Memórias de Maria Dulce



por Lauro António
Aqui há dois ou três anos, Luciano Reis (honra lhe seja feita!) escreveu uma curta biografia sobre a actriz, que foi publicada com o título “Maria Dulce a Verdade a que tem Direito”. Luciano Reis soube que eu tinha uma particular estima pela actriz e pediu-me um prefácio, que escrevi com todo o gosto. Rezava assim:

PARA A MARIA DULCE COM AMOR

Durante alguns anos da minha adolescência vivi em Portalegre. Meu pai era professor e fora colocado nessa bela cidade do Alto Alentejo para se efectivar. Em finais dos anos 50, não sei precisar o ano, mas recordo que era um puto de 13 ou 14 anos que já tinha escolhido as paixões que me iriam acompanhar ao longo da vida. Uma delas era o cinema, outra a escrita, a leitura, os jornais, outra o SCP, outra as mulheres. Entre estas últimas, que na altura não eram ainda mulheres mas meninas mais ou menos da minha idade, encontrava-se a Maria Dulce, a Maria de Noronha, do “Frei Luís de Sousa”, filme de 1950. Devo ter visto o filme no ecrã do Teatro Portalegrense ou no cinema ao ar livre da Cine Parque, uma esplanada que funcionava durante o Verão.
Ainda me lembro hoje como era bonita a gaiata loura de catorze anos, com os cabelos encaracolados, que tinha pouco mais anos idade que eu, e cintilava brilhantemente nesse filme de António Lopes Ribeiro. Não sei mesmo o que mais me impressionou na altura – se o dramático “Ninguém!” do Romeiro, se a presença da bela Maria Dulce. Já se sabe que todos os putos têm sonhos, um dos meus sonhos era a Maria Dulce. Linda de morrer (ou não estivesse no “Frei Luís de Sousa”!) e, ainda por cima, actriz, e de cinema. Era tudo o que eu podia desejar. Em sonhos… para quem vivia em Portalegre, nos anos 50. Sabem o que era isso? Perdido junto à fronteira com a Espanha, a muitas horas de Lisboa, longe de tudo... ainda sem televisão. Só revistas de cinema, jornais diários, jornais regionais, um ou outro filme português no cinema da terra.
Existia, todavia, uma prática saudável. Rara, mas mesmo assim salutar: de tempos a tempos aparecia em digressão pela província uma companhia teatral, normalmente uma revista ou comédia de sucesso garantido, uma vez por outra algo de mais substancial. Havia também a Companhia de Teatro Itinerante Rafael de Oliveira, e outros espectáculos musicais.
Pois não querem então lá ver que um dia apareceu anunciada a presença de Maria Dulce em Portalegre! Integrada em que projecto (como hoje se diz), já não me lembro. Mas não devia ser grande coisa, uma revista montada para consumo na província ou um “sarau para trabalhadores”, daqueles que a FNAT promovia para “Alegria no Trabalho”. Mas eu queria lá saber da qualidade do “projecto”. O que me interessava era a Maria Dulce em Portalegre, e esse episódio não o esqueci mais. Por varias razões: por ver a Maria Dulce, “ao vivo e a cores”, diriam os putos de hoje; porque era teatro, ou algo semelhante, e tudo o que mexesse num palco, valia a pena, mas sobretudo por um acontecimento que ocorreu e que me marcou profundamente.
Passo a contar, para ficar registado para a História: anunciado o espectáculo para a noite do dia tal, calculei que a Maria Dulce e todo o elenco chegariam de véspera e ficariam instalados na Pensão Vinte e Um, a única então existente em Portalegre, onde todas as noites se podia ver a jantar o poeta José Régio, amigo da minha família, o que me fazia um frequentador assíduo da pensão. Consegui saber com facilidade quando chegava a comitiva, quantos dias iam ficar, introduzindo-me assim no segredo dos deuses.
Mal a Maria Dulce pôs o pé em Portalegre, já estava eu no seu encalço. Chegámos portanto à fala, à porta da Pensão Vinte e Um. Como já por essa altura escrevia umas “notícias” sobre espectáculos para os jornais da terra, pedi-lhe descaradamente uma borla para o espectáculo da noite. Eu e uns colegas de liceu que me acompanhavam. A Maria Dulce, com uma simpatia que rondava a sedução (mas o que não rondaria a sedução nela?), disse-me que deixaria bilhetes para nós na porta do Teatro, à hora do espectáculo. Assim foi. Às 21 horas, lá estava eu e os amigos a recolher a oferta: uma magnífica frisa para os atrevidos putos do liceu de Portalegre.
Nessa noite, cada palavra de Maria Dulce fazia aumentar a minha paixão. Que perdura até hoje, apesar dela não saber. Desencontros da vida.
Ao longo da tempos fui acompanhando a sua carreira, sempre com um interesse particular (um amor de adolescência não se esquece!). Uma ou outra vez tropecei em filmes medíocres (ela não voltou a ter muita sorte com os filmes, mas naquele tempo, quem tinha?), mas nunca por culpa dela, que tentava defender personagens banais em argumentos sem garra e realizações sem nada que as recomendassem. Em Espanha foi vedeta, mas também aí os filmes do período franquista não eram particularmente brilhantes. No teatro, porém, construiu uma carreira sólida, onde brilhou o seu enorme talento e dedicação à arte, sempre que havia oportunidade para o conseguir (Portugal é, todavia, madrasto para os seus artistas, já se sabe). Na revista obteve êxitos inesquecíveis. Na televisão, sobretudo ultimamente em séries e telenovelas, foi mantendo um registo de qualidade e de exigência para consigo própria e para com o seu público. Hoje é uma das presenças mais respeitadas e queridas do nosso espectáculo.
Já não tem os caracóis louros. Pois não. Vamos obviamente envelhecendo. “Os cabelos branqueando”, como dizia um nosso comum amigo, José Viana. Mas há dias, numa aula de História do Cinema Português, projectei o “Frei Luís de Sousa” e tudo voltou ao que era: eu adolescente, ela adolescente, a frisa no Teatro Portalegrense, Portalegre, à porta da Pensão Central, o autocarro com a companhia, pronto para regressar a Lisboa, eu a despedir-me de Maria Dulce, com o coração destroçado. Coisas de miúdos.
Um beijo para ti, Maria Dulce, do teu Lauro António.


Há coisa de ano e meio, recebi um telefonema de Maria Dulce. Estava sem trabalho, morava em Mora, no Alentejo, sozinha, tinha uma pensão miserável, passava por dificuldades, ia neste ano de 2010 comemorar 60 anos de carreira (tinha-se estreado ao treze, em “Frei Luís de Sousa”) e perguntava-me, a medo, se eu quereria integrar um projecto que ela tinha. Queria comemorar os seus 60 anos de carreira, havia um grupo de admiradores que propunha uma festa de homenagem, e ela, que tinha assistido a um festa idêntica, realizada em Oeiras por mim, em relação a José Viana, dizia-me que só aceitava que fosse eu a organizar os festejos. Uma festa, e se possível um vídeo sobre a sua vida e obra. Se eu aceitava? Claro que aceitava. E logo nessa altura a convidei a integrar o Júri de um festival que se realizaria em Maio, em Portel. Até uns dias antes do certame, contei com ela, teríamos alguns dias para falar do projecto. Mas, na altura do festival, ela fora convidada por Celso Cleto (honra lhe seja feita!) para integrar o elenco da peça "Hedda Gabler", de Henrik Ibsen, produzida pelo Dramax, com a qual se apresentou em vários palcos nacionais e no Círculo de Bellas Artes, em Madrid. Não pôde estar no Festival, mas combinámos para mais tarde continuar a nossa conversa. Depois ela andou em tournée, durante vários meses, e eu fui parar ao hospital durante uma semana que deixou algum rasto. Voltámos a falar e a adiar o encontro, ela tinha um outro projecto, andava um pouco mais animada.
Hoje telefonaram-me a dar conta da triste notícia.
Lamento, Maria Dulce, que os tempos tenham sido de novo madrastos para projectos conjuntos. Mas acredita que teria tido o maior prazer em organizar a tal festa de homenagem e dirigir o documentário sobre a tua vida e obra. Bem os merecias. Bem os mereces. Beleza e talento não te faltaram. Apenas alguma sorte, neste tão triste final de vida.
E continuo a despedir-me, como o fiz no prefácio ao livro: “Um beijo para ti, Maria Dulce, do teu Lauro António”. As paixões da meninice nunca se esquecem.






Filipe La Féria: “Se fosse inglesa era uma dame, aqui morreu pobremente”

O encenador Filipe La Féria classificou Maria Dulce, hoje falecida, aos 73 anos, como “uma grande actriz” que, “se fosse inglesa, era uma dame” mas em Portugal “morreu pobremente, com dificuldades, esquecida por todos”.
“A Maria Dulce foi uma estrela do teatro de revista e sobretudo do cinema. Ela fez filmes extraordinários. Estreou-se como actriz no ‘Frei Luís de Sousa’ ainda muito nova, com 12 anos. O seu nome ficará sempre ligado ao cinema português e também ao teatro ligeiro. Ela, comigo, fez, na Casa da Comédia, o ‘Faz Tudo, Faz Tudo, Faz Tudo’ – que foi uma peça memorável em que ela fazia um papel extraordinário – e fez na televisão comigo também a ‘Grande Noite’”, disse o encenador à agência Lusa.


“Era uma actriz excelente, uma chamada vedeta de revista – isto, no bom sentido – uma mulher lindíssima, com uns olhos verdes fascinantes e com uma voz que prendia o público. É pena que esse teatro esteja tão decadente, porque ela foi um bocadinho vítima do declínio do teatro em que ela era uma estrela absoluta”.

Filipe La Féria classificou ainda Maria Dulce como “uma actriz versátil”, que fez “desde teatro de revista ao teatro clássico”, no Teatro Nacional D. Maria II, na Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro.

Na sua opinião, a memória dela “ficará muito presa ao cinema, sobretudo à Maria de Noronha que ela faz fantasticamente no ‘Frei Luís de Sousa’ do António Lopes Ribeiro”.

O encenador referiu ainda o facto de a actriz ter também feito “muita televisão”, e sublinhou que “era uma actriz de primeiro plano” e “uma mulher lindíssima”:

“Trata-se de uma grande actriz que desaparece, infelizmente muito esquecida quer pelo público, quer pelos responsáveis pela cultura. Não era uma segunda figura, mas uma primeira figura do teatro português, fez trabalhos fantásticos. Se fosse inglesa, era uma dame. Aqui não, aqui morreu pobremente, com dificuldades, e esquecida por todos. É muito o espírito português, infelizmente. Em Portugal, as pessoas são muito esquecidas e maltratadas. Só quando morrem é que se lembram delas... Isso deixa-me triste, deixa-me muito triste.”
in Público

Fotos de camarins de "Hedda Gabler" em Ilhavo (2009) de Helder Bugios

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