Sunday, September 2, 2012

"Memórias de Uma Mulher Fatal" no Teatro Nacional


"MEMÓRIAS DE UMA MULHER FATAL" de Augusto Sobral
Encenação de Rogério Vieira

O TNDM II recebe, cerca de 30 anos depois da sua estreia, MEMÓRIAS DE UMA MULHER FATAL, de AUGUSTO SOBRAL, com encenação e interpretação de ROGÉRIO VIEIRA. Esta produção, que valeu a Rogério Vieira o PRÉMIO REVELAÇÃO DA CASA DA IMPRENSA pela sua encenação em 1981, estará agora em cena, na Sala Estúdio do TNDM II, a partir de 13 DE SETEMBRO.

Combina-se nesta peça o exercício do teatro com um humor acutilante, revelando em palco a irresistível performatividade do ‘eu’. Uma mulher, Olinda, decide escrever as suas memórias, celebrando o seu triunfo de vida como uma “mulher fatal”. Imersa neste profundo mergulho de recordações, é interrompida por uma vulgar chamada telefónica. Porém, auxiliada pelo seu poderoso computador “Gestalt”, regressa a um caminho de contradições e surpresas.

Para Rogério Vieira, esta revisitação do texto trinta anos depois é também uma possibilidade de o espectador reencontrar "na Mulher Fatal os sinais, as parecenças com o comportamento do mundo que nos rodeia ou mesmo connosco próprios".

Memórias de uma mulher fatal estará em cena até 23 de setembro, de quarta a sábado às 21h15 e domingo às 16h15.


Texto de Augusto Sobral
Aconteceu-me a mim e a alguns da minha geração (eu estou a aproximar-me dos oitenta anos) seduzidos pela escrita teatral, sermos classificados com maior ou menor propriedade como seguidores do teatro do absurdo de acordo com o que ditava a moda literária na segunda metade dos anos 50 e na sequência de 60 e 70.
Também se tem dito que o teatro do absurdo era em Portugal, antes de 1974, um recurso dos autores para contornar as dificuldades criadas pela censura.
Por muito plausível que seja a ideia, como explicar então que, no século XX, o teatro do absurdo tenha surgido em países europeus onde a acção da censura se não fazia sentir?
E depois, o que é afinal o absurdo? Pois, por muito em evidência que ele esteja nos dias de hoje, talvez por ser a base alimentar dos humoristas, o absurdo esteve sempre tão presente na vida humana do planeta como o próprio ar que respiramos que, para além de nós, permitiu a vida de todas as espécies animais e vegetais.
Ora, do ar sabemos nós ser uma mistura de aproximadamente quatro partes de oxigénio para uma de azoto que no seu total deixa o espaço de um por cento para alguns gazes raros. Se lhes parece que têm pouco ar, evitem por precaução fazer a mistura em casa. Nunca se sabe.
Quanto ao absurdo, por muito estranho que isto possa parecer, é o companheiro inseparável da lógica desde que no séc. IV a.C. Aristóteles criou um artificio racional que visava demonstrar os limites da lógica, disciplina que Lewis Carroll ensinava e o terá motivado a escrever Alice no País das Maravilhas.
Claro que só quando já maior de idade juntei às minhas leituras a obra de Rabelais, e retomei Jonathan Swift, principalmente as viagens a Lagado e a Lapúcia e aos Picwick Papers de Charles Dickens, senti um grau de alegria tão profunda apesar de amarga que fizeram deles meus amigos inesquecíveis, nos momentos mais pessimistas da minha vida.
Se puder retribuir com o que escrevi dar-me-ei por feliz.
Augusto Sobral

Texto de Rogério Vieira
O revisitar das Memórias de uma mulher fatal. Mais velha. Mais gorda. Mais perigosa. Trinta anos depois continua a passar por cima de si própria e a perder, por completo, a noção de quem era antes. Voluntariosa, entra em conflito com o seu próprio computador - o seu duplo, a sua razão fria, a sua memória objectiva programada como seu agente para exercer o poder - e é obrigada a dar-se conta de que a vida é um jogo de relação permanente entre as pessoas. Como uma vez me referiu o autor da peça - ajuda preciosa na construção deste espectáculo: Afinal, como nas velhas histórias de vender a alma ao diabo, quem acaba por fazer melhor negócio? O diabo que compra a alma ou quem lha vendeu certamente na convicção de que ela valia pouca coisa? Soluções ninguém as encontrará no texto, mas penso que o espectáculo terá cumprido o seu fim se cada um encontrar na Mulher Fatal os sinais, as parecenças com o comportamento do mundo que nos rodeia ou mesmo connosco próprios.
Rogério Vieira

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