José Saramago no Teatro


Blimunda, o Orfeo no feminino ou passagem de Blimunda por Itália
Maria Armandina Maia

«Blimunda», a ópera lírica em trê actos que às 21.30 do dia 20 de Maio de 1990 estreava no Teatro Lírico de Milão, tinha a assinatura do compositor italiano Azio Corghi, autor de uma obra consagrada, que conhecera representações nos mais prestigiados teatros e salas de concerto, também a nível internacional. Na obra deste compositor, responsável pela Cátedra de Composição no Conservatório de Milão, colaborador da Fundação Rossini e da Casa Ricordi, ocupavam lugar de indiscutível relevo as obras musicais que resultavam de incursões pelo mundo literário, sobretudo com a composição Gargantua, experiência de tal modo notável que levaria o Teatro alla Scala de Milão a confiar-lhe o projecto da ópera lírica Blimunda, extraída do romance de José Saramago, Memorial do Convento.

O autor do Memorial tinha, por essa altura, três obras suas publicados em Itália: Memoriale del Convento, Feltrinelli, Milano, 1984; La Zattera di Pietra, Feltrinelli, 1987; e Storia dell'Assedio di Lisbona, Bompiani, 1990, traduções assinadas por Rita Desti (com excepção do Memoriale del Convento, fruto de uma tradução a quatro mãos, de Rita Desti e Carmen Radulet).

Para o vasto e exigente público italiano, Saramago era o autor português mais conhecido depois do «fenómeno» Pessoa, o primeiro a merecer destaque e interesse de casas editoras que constituíam um selo de garantia. No entanto, era junto de um núcleo de intelectuais que José Saramago assumia foros de verdadeira revelação, pela qualidade e ineditismo da sua palavra literária.

Ligado, na sua maior parte, a Instituições Universitárias, este grupo promovia a obra e o escritor que, pela sua mão, conheceu cidades como Perugia, Florença, Roma, Milão e Turim, em conferências e reuniões que se multiplicavam.

Foi, aliás, num destes momentos que conheceu Azio Corghi, que, impressionado pela atmosfera criada no Memorial, confessou a José Saramago o seu desejo de «contar a história de um Orfeu no feminino». A resposta de Saramago baptizaria a ópera. «Chamá-la-emos Blimunda».

Num exercício de grande unidade, escritor e compositor intersectaram os respectivos saberes, dando lugar ao magnífico trabalho que é o libreto de Blimunda, descrito pela crítica Lidia Bramani (casa Ricordi), como «uma estrutura em que são determinantes a voz recitante, solistas, oiteto madrigalista, coro, orquestra, electrónica, que se intersectam ao longo de linhas que se fragmentam e refazem, entrecruzando-se, distanciando-se, por vezes tocando-se ao de leve em três espaços musicalmente e cenograficamente distintos: o espaço acústico, o espaço imaginário e o espaço real».

Mas a estreia da ópera não se limitou em Milão ao público da sala que na noite de 20 de Maio encheu o Teatro Lírico, para aplaudir uma obra que, num só tempo, nos deslumbrava e quase estarrecia pela opulência, grandiosidade e magnificência, mas também pelo seu próprio e surpreendente avesso, na contenção da gestualidade, na pureza dos sons, no acenar dos sentidos.

Nos dias que a antecederam, numa organização promovida pela Universidade de Milão, tinha lugar o Colóquio Viaggio intorno al Convento di Mafra, na belíssima «Sala di Rapprezantanza», cujo programa era completado por um concerto de homenagem a autores portugueses do tempo – Carlos Seixas, Domingos Bomtempo e Francisco Lacerda – excelentemente interpretados por um grupo do Conservatorio Verdi, ao qual a Fundação Calouste Gulbenkian, num assinalável esforço de colaboração, facultara, num curtíssimo espaço de tempo, as partituras das obras.

Um vasto público ouviu, entre outros, textos de Piero Ceccucci: Il «Memoriale del Convento» nell'itinerario narrativo di José Saramago e Eduardo Lourenço: O Memorial da história humana como história santa.

De registar, sobretudo, as intervenções dos dois autores, Azio Corghi e José Saramago, que se prolongariam num longo debate com o público, em que falaram longamente do(s) sonho(s) de cada um: «Eu acho que, depois de o padre Bartolomeu Gusmão ter inventado a "passarela" e eu ter inventado a "máquina para viajar", é chegado o momento de o Maestro Corghi explicar a sua obra». A resposta de Corghi deixa clara a unidade da travessia entre a obra e a ópera: «História e história tenderiam para harmonizar-se numa síntese até exigirem, tornando-a "quase necessária", a intervenção da música».

Voltando às palavras de Lidia Bramani «A extraordinária coerência estrutural do Memorial do Convento permite compreender globalmente o pensamento do escritor. Mantendo um desenrolar de sequências, Saramago torna o tempo narrativo centrífugo, dissolvendo a rigidez deste a partir do interior. O tempo psicológico, individual e colectivo vence o da narração convencional graças a uma prosa moderníssima, barroca, opulenta, transbordante de rasgos de projecção, simultaneamente capazes de uma suavíssima essencialidade».

Foi assim no tempo de estreia de Blimunda em Itália. E foi também assim que José Saramago se fez Nobel: com uma estatura de excelência e humildade que ampliou, indelevelmente, o espaço da literatura e da cultura portuguesas no mundo.
in "Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas"

di Azio Corghi (1937-)
libretto proprio e di José Saramago, dal romanzo Memorial do Convento di Saramago
Opera lirica in tre atti
Prima: Milano, Teatro Lirico, 20 maggio 1990

Personaggi: Domenico Scarlatti (rec); Giovanni V, re del Portogallo (rec); Donna Marianna, la regina (rec); Maria Barbara, loro figlia (rec); Fra Antonio de San José (rec); Sebastiana Maria de Jesus (A); Bartolomeu Lourenço de Gusmao (Bar); Baltasar Mateus (T); Blimunda, figlia di Sebastiana (Ms); l’Infante Don Françisco (m); un frate corpulento (m); popolo di Lisbona, operai della fabbrica di Mafra, componenti la processione dell’auto da fé, frati, inquisitori, boia, condannati, pellegrini, coro madrigalistico

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