Com a morte do segundo marido, Bernarda Alba decreta um luto de oito anos e submete as suas filhas à reclusão, dentro das frias paredes da casa, com as janelas fechadas. Duas das filhas, porém, apaixonadas pelo mesmo galanteador das redondezas, desencadeiam uma disputa cruel e perigosa para conquistarem o amor desse homem, com consequências trágicas. A escolha de “A Casa de Bernarda Alba” é um apelo contra o isolamento que aumenta no mundo. É por isso um libelo, um resistir. Regressam as “Bernardas Albas” crescendo à luz cruel dos nossos dias, como monstros que despedaçam vidas. As “Bernardas Albas” fecham as casas, que é como quem diz, as nossas instituições, e são a cada dia mais coercivas.
A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os deuses deram aos homens, com a qual não podem igualar-se os tesouros que encerra a terra ou o mar oculta; pela liberdade assim como pela honra pode e deve-se aventurar a vida.
Miguel de Cervantes
“Neste momento dramático, o artista deve rir e chorar com o povo. É preciso largar o molho de lírios e mergulhar até à cintura na lama para ajudar os que buscam lírios. De minha parte, tenho uma necessidade genuína de me comunicar com os outros. Por isso bati às portas do teatro e agora dedico a ele todos os meus talentos.”
Frederico García Lorca
Sinto a poesia, a vida, o olhar e a missão artística de Federico Garcia Lorca como uma conexão profunda com a terra e o corpo. Esses são como parceiros e cúmplices de sempre, antigos. A ligação com a escrita e o universo de Lorca é um entendimento do cosmos, uma herança perdida e reencontrada que se funda na lama em que se mergulha, procurando a sementes de flores. E a música. A escolha de A Casa de Bernarda Alba é um apelo contra o isolamento que aumenta no mundo. É por isso um libelo, um resistir. Regressaram as figuras de “Bernardas Albas” crescendo à luz cruel dos nossos dias, como monstros que despedaçam vidas. As “Bernardas Albas” fecham as casas, que é como quem diz, as nossas instituições tornando-as a cada dia mais coercivas. Em definitivo há que continuar a lutar porque as oportunidades não são iguais para todos. As “Bernardas” propagam discursos onde subentendem mecanismos de repressão e censura como se defendessem liberdades. Fazem-nos confusos. A diminuição da liberdade do indivíduo é uma actividade diária, uma sucessão de acontecimentos que não se conseguem repudiar e que nos acometem e acantonam em “existências prisão”. O medo deita-se connosco todas as noites. A ameaça da “morte do pai” – aquele que nos pode salvar e conduzir a um futuro melhor e brilhante é constantemente invocado. Fazem-nos órfãos do futuro e do passado. A exacerbação do presente ameaçador e perigoso é uma força que asfixia e atrofia os músculos do entusiasmo e da vontade de viver. Por oposição natural, a força da terra e da Deusa Mãe reacende-se e ressurge de modo confuso e paradoxal imprimindo aos corpos de homens e mulheres um grão de insanidade insurgente. O medo do corpo que se infantiliza e recusa morrer, procurando fixar-se num perpétuo presente imutável, amplia a percepção dos cinco sentidos. Na peça, é a morte do pai que precipita a clausura e opressão das mulheres. No mundo, é a separação do passado e a desagregação do presente que levanta sentimentos de desprotecção e autoriza a escalada da opressão. Ao futuro só chegaremos se formos obedientes e cumprirmos todas as regras. As que existem e as que ainda serão criadas. As circularidades asfixiantes dos poderes autoritários disfarçados de gestos democráticos, exercem crescentes influências limitadoras das liberdades individuais. O gigantismo das grandes instituições e estruturas sociais adaptadas a uma globalização invasiva, desenvolvem formas de despotismo aberto, sem pudor nem freio que as contenham. É o poder das novas ditaduras sociais que em nome da segurança, impõem ao cidadão global regras de conduta e de transparência que condenam a intimidade e a privacidade — como Bernarda Alba o exerceu em sua casa. Essas novas formas de poder surgem associadas às ordens e regras que as instituições sociais nos vão suave e gentilmente agrilhoando. O corpo e a terra precisam de falar. Demos-lhe a voz que Lorca nos deixou. Quanto à metodologia de trabalho esta segue um processo de reescrita do texto a partir de um processo performativo de experimentação e pesquisa com os actores. O texto de Federico Garcia Lorca é um pretexto para a criação sendo a autoria do texto final de João Garcia Miguel.
Texto Original: Frederico García Lorca
Direcção, Espaço Cénico e Texto: João Garcia Miguel
Elenco: Sean O’Callaghan, Annette Naiman, Paula Liberati e Duarte Melo
Assistência de Encenação: Rita Costa e Eurico D'Orca
Figurinos: Rute Osório de Castro
Música: Ricardo Martins
Imagens Ensaios e Promoção: Mário Rainha
Direcção de Produção em Portugal: Georgina Pires
Direcção Técnica: Roger Madureira
Consultoria de Imagem e Comunicação em Portugal: Alcina Monteiro
Assistência Técnica: AUDEX
Co Produção | Coproduction
Cia JGM | | Teatro Ibérico | DGArtes | Governo de Portugal | Teatro Cine de Torres Vedras, CMTVd | Teatro Aveirense, CMA | Junta de Freguesia do Beato | IEFP
Apoios | Supports
Teatro da Garagem, São Paulo | IFICT | Câmara Municipal de Lisboa
Parceiros | Partners
TAGV — Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra | Teatro Eduardo Brazão, Bombarral | Cine Teatro Castelo Branco, Festival Y | Teatro Virgínia, Torres Novas | Teatro das Figuras, Faro
Theatro Circo Braga
8 de Março | 21.30
M/16
10€
Av. da Liberdade, 697 - 4710-251 Braga
253 203 800
theatrocirco@theatrocirco.com



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