XXIX Festival de Artes de Macau está menos internacional e mais centrado em produções locais e regionais

À 29ª edição, o Festival de Artes de Macau (FAM) virou-se para uma programação mais centrada na Ásia. O número de produções locais e parcerias com artistas estrangeiros cresceu. Entre 27 de Abril e 31 de Maio, o FAM apresenta 26 espectáculos e exposições e mais de 100 eventos. De Portugal chega o trabalho da escritora e artista multimédia Patrícia Portela com “Parasomnia”, uma experiência de “teatro imersivo” na obra do português do início do século XX, Acácio Nobre. O grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau irá apresentar “Qui di Tacho?”.

    “Pôr-do-Sol nos Estaleiros”, pelo grupo local “Dream Theatre Association”

O XXIX Festival de Artes de Macau (FAM) apresenta, entre 27 de Abril e 31 de Maio, 26 espectáculos e exposições e mais de 100 eventos. A programação este ano é mais local e regional, com os espectáculos asiáticos a ocuparem 23 por cento da programação total. As produções locais e parcerias com artistas de fora cresceram em número e visibilidade. No conjunto, há sobretudo mais teatro, alguma dança e concertos e doses razoáveis de cinema, palestras com os dramaturgos, workshops de dança, de escrita, de marionetas e um exercício de graffiti para principiantes.

Desligada da programação de espectáculos, vai ser inaugurada no contexto do FAM a exposição de Marc Chagall, referência artística do século XX, com obras de pintura, figurinos e tapeçarias de 1950 a 1970, disponibilizadas em colaboração com vários museus franceses.

O evento, que este ano tem como temática “origens”, conta com um orçamento de “cerca de 52 milhões de patacas”, “três por cento menos do que na última edição”, adiantou ontem em conferência de imprensa a presidente do Instituto Cultural (IC), Mok Ian Ian. A responsável justificou a redução no montante orçamental com a austeridade recentemente imposta pelo Governo, mas garantiu que a qualidade do evento não foi afectada. “Nos anos recentes, para aderir à política de utilização racional dos recursos financeiros do Governo da RAEM, assumimos uma atitude prudente na gestão de recursos. Não obstante a diminuição do orçamento, a qualidade do Festival de Artes não será influenciada, mesmo assim seguimos critérios muito rigorosos em termos de selecção de espectáculos”, afirmou a presidente do IC.

Visibilidade às produções locais

Este ano a programação inclui várias produções locais e parcerias que evidenciam uma “cooperação aprofundada” e “ligações e interactividade entre artistas locas e estrangeiros”. A presidente do IC começou por explicar que o FAM destina-se “a proporcionar uma plataforma para os artistas locais” e “desenvolver este sector de Macau”. No entanto, “depois da realização de várias edições descobrimos que também serve muito bem de plataforma que permite o intercâmbio dos artistas vindos dos diversos sítios, e também a cooperação entre eles. Durante estes anos o festival das artes passou, pouco a pouco, a uma plataforma de cooperação e intercâmbio aprofundado”, acrescentou.

“Pôr-do-Sol nos Estaleiros”, pelo grupo local “Dream Theatre Association”, conta a história da arte da construção naval, apresentando-se nos dias 28 e 29 de Abril. A peça tem como referência o espectáculo de 2017 “O Estaleiro da Vitória”, concebido pela mesma companhia a partir de pesquisas de campo e entrevistas. Trata-se de uma história “divertida e com sentido de humor”.  

Trabalhadores imigrantes indonésios são os actores em “Migrações”, peça documental criada pela companhia “Teatro Experimental de Macau” que se apresenta a 5 e 6 de Maio, numa abordagem “quase etnográfica” com a qual o grupo tenta compreender os motivos que levam os trabalhadores indonésios e emigrar. A peça é acompanhada de vídeos, dança, poemas e música instrumental tradicional.

O grupo local “Associação de arte Teatral Dirks”, sob a direcção da encenadora irlandesa Sinéad Rushe, apresenta entre 18 e 20 de Maio “A Noite Antes da Floresta”, baseada no monólogo homónimo do dramaturgo francês Bernard- Marie Koltès.


    “À Procura da Memória”, pela companhia local “Cai Fora”

A artista de Macau Tracy Wong colabora com artistas de Hong Kong, Bélgica e França para criar um espectáculo visual de dança e instalação “As Franjas Curiosas – Explosão da Caverna”, que se apresenta a 27 e 28 de Abril. A companhia local “Cai Fora”, em colaboração com actores malaios, desempenham “À Procura da Memória”, uma peça de teatro infantil, entre 24 e 27 de Maio. A Associação de artes e Cultura Comuna de Pedra traz ao FAM a produção “Murmúrio da Paisagem”. Actores de Macau e Singapura vão também levar a palco uma interpretação da peça do dramaturgo sueco August Strindberg “A Menina Júlia”, mas na versão “Julia Irritada”.

“Qui di Tacho?” ou “Que é do tacho?”, é o nome da peça do grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau que, desta vez, usa como motivo para o bom humor e o sarcasmo que caracterizam os seus trabalhos com o título atribuído pela UNESCO de Cidade Criativa de Gastronomia.

 “Parasomnia”, teatro imersivo de Patrícia Portela
De Portugal, integrado na secção “Criações inter-disciplinares: Teatro”, chega o trabalho da escritora e artista multimédia Patrícia Portela que traz “Parasomnia”, entre 2 e 6 de Maio, na Casa do Mandarim. Esta é uma experiência de “teatro imersivo” no ensaio incompleto de Acácio Nobre “Sobre o Sono: o Despertar e a Ausência de Sonhos”, de 1890. Patrícia Portela move-se nos círculos de arte contemporânea entre Portugal e Bélgica, acumula experiência na cenografia, imagem, literatura e filosofia e o seu trabalho já foi distinguido com o Prémio Acarte/Maria Madalena de Azeredo Perdição, da Fundação Gulbenkian.

Na mesma secção, o destaque vai também para o teatro físico “provocador” e “hiper-realista”, “Rua Vandenbranden, 32”, da companhia belga “Peeping Tom”.

Em “Destaques Temáticos: Origem”, o FAM apresenta como espectáculo de abertura a peça de teatro “Das Kapital”, a 27 e 28 de Abril, pelo “Centro de Artes Dramáticas de Xangai”. A peça pretende ser “uma nova versão do grande clássico de Karl Marx” e destina-se a assinalar o bicentenário do aniversário do nascimento do filósofo e economista alemão, autor de “O Manifesto Comunista”.

    “Acompanhante”, de Eisa Jocson

“Acompanhante”, de Eisa Jocson, coreógrafa e bailarina filipina, baseada em Manila, pretende com esta peça expor a exploração do corpo feminino nos clubes de acompanhantes de Tóquio. A peça é apresentada nos dias 12 e 13 de Maio.  O mestre japonês de teatro contemporâneo Tadashi Suzuki, com a sua peça “Mulheres de Tróia”, vai mostrar dias 12 e 13 de Maio a miséria e a desolação do Japão no pós-guerra. A companhia sul-coreana “Sadari Movement Laboratory” traz dias 26 e 27 de Maio uma adaptação de “O Processo”, uma obra clássica do escritor checo Franz Kafka, “que explora a definição de crime” com movimentos corporais e linguagem singulares”.  “Subject to_Change”, do Reino Unido, apresenta entre 19 e 22 de Maio a peça premiada “Lar Doce Lar”, uma “instalação interactiva”, que permite a participação do público, que é convidado a construir casas em cartão e a edificar uma cidade. O FAM encerra a 26 de Maio com “13 Línguas”, um espectáculo de dança, música e folclore pela companhia de dança “Cloud Gate 2”, de Taiwan.
Cláudia Aranda in Ponto Final

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