‘Eu uso termotebe e o meu pai também’: um Portugal que já passou mas que ainda cá está


“Eu uso Termotebe e o meu pai também” é uma peça de Ricardo Correia, estreada no Teatro Dona Maria II e integrada no ciclo “Portugal em Vias de extinção”. Passou agora pelo Teatro Académico Gil Vicente e passará (espera-se) por muitas salas em Portugal. É uma viagem sobre sonhos, nostalgia, sentimento de perda, ascensão e queda.

Os atores contam-nos como passaram vários dias na zona do Vale do Ave a entrevistar antigos trabalhadores e patrões de grandes ex-fábricas que hoje são monstros em ruínas (algumas no centro das cidades). Dentro dessas ruínas o silêncio é pesado, contam-nos. Será para fazer lembrar os despedimentos coletivos, aqueles que começaram a trabalhar ainda crianças, as dores de horas seguidas na mesma posição, a obediência ao patrão, os salários baixos ou a destruição da comunidade que existia dentro de cada fábrica depois da sua falência. Será para guardar memórias. O espetáculo está carregado delas, e a acompanhar os atores, vão sendo projetadas fotos e recortes de jornal de várias fábricas, operários e greves que nos ajudam a ser levados para o ambiente certo.


O cenário ambíguo com um grande espelho desfocado e compartimentado e figurinos que parecem a roupa do dia-a-dia dos atores, revelam-nos aquilo que vai acontecer durante a peça – uma dualidade entre o ator e a personagem. Uma constante entrada e saída de histórias recortadas e transformações frequentes dos objetos e acessórios.

Em vários momentos, os atores utilizam uns auscultadores ligados a um leitor onde ouvem os diálogos gravados no terreno, ditos por “pessoas reais”, para mais fielmente repetirem a forma de falar, a cadência, o sotaque, as palavras das entrevistas. O método dá origem a momentos maravilhosos em que realmente sabemos que as pessoas falaram exatamente assim – quando as pessoas falam nem sempre usam as palavras mais acertadas ou uma sequência lógica correta e isso reflete-se neste exercício de repetir palavra a palavra. É, sem dúvida, um ponto muito interessante na peça, que, globalmente, se revela pertinente no seu tema e forma de o apresentar e muito boa de se ver. A peça poderia ser um pouco mais curta – isto jamais quer dizer que se torna desinteressante, mas há uma ou duas repetições de situações que acrescentam pouco.


Existem também dois momentos que de alguma forma quebram a “magia” da peça: quando é tomada uma atitude mais política falando dos sindicatos como algo muito positivo, e quando se fazem sugestões diretas ao público sobre reflexões que “devem” ser feitas. Percebe-se que se fale dos sindicatos, pois eles foram (e são) muito importantes em muitas das conquistas do trabalho, mas talvez ambas as situações pudessem ser tratadas com mais “poesia”.

‘Eu uso termotebe e o meu pai também’ é uma peça muito rica e com um grande valor social e patrimonial (material e imaterial). As interpretações são boas e a encenação é cheia de ritmo, pormenores e surpresas. Momentos que nos inquietam, outros que nos divertem ou fazem pensar e aqueles que nos transportam para nós mesmos. No final resta uma certa angústia por todos aqueles que viveram uma vida imposta pelo ritmo da indústria – operários e patrões a trabalhar, e as famílias deles a viverem em torno de tudo isto, sem pausas, para dar vida a produtos gloriosos como a camisola Thermotebe. ‘Uma camisola interior de características turboelétricas’. Vejam a publicidade (vídeo abaixo) e a peça, que ambas valem a pena.

Próximas datas:
23 Março – Teatro Aveirense
20 Abril – Centro Cultural Vila Flor (Guimarães)

Texto de Sandra Henriques in Comunidade, Cultura e Arte
Fotografias de Carlos Gomes

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