, em 1980. Faleceu a 5 de Novembro de 2008.
in "O Leme"



Dezenas de familiares e amigos no enterro de Milú
06 de Novembro de 2008
Dezenas de familiares e amigos da actriz Milú, "provavelmente a única estrela do cinema português" segundo o realizador António Pedro de Vasconcelos, acompanharam hoje o seu funeral até ao Cemitério do Alto dos Gaios, na Galiza, Cascais.

Milú, nome artístico de Maria de Lurdes de Almeida Lemos, faleceu quarta-feira no Hospital de Cascais aos 82 anos, devido a uma infecção respiratória.

O realizador António Pedro Vasconcelos que, em 2007, fez o documentário "Milú, a menina da rádio", afirmou que a actriz foi "provavelmente a única estrela do cinema português", pois "nunca mais voltou a haver ninguém como ela".

"Faz-me pena que a maior parte das pessoas que trabalham nesta área do cinema a tenham esquecido", lamentou, acrescentando que Milú "foi alguém que marcou não só o cinema português, a revista, o teatro, a rádio, a canção mas também a sociedade".

Milú era uma actriz que "fazia o público ir às salas, às revistas", era "um raio de sol" num País "cinzento, fechado, retrógrado", sublinhou o realizador.

"Ela estava muito sozinha, praticamente cega" e "o facto de eu me ter aproximado" e de ter havido "alguém que se lembrou dela foi uma coisa que lhe deu algum conforto", referiu António Pedro Vasconcelos.

Para o realizador, Milú era alguém "ímpar" a quem Portugal "deve muito", pois era uma "actriz deslumbrante, bonita e talentosa".

António Pedro Vasconcelos recorda a noite da gala de homenagem a Milú, no ano passado, em que foi condecorada pelo Presidente da República, Cavaco Silva, como um momento que "compensou um pouco a solidão em que ela vivia".

Nas palavras do actor Octávio de Matos, que também assistiu às exéquias, Milú era "boa colega, boa amiga e boa actriz".

"A última vez que a vi foi na minha festa de homenagem de 50 anos de carreira, há três anos, onde ela teve a amabilidade de aparecer. Estava ceguinha e eu fiquei muito sensibilizado por aparecer, porque não saía de casa", lembrou o actor.

Octávio de Matos recordou que a última participação de Milú em teatro foi consigo, no Teatro Monumental, em Lisboa, na revista chamada "Lisboa Acordou".

Apesar das "invejas que há na família teatral", o actor frisou que, "no fundo, são todos amigos e quando morre alguém ficamos muito tristes".

Em 1943, Milú cantou a música "A minha casinha" no filme "Costa do Castelo" que se transformou numa versão "rock" pelo grupo Xutos e Pontapés.

Zé Pedro, um dos elementos da banda, disse, após o funeral, que, na altura do lançamento da música, "foi muito emocionante conhecer uma pessoa que nos foi tão querida, que de certa forma nos deu um êxito que teve tanto sucesso".

"O contacto que tivemos não foi muito grande mas foi o suficiente para termos um respeito enorme por ela. Quando a Milú esteve no Coliseu dos Recreios, certamente foi dos últimos grandes aplausos que ela recebeu em vida. Ainda bem que nós lhe conseguimos proporcionar isso", sublinhou.

Milú foi o rosto do cinema português entre 1940 e 1950, tendo sido protagonista no filme "Costa do Castelo" e, entre muitos outros trabalhos, contracenou com António Silva em "O Leão da Estrela".
in Lusa



Milú, a vedeta portuguesa que recusou Hollywood
A actriz Milú, falecida hoje em Cascais, foi a primeira vedeta do cinema português que Hollywood convidou mas a protagonista de "O Costa do Castelo" recusou por medo.
O convite repetiu-se por três vezes, mas Milú sempre recusou "por medo de não corresponder às expectativas", afirmou numa das muitas entrevistas que deu.

Em 1982, numa entrevista ao jornalista Sousa Neves, confessaria ter-se arrependido. Forrester, da Universal Pictures, apresentou-lhe um contrato em branco e o projecto de dois filmes, contou.

Nascida em 24 de Abril de 1926, baptizada Maria de Lourdes Almeida Lemos, tomou o nome artístico de Milú que chama logo a atenção na Emissora Nacional, integrando um quarteto feminino ou cantando a solo.

Todavia, desde menina que já actuava em emissões radiofónicas, tendo-se estreado aos 12 anos, simultaneamente, no teatro e no cinema.

No Éden Teatro integra a peça infantil "O preto mazalipatão" e consegue um pequeno papel na "Aldeia da roupa branca" de Chianca Garcia, protagonizado por Beatriz Costa.

A sua popularidade na Emissora leva o realizador Arthur Duarte convidá-la, em 1943, para protagonizar "O Costa do Castelo" que se transformou num êxito, designadamente a canção "Cantiga da rua", que interpretava ao lado de "A minha casinha".

Milú torna-se um caso sério de popularidade, partindo nesse ano para Espanha onde filma "Doce lunas de miel" de Ladislao Vajda, ao lado de María Brú, Ana María Campoy e Raúl Cancio.

Referindo-se ao realizador que a descobriu afirmou anos mais tarde: "Havia nesses tempos de cinema, horários e disciplina imposta por essa pessoa fabulosa que é o Arthur Duarte".

Casa-se em Dezembro desse ano e correu logo a notícia que se afastava da cena para "grande tristeza dos seus fãs", como escreveu a imprensa da época.

Porém, regressa ao cinema três anos mais tarde em "O Leão da Estrela" em que volta a contracenar com António Silva.

Até à década de 1950 trabalha ininterruptamente no cinema, em filmes como "A volta do José Telhado", "O grande Elias" ou "Os três da vida airada".

Em 1952 estreia-se na revista "Ó rosa arredonda a saia" no Teatro Avenida; passando a primeira figura dos palcos portugueses até à década de 1960.

Em 1960 é vedeta em Barcelona na revista "Ven y ven" e surgem os primeiros rumores de que foi convidada para Hollywood.

Volta a casar-se, no mesmo ano, e a afastar-se da cena artística até 1968. Durante este período viveu no Brasil onde esporadicamente fez umas aparições nas televisões e gravou alguns discos.

Regressa a Portugal em 1968, sendo protagonista com António Calvário do filme "Afinal o diabo era outro", de Constantino Esteves, voltando depois aos palcos em peças como "A casa das cabras" (1970) ou "Quarenta quilates" (1971) e em revistas como "Lisboa acordou" (1975), tendo-se despedido em 1978 na revista "Meninos, vamos ao vira".

O realizador Fonseca e Costa convida-a para uma participação especial em "Kilas, o mau da fita", que é exibido em 1980.

Numa entrevista, afirmaria que gostou sempre de cinema e que tinha "sido sempre, essencialmente, uma actriz de cinema".

A sua última aparição em público foi no ano passado, numa gala de homenagem, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, no mesmo ano em que filmou o documentário "Milú, a menina da rádio" de António-Pedro Vasconcelos.

Em declarações à imprensa afirmou: "Fiz um nome à minha custa, com muito trabalho", sublinhando "acho que valeu a pena".
in Lusa/RTP

O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, recordou esta quarta-feira actriz Milú como «uma grande estrela da rádio, do cinema e do teatro», noticia a Lusa.

«Neste momento de luto, é com sentido pesar que presto a minha homenagem a uma grande estrela da rádio, do cinema e do teatro que dedicou toda a sua vida às artes e à cultura», lê-se numa mensagem enviada por Cavaco Silva à família da actriz Milú, nome artístico de Maria de Lurdes de Almeida.

Na mensagem, o chefe de Estado recorda a forma como Milú conquistou «o carinho e respeito dos portugueses», com a sua carreira iniciada nas rádios e com a participação em alguns dos mais emblemáticos filmes do cinema português.

«Em Maio de 2007, Milú foi condecorada com a Comenda da Ordem de Santiago da Espada, vendo reconhecida desta forma a sua vasta carreira», lembra ainda Cavaco Silva na mensagem.

A actriz Milú, que ficou popularizada no cinema como a Luisinha de «O Costa do Castelo», morreu hoje em Cascais aos 82 anos na sequência de uma infecção respiratória.


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