Jean Cocteau estreia no Teatro da Trindade pela mão de Alves do Ó


O SANGUE DO POETA: 50 ANOS DEPOIS
Jean Cocteau é um homem do fascínio. Multifacetado, empreendedor, genial, louco, brilhante, é tudo em tudo o que fez. Este ano comemoramos os 50 anos da sua morte, como se a morte fosse uma verdade na existência imortal de Cocteau. Não é. A morte não existe. Ele iludiu-a, convocou a sua presença para depois matá-la. Basta ver os seus filmes, obras-primas dum cinema único e irrepetível. Há qualquer coisa de bardo e de feiticeiro na obra e na presença deste francês amador do mundo, dos homens e mulheres, da palavra, da imagem, como se essa “arte de viver” fosse, afinal, a única que vale a pena perseguir. E ele perseguiu-a com malabarismos e reflexos. Por isso, tantos anos depois, o seu legado continua tão brilhante como na época em que viu a luz do dia. Não morre, não ganha pó, não ganha tempo, não ganha a terminologia mortífera do clássico.
Tudo em Cocteau: é. E não: foi.

“A Voz Humana” é um dos seus textos mais representados. Desafio pecaminoso e irresistível para qualquer actriz. Feito e refeito de mil formas, actualizado, distorcido, dividido, ampliado, tudo já foi feito com este simples e intermitente telefonema. Tudo. O que nos resta fazer? Pouco, muito pouco. Resta-nos no fundo, mantê-lo vivo, resgatá-lo sempre, como quem alimenta um corpo, uma emoção, um momento.
É um texto para uma voz. A voz como elemento fundamental de todas as histórias. A oralidade que vamos perdendo e que é preciso resgatar do silêncio e do barulho ensurdecedor do mundo que grita muito e diz muito pouco. Aqui, todas as palavras têm um peso e uma intenção. E foi essa arqueologia que decidi fazer. Não apenas ler e dizer o que as palavras formam, mas o que elas escondem. Cocteau, o mágico, o dissimulado, o manipulador da caixa de pandora, brinca com as palavras como quem constrói um labirinto de intenções e angústias. A verdade estampada no texto é frágil, contraditória, exige a nossa máxima atenção. Cocteau faz neste texto o que viria depois a fazer nos seus filmes – nem sempre o que parece, é. Nem sempre o que se ouve, é.
O desafio era exactamente esse – prestar atenção às palavras mil vezes repetidas de Cocteau e abrir uma outra porta para a sua interpretação e para isso voltámos ao local do crime. À cidade de Paris dos anos 30. Voltámos à casa, como detectives de palavras de um assassino que não matando ninguém, nem nada, convoca o mistério como a maior de todas as ambições humanas.
Vicente Alves do Ó
Encenador

Em busca da personagem
Mme. De Merteuil declara guerra ao homem que ama, acreditando ser esse o caminho para o ganhar.
Xerazade embala o seu amante/verdugo contando-lhe histórias intermináveis durante mil e uma noites. A sua voz adormece o carrasco, evita o fim fatal.
Na peça de Jean Cocteau, uma personagem sem nome – destino icónico anunciado – ameaçada de abandono, de morte de amor, recorre também à fala, à palavra, como meio de resistência, de sobrevivência.
A personagem de Cocteau tem a energia da fera Merteuil, na sua lucidez e na estratégia forjada.
Numa situação imaculada de contágio físico, em que só a voz conta, joga-se um jogo de mentira verbal e emocional. Um jogo a dois, mesmo que apenas se oiça um dos jogadores.
Como manda o teatro, o resultado da contenda cabe aos espetadores construir.
Carmen Santos
Atriz

”A VOZ HUMANA” de JEAN COCTEAU – Sinopse
Madame de... espera, impaciente, por uma chamada telefónica. Sabe que virá. Sabe que será uma chamada derradeira. O último telefonema. Através dum fio de telefone, espera recuperar ainda o amante que parte, que a abandona, que se escapa como um fantasma que agora é apenas passado. A realidade dos últimos tempos transformou uma história de amor numa história de memórias e são essas memórias que Madame de... usa para resgatá-lo, trazer de volta, como se o amor fosse um corpo à espera de ser agrilhoado, ou um destino do qual nunca se escapa incólume.
Durante uma hora e meia, Madame de... usa todas as palavras possíveis, todos os silêncios e interrupções, num diálogo que se transforma em combate, em confissão, em fervoroso jogo de enganos e mentiras. A voz, elemento primordial, é onde tudo reside. O coração na boca, dirão, sim, o coração na boca, o sangue num fio de telefone que atravessa a cidade de Paris dos anos 30 e que na penumbra da noite bate com a velocidade de uma pequena tragédia doméstica. Mas todas as tragédias são enormes, gigantes para quem as vive. Diante da noite e do abandono, não há palavra que salve um amor que se desfaz. A verdade é apenas uma questão de tom. Como na música. O tom da voz revela, o que as palavras escondem.


Teatro da Trindade
22 Agosto a 8 Setembro, 2013
Quarta a Sábado às 22H00 | Domingos às 18H00
Classificação Etária: M/12
Bilhetes: entre 8,00€ e 15,00€ (Teatro da Trindade; Ticketline; Fnac)
Descontos: não cumulativos
40% Cartão INATEL e entidades c/ Protocolos c/ INATEL
30% Profissionais do espectáculo; Seniores (+65); Jovens (-25);
Grupos: mínimo 10 bilhetes (marcação prévia, aquisição conjunta)
20% Cartão Fnac

A VOZ HUMANA*
Peça em um acto de Jean Cocteau (1889-1963)
*”La Voix humaine”, 1930, com a amável autorização de Pierre Bergé,
Presidente do Comité Jean Cocteau e titular exclusivo dos direitos da obra de Jean Cocteau

Interpretação Carmen Santos
Encenação Vicente Alves do Ó
Assistente Encenação Anaísa Raquel
Música original João Gomes
Cenografia Eurico Lopes
Figurino Atelier Maria Gonzaga
Penteado Leonel – Le Salon | Cabeleira: Hairplus
Maquilhagem Paulo Julião
Fotografia de cena Rogério Martins

Agradecimentos Comité Jean Cocteau
Institut Français du Portugal

Apoios Encena - Agência de Actores
Auditório Lopes Graça – Câmara Municipal de Almada
Leonel – Le Salon | Hairplus
BIOGRAFIAS
Carmen Santos
Licenciada em Filologia Germânica, é no teatro universitário que tem as primeiras experiências teatrais. Começa também nessa época uma colaboração frequente na rádio e televisão. No ano de 1974 assume a situação de profissional. Começa em Os Bonecreiros e passa pela maior parte dos grupos teatrais de Lisboa – Teatro da Cornucópia, Companhia Nacional II (Teatro da Trindade), Teatro Estúdio de Lisboa, Teatro “A Barraca”, Companhia de Teatro de Lisboa (Graça Lobo), Teatro da Politécnica (de que foi co-fundadora), ACARTE, Teatro Aberto Comuna, Teatro da Malaposta, Teatro Maria Matos, Teatro da Trindade, Teatro Aberto e TNDM II.
Foi ainda co-fundadora do Novo Grupo de Teatro, sediado no Teatro Aberto. Depois do ano 2000, interpreta e protagoniza peças de Tennessee Williams – Bruscamente No Verão Passado; Anton Tchekov – Partitura Inacabada; Ligações perigosas de Christ. Hampton, adapt. do texto de C. Laclos; Imaculados de Dea Loher.
Tem sido presença frequente na TV – em novelas, séries e filmes televisivos, bem como no cinema, em curtas e longas-metragens. Trabalhou com realizadores como – Eduardo Geada, Jorge Queiroga, Joaquim Leitão e Manoel de Oliveira.

Vicente Alves do Ó
Assinou a sua entrada no mundo do cinema em 2000 com dois telefilmes da Sic/Animatógrafo 2 – Monsanto e Facas e Anjos, e a colaboração no projecto de António-Pedro Vasconcelos Os Imortais. Depois de três curtas metragens e alguns argumentos para realizadores portugueses, estreou-se como realizador de longas-metragens em 2011 com “Quinze Pontos na Alma”, com Rita Loureiro, João Reis e Marcello Urghege. Em 2012 lançou o seu primeiro romance “Marilyn à beira-mar” e o filme “Florbela”, com Dalila Carmo, Ivo Canelas e Albano Jerónimo. Sucesso de bilheteira, vencedor de vários prémios, actualmente em digressão internacional por vários países e festivais do mundo.
A sua ligação ao teatro começou no início dos anos 90. Trabalhou no Alentejo, Sines, onde fez algumas formações, escreveu e encenou peças para um grupo amador até ao momento em que se mudou para Lisboa. Desde então escreveu a peça “Amália em Nova Iorque” levada à cena com Maria José Pascoal, no Museu do Fado e tem apresentado micro-peças no Teatro Rápido, onde escreveu e encenou para os actores Anabela Teixeira, Eurico Lopes, Carmen Santos, Márcia Cardoso e Ricardo Barbosa.
Actualmente prepara a sua próxima longa-metragem e escreve o segundo romance com saída em 2014.

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