Culturgeste recebe Jorge Silva Melo

Na quinta-feira, 15 de Julho, às 19h30, no Palco do Pequeno Auditório da Culturgest, terá lugar a estreia (nacional) de Um Precipício no Mar (Sea Wall) de Simon Stephens, com encenação de Jorge Silva Melo. No dia seguinte, às 21h30, o Grande Auditório da Culturgest recebe a estreia absoluta da Fala da Criada dos Noailles que no fim de contas vamos descobrir chamar-se também Séverine numa noite de Inverno de 1975, em Hyères, uma paródia inconsequente de Jorge Silva Melo encenada pelo próprio. Estes dois espectáculos dos Artistas Unidos são integrados no Festival de Almada.
Um Precipício no Mar conta a história de Alex, da sua mulher e filha – e de como a felicidade é brutalmente interrompida, num dia de sol e junto ao mar. As marés mais inesperadas podem apanhar os homens mais felizes e levá-los com elas, para o mais escuro nada. “Esta peça é um mar azul enganadoramente calmo debaixo do qual se esconde uma feroz corrente de dor”: assim saudou Lyn Gardner, no Guardian, esta peça breve de Simon Stephens, autor revelado entre nós em 2009 (no Teatro Nacional D. Maria II, com a peça Harper Regan). “O triunfo da narração na sua simplicidade gloriosa”, escreveu Alice Jones no Independent.
Em A fala da criada... uma eterna criada evoca as ricas horas dos mecenas, os bailes loucos, a arte livre, o amor livre, o financiamento de L’Âge d’Or de Luis Buñuel, tudo na altura em que se anuncia a vinda do realizador espanhol ao palacete de Hyères onde ainda vive o Conde de Noailles, mecenas que foi dos surrealistas: estamos a meio dos anos 70 e os anos loucos já se foram, com as jóias da família. Muito livremente inspirado em O Meu Último Suspiro de Buñuel – e nas botinas do seu Diário de Uma Criada de Quarto, é claro. E Séverine era a Belle de Jour do romance de Joseph Kessel de que Buñuel e Oliveira se apropriaram, maliciosos.
Um Precipício no Mar será também apresentado no dia 15 às 21h30, nos dias 16 e 17 às 19h30 e 23h00, e no dia 18 às 16h00 e 18h30. Os bilhetes para este espectáculo têm um preço único de 5 Euros.
A fala da criada... será também apresentado no dia 17 às 21h30 e no dia 18 às 17h00. Os bilhetes têm o preço de 12 Euros; jovens até aos 30 anos têm um preço único de 5 Euros.

Sobre a peça A fala da criada..., Jorge Silva Melo escreveu, já neste mês de Julho, o texto UMA PEÇA SEM QUALQUER IMPORTÂNCIA, que aqui transcrevemos na íntegra:

“Pois é, não tem qualquer importância esta peça, nenhuma mesmo. Nem resolve problemas das periferias, nem integra novas linguagens, a tecnologia é a do pão com manteiga, nem sequer forma, informa, educa para o que quer que seja, nada, nem dá créditos curriculares, nem com ela se aprende a comer à mesa - é só uma horita e não serve para nada, nem é multi-étnica, cultural, nada, nem tem vídeo nenhum, nem o seu título é em inglês, vê-se logo, não tem qualquer importância.
Pois se nem tem filosofia - nenhuma, mas nenhuma mesmo.
Nem frases soltas de antropólogos (que ficam tão bem quase sempre).
É só uma peça de teatro.
E não tem qualquer importância, passa-se em França, só entram mortos, e mesmo os mortos já tinham pouco dinheiro quando vieram ao nosso encontro, mortos que falavam francês, língua de velhos em trem de desaparição, de onde nem já galicismos conseguimos importar, os poucos que ainda tentam ler o falido Le Monde ou mandar vir aquele último cd da Françoise Hardy – que, lembro-me agora, ainda não me chegou.
É uma peça de teatro (Só isso? E porquê mais uma? E para quê?) e foi escrita já lá vão três anos e meio, editada há três, só agora a conseguimos montar, ninguém mais entretanto a quis, o dossier arrastou-se por várias mesas, só agora ensaiamos, só agora a estreamos. E até posso suspeitar que foi por amizade que a escolheram, o Miguel Lobo Antunes e o Francisco Frazão, aqui, na Culturgest, obrigadinhos, pá.
Três dias em Julho em Lisboa, quatro em Setembro no Porto, pronto, fica a coisa arrumada.
Não tem qualquer importância.
É uma peça escrita em casa, eu cá para comigo, com muito café quente, sozinho, sem ser no meio dos ensaios de um hipotético colectivo. Não é porque não ache bem, mas que querem?, gosto de escrever de manhãzinha, antes de o sol se levantar, ainda ninguém está acordado a essas horas que eu possa convidar para vir escrever comigo, quatro-cinco da manhã, e eu depois, à tarde, fico cansado, nos ensaios gosto é de olhar para os actores, se me pusesse a escrever no ensaio, nem via as raparigas, e ainda me enganava, como tantos, com a conjugação do maldito verbo haver.
É uma peça pacatamente escrita em casa, no meu escritório, com muitas saudades, ai tantas – e a pensar numa actriz minha muito amiga, Elsa Galvão (é maravilhosa, marota!), uma actriz que gosto de ver, de ter por perto, maravilhosamente meiga, uma actriz-como-não-há-pessoas-assim, é que não há, não.
São coisas que não têm importância, escrever peças sem prémios para uma actriz sem globo, peças que não aumentam o PIB nem o turismo cultural, peças (mais uma, benza-o Deus!), só isso.
É porque é só uma peça tremendamente fora-de-moda.
Antiquadita, pois.
Como será antiquado este meu gosto pelos actores, gosto tanto deles, mon Dieu, comme je les aime! E com o reumático que avança, olhem, perdi o juízo e gosto de todos, búlgaros, croatas, mexicanos, ribatejanos ou lisboetas, gosto de todos, franceses e italianos, são tão improváveis, tão bonitos de se ver, vaidosinhos, audazes.
Ah, e querem saber uma coisa séria?
“A frivolidade só é frívola para aqueles que não são frívolos”, dizia a Darrieux naquele filme de vir-às-lágrimas que é a Madame De de Max Ophüls.
Mas se já nem o João Bénard da Costa pode vir rir-se connosco, não é? Com aquele riso gutural que lhe sacudia o corpo inteiro, já não vem.
E eu fico triste, sim. Por esta peça ser assim, sem qualquer importância.

Ps.: Esta peça com o seu título e tudo, lembrei-me de a escrever depois de um convite que me fez a Maria João Seixas para organizar a sessão Mecenas. Mecenas na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2007. O texto foi editado pelo André Jorge nos Livros Cotovia – e o Pedro Proença fez quatro ilustrações que eu achei belíssimas. Não, não foi uma encomenda, uma tarefa, uma comissão, um mestrado, doutoramento, nada disso. Apeteceu-me. Dão licença?”

Simon Stephens nasceu em 1971, no Reino Unido. Formado pela Universidade de York, é hoje uma voz cada vez mais significante no teatro em inglês. As suas peças são muitas vezes explorações sobre a condição humana da vida familiar. Embora a sua escrita seja muitas vezes brutal, encerra um optimismo e uma autenticidade que o destacam dos autores da geração In-yer-face. Até 2005, Simon Stephens trabalhou no departamento literário do Royal Court Theatre. A sua peça Pornography foi aclamada na estreia em 2008 no Festival de Edimburgo. Das suas peças destacam-se Bluebird (1998), On the shore of the wide world (2005), Motortown (2006), Harper Regan (2007) – que Ana Nave encenou em Maio passado, no Teatro Nacional D. Maria II, com interpretação de Luísa Cruz no papel de Harper Regan – ou Punk rock (2009).

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