Thursday, March 12, 2009

Opinião: "O Inspector Geral" n'A Barraca






Estreou na Barraca um novo espectáculo, “O Inspector Geral”, segundo obra de Nikolai Vasilievich Gogol, escritor ucraniano, nascido em Velyki Sorochyntsi, Poltava, Ucrânia, a 20 de Março de 1809, e falecido em Moscovo, a 21 de Fevereiro de 1852. Apesar de nascido na Ucrânia, escreveu toda a sua obra em russo, pelo que é considerado um dos grandes autores da literatura russa. Filho de um oficial cossaco dado às letras, e de uma mãe de inquebrantável fé religiosa, de ambos recebe influência directa. Inicialmente empregado num modesto escritório em São Petersburgo, num qualquer ministério, colhe dessa experiência inspiração que deixa inscrita nalgumas das suas principais obras, como “O Capote” (1843), “O Inspector Geral” (1836) ou “Almas Mortas”. Amigo de Alexander Pushkin, com ele estabelece curiosas afinidades. Será Puskin quem o defende perante as críticas e a incompreensão da sua obra muito cáustica para com a condição humana e a sua prática na Rússia czarista. Professor na Universidade de São Petersburgo (1831 - 1835), publica inúmeras novelas e romances de grande sucesso. Viaja pela Europa, Itália, França, Alemanha, e em 1848 faz uma peregrinação a Jerusalém. A saúde precária e uma certa tendência para a hipocondria levam-no a um misticismo exacerbado e ao delírio (segundo consta, num desses momentos queima grande parte da sua obra). Companheiro de uma geração de escritores notáveis, como Pushkin, Liermontov ou Turgeniev, Gogol morre. É enterrado no meio das maiores honras nacionais, ficando sepultado no cemitério de Novodevitchi, em Moscovo.


Entre as suas obras mais conhecidas, e para lá das já citadas, contam-se “Taras Bulba”, “O Nariz”, “O Retrato”, “O Diário de um Louco”, “Arabescos”, “Noites na Granja ao Pé de Dikanka”, “Uma Terrível Vingança” ou “Mírgorod”. Em 1965, Raul Solnado estreia o seu Teatro Villaret com uma, na altura, muito polémica versão de “O Inspector Geral”, de bela recordação. Jacinto Ramos também nos deixou na memória uma encenação e interpretação de “O Diário de um Louco”. No cinema, as adaptações de obras de Gogol atingem a centena. De “O Inspector Geral” Danny Kaye deu-nos uma inspirada comédia (realizada por Henry Koster, em 1949), mas outras versões se conhecem: uma checoslovaca, “Revizor” (1933), dirigida por Martin Fric, outra egípcia, “Al Mufattish al-amm” (1956), de Helmy Rafla, e, finalmente, uma para televisão, americana, com realização de Arvin Brown (2000). Na “Barraca”, a versão é actualizada e aportuguesada. A encenação é de Maria do Céu Guerra e a música original é de autoria de António Victorino D’Almeida, sendo executada ao vivo. Diga-se desde já que é uma re-interpretação da comédia de Gogol que, mantendo-se fiel ao espírito do texto, o torna mais “legível” num contexto nacional. O que, bem vistas as coisas, tem todo o cabimento, ainda que o mesmo texto se possa referenciar a qualquer país e qualquer tempo. Presidentes da Câmara populistas, corruptos e ridículos é o que há mais por esse mundo fora e Gogol, num rasgo de génio, mostra-o bem nesta sátira corrosiva, onde um autarca com pesos vários na consciência, recebe a notícia de que dentro em breve será visitado por um inspector geral que virá da capital inspeccionar o burgo. Obviamente que procura ornar a terra com o que de melhor nela sobrevive, e tenta sobretudo, por todos os meios, descobrir o temido visitante antes de este o perceber, para assim o mimar com regalias, e mesmo algumas notas extras, para lhe adoçar a boca e o relatório final. Acontece que, na ânsia de localizar o desconhecido, se engana na personagem. Honrarias, jantares, notas de banco e mesmo o excessivo afecto da mulher da filha vão direitinhos para quem não os merece, e o imbróglio fica feio no final.


É a própria Maria do Céu Guerra quem escreve: “Durante quase duzentos anos debateram-se opiniões sobre esta obra de Gogol. “Estamos diante de uma sátira de costumes”, disse-se. “De uma obra política?”. Outros defenderam “é uma obra de dimensão metafísica”, uma obra moral, um exercício de fantástico e de absurdo onde o sonho, o medo e o remorso dominam.” E conclui: “Felizmente vivemos um tempo que entrelaçou Brecht com Stanislasvki e Marx com Freud. Estamos livres para olhar para este impostor, estrangeiro, diabo, nada, com a liberdade de não querermos saber o que foi ele para Gogol, mas o que pode ser para nós hoje. Para mim, se querem saber, estamos diante de tudo isso e de um escritor/artista a jogar às escondidas com o seu pânico. Mas sobretudo estamos num Baile de Máscaras onde ninguém é quem mostra ou, sequer, quem julga ser. No coração das trevas, lá mesmo onde o teatro acendeu uma luz. Uma obra que permite a actores e directores a realização de grandes trabalhos e ao público um arraial de gargalhada.”


A encenação “cruza Brecht com Stanislasvki”, é certo, mas muitas vezes avizinha-se da “Commedia dell'arte”, pela caracterização de personagens, pelo uso da música e de máscaras, pelas próprias movimentações dos actores. Começa morna, definindo personagens e situações, e vai crescendo até um final apoteótico. Tem magníficos achados, anotações de um humor inteligente e eficaz (que o cenário e os seus volumes habilmente dispersos pelo espaço muito beneficiam, como nas cenas das notas acenadas, ou das manifestações apenas adivinhadas).
A interpretação é globalmente boa na sua vertente de paródia moral, com especial destaque para Céu Guerra e João de Ávila. Mas os restantes situam-se a bom nível: Adérito Lopes, Carla Alves, Jorge Gomes, Pedro Borges, Rita Fernandes, Sérgio Moras, Sérgio Moura Afonso, Susana Costa, António Rodrigues e, ao piano, Madalena Garcia Reis. A partitura musical de António Victorino d’ Almeida é inspirada e inspiradora de bons momentos. O cenário de Maria do Céu Guerra, realizado por Mário Dias, volumetricamente permite circulações e efeitos excelentes, mas creio que poderia ter sido beneficiado com um outro colorido, menos sombrio, mas igualmente acabrunhante.



“A Barraca” (Largo de Santos, 2, Lisboa) - Teatro Cinearte, Sala 1, Qui a Sáb: 21h45 Dom: 17h; Maiores 12 anos; bilhetes: 12,50€ (público em geral) e 10€ (menores 25 anos, maiores 65 anos, profissionais do espectáculo, estudantes, reformados e grupos mais 15 pessoas). Telefone: 213 965 360/275; Internet: www.abarraca.com; E-Mail: barraca@mail.telepac.pt; bilheteira@abarraca.com.



Lauro António in “LauroAntonioApresenta”

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