Morreu Orlando Worm








O desenhador de luz Orlando Worm, que trabalhou os principais espaços das artes de palco portuguesas e fundou com Graça Barroso e Vasco Wellenkamp a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, morreu ontem à noite aos 71 anos. Ao PÚBLICO em 2006, dizia considerar-se, mais do que um decano da sua profissão, "um realizador de TV".

Worm morreu no Hospital de S. Francisco Xavier, em Lisboa, vítima de doença prolongada, indicou à Lusa fonte da companhia. O corpo de Orlando Worm vai estar a partir das 16h30 de hoje na capela de S. Miguel, em Sintra, de onde sairá sexta-feira o funeral, pelas 10h30, para o Cemitério de Colares.

Orlando Worm teve uma carreira de mais de cinco décadas em que iluminou teatro, bailado, ópera, jardins, concertos, recitais e exposições. "Em televisão faz-se grandes planos [dos actores] e o público vê o que o realizador quer mostrar. No teatro isso não é possível, não podemos fazer grandes planos. Mas podemos [com as luzes] separar os actores uns dos outros, podemos chamar a atenção do público para o actor que quisermos", resumia em 2006.

Nascido em Odivelas a 21 de Setembro de 1938, Orlando Worm estreou-se em palco não como iluminador ou técnico, mas como figurante na "Aida" de Verdi no Coliseu de Lisboa, como escrevia o "Diário de Notícias" num perfil do técnico em Abril. Tinha 16 anos, vivia em Lisboa há nove anos e começava assim uma carreira em que, pouco tempo depois, se tornava técnico de cena do Coliseu, electricista e técnico de cena no Grupo Experimental de Bailado da Fundação Gulbenkian, que se viria a tornar o Ballet Gulbenkian.

Tudo o que sabia, aprendeu com a prática. "Fiz o curso industrial [técnico] de electricidade, comecei a trabalhar em empresas de electricidade e às tantas fui parar ao Coliseu dos Recreios, a fazer reparações da instalação. Estando lá, não tendo nada a ver com o espectáculo, acabei por entrar no mundo dos espectáculos, porque as pessoas pediam-me ajuda para as afinações", recordava ao PÚBLICO após a atribuição do prémio Luzboa-Shréder, em 2006. Mas também com aquele que considerava o seu mestre, Liége de Almeida, chefe dos electricistas do Teatro São Carlos.

Passou muitos anos na Fundação Gulbenkian, trabalhando tanto como técnico quanto como performer: integrou durante anos o Coro Gulbenkian, entre outros grupos corais da área de Lisboa, tendo mesmo colaborado com a compositora Constança Capdeville na década de 1970, como indica o "Diário de Notícias" num perfil publicado em Abril deste ano. Seguiu-se um período de três anos no Teatro Nacional São Carlos entre 1989 e 1992, outros três anos no Centro Cultural de Belém e participou em eventos como Lisboa - Capital da Cultura 1994 e Expo 98 (Teatro Camões). Trabalhou também com o Teatro Nacional São João, no Porto.

"De cada vez que se criava novo espaço de espectáculos ou que era preciso um grande director técnico foi sempre a ele que toda a gente recorreu", diz o encenador e actor Luís Miguel Cintra num texto enviado ao PÚBLICO a propósito da morte de um amigo e colega.

Orlando Worm aliou-se ainda durante anos à produção teatral de companhias independentes como o Teatro da Cornucópia, onde se cruzou com Jorge Silva Melo e Luís Miguel Cintra, Escola da Noite, ou Teatro Experimental do Porto.

Foi um dos fundadores da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo em 2008 e participou na criação de obras de vários dos nomes essenciais da nova dança portuguesa e dos palcos portugueses, de Ricardo Pais a Olga Roriz, passando por Vasco Wallenkamp ou Fernanda Lapa.

E espalhou a sua luz e técnica pelo mundo. "Criei luzes, ou seja, criações novas, na Croácia, França, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Bélgica.Agora, repor espectáculos já estreados em Portugal, isso são países que nunca mais acaba." Mantinha-se actualizado com as inovações tecnológicas, mas preferia o trabalho manual. E estava já satisfeito com a dimensão ganha pelo seu trabalho, pela luz, nos palcos teatrais, da dança ou dos concertos.

Pai de Isabel Worm, directora do Centro Olga Cadaval (Sintra) e padrasto de Daniel Worm d" Assumpção, também desenhador de luz e colaborador de longa data da Cornucópia, Orlando Worm venceu em 2006 o Prémio Luzboa-Shréder, atribuído pela direcção da bienal de Luz de Lisboa. O técnico foi homenageado a 22 de Maio deste ano com um espetáculo no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, pelos seus 50 anos de carreira.
Joana Amaral Cardoso in Público

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