CETA: 50 anos a fazer do teatro uma história de referência







Pelas mãos de um grupo de jovens pertencente ao corpo redactorial do Vae Victis - Suplemento literário juvenil de "O Litoral", o CETA - Círculo Experimental de Teatro de Aveiro nascia em 1959.

Nesse mesmo ano, o CETA mostra para que veio ao mundo. O primeiro espectáculo, as peças "O Urso", de Anton Tcheckov, "O Dia Seguinte", de Luiz Francisco Rebelo e um entreacto de poesia de Carlos Morais, é proibido de ser apresentado pela Pide. A justificação da censura apontava para o texto de apresentação das peças escrito por Mário Sacramento.

O espectáculo só foi possível após ser eliminado na totalidade o referido texto e substituído por outro, da autoria de David Christo. O CETA nunca mais parou. Levou à cena cerca de 80 peças, sem contar com os diversos espectáculos de rua, proporcionou formação a muitas crianças e jovens em todos os domínios cénicos, despoletou o bichinho do teatro em muitos outros, organizou palestras e colóquios, editou uma revista de poesia e livros de teatro, trouxe a Aveiro um conjunto diversificado de grupos nacionais e estrangeiros, quer ligados ao teatro quer a muitas outras vertentes culturais (da música à dança, ao folclore, ao cinema, à poesia).



Este ano o CETA comemora 50 anos de vida e quer voltar a ser História.

Quis o destino que os 50 anos do CETA fossem comemorados pelo presidente da associação António Morais, actor por paixão, professor de matemática, filósofo, sindicalista e engenheiro agrónomo por… destino.
Natural da Venezuela, cedo veio estudar para Fermentelos, a terra paterna. Regressou à América do Sul e daí para Barcelona. Entre as licenciaturas de Filosofia e engenharia Agrónoma, o teatro foi-lhe crescendo nas veias. Chegou ao CETA em 2002, feito actor numa peça para a infância. Ficou com um enorme sorriso. Até hoje.

O que é que o teatro tem que cativou o engenheiro agrónomo, o filósofo, o professor de matemática e o sindicalista António Morais?
[risos] O teatro tem qualquer coisa de mágico, de extraordinário, que muitas vezes nem se sabe explicar bem o porquê de ser tão cativante. Os gregos achavam que o teatro era catártico. E é mesmo. É uma actividade que me compensa de alguma frustração, de algum desespero e de algum stress da minha vida profissional. Vestir a pele de outras pessoas, encarnar personagens e sair de mim próprio é uma coisa fabulosa. E depois, os momentos mágicos de comunhão com o público são algo de extraordinário. Quando entramos em sintonia com o público – nem que seja apenas por breves momentos – sente-se um poder absoluto em palco e o público faz exactamente o que queremos. Temos o poder de silenciar o público por ele estar perfeitamente embevecido com as nossas palavras e com os nossos gestos… Essa simbiose é uma coisa extraordinária quase impossível de descrever.

O exercício de humildade que é preciso para o actor se colocar na pele duma personagem choca com uma certa arrogância que pode advir do poder que o actor tem perante o público?
Eu não lhe chamaria arrogância. O poder a que me refiro é o da comunhão com o público. É nessa relação com o público que o levamos para onde queremos, que se consegue extasiá-lo e extasiarmo-nos com o encantamento dos outros. Em relação ao colocarmo-nos no papel do outro, isso permite-nos sentir o que muitas vezes na nossa vida quotidiana nunca sentiríamos. Ou seja, ter outros sentimentos e outras emoções, pois normalmente fazemos personagens que são extremas: a prostituta, o bêbado, o louco… São personagens que nos trazem sensações que, em princípio, na nossa vida normal não experimentamos. Mas em palco, se formos suficientemente verdadeiros a representar aquela personagem, fazemos quase um exercício esquizofrénico através do qual se sentem outras coisas.

Que personagem encarnou que seja um verdadeiro extremo do António Morais?
Houve personagens que encarnei e que me afectaram bastante psicologicamente. Há uns anos atrás, no Efémero [em Aveiro] fiz a peça do Pirandello intitulada "Assim é se lhe parece". Nela interpretava um marido que tinha rasgos de loucura. Mas nunca se chega a perceber se esse marido é doido ou se é a sogra que é doida. Há um jogo em que o autor brinca com o público num jogo dicotómico.

Outra personagem muito forte foi o Sr. Silva, em "Os marginais e a revolução", uma peça do Bernardo Santareno. Fazia de um indivíduo revoltado antes do 25 de Abril. Era um ser que não estava em consonância com o fascismo mas que nunca teve a capacidade de manifestar essa revolta interior. E quando chega o momento da libertação ele sente que a festa não é dele por se ter acomodado covardemente à não expressão da sua revolta. Foi uma personagem complicada porque me foi comovente viver aquele cobarde que não mostrou a sua revolta, que não lutou activamente quando a sua vontade interior era essa.
Outra personagem que me tocou foi a de um indivíduo alemão, que era comunista no tempo do nazismo. Este indivíduo abandona a mulher judia e o filho para se dedicar por inteiro à luta contra o nazismo. Descobre entretanto que a luta dele é inglória porque Hitler assina um pacto com Estaline. Nesse momento a sua luta, que para ele que era tão sagrada a ponto de sacrificar a família, perde todo o sentido. Quando regressa a casa descobre que a família tinha sido levada para um campo de concentração.

Três vidas em eminente implosão…
São peças extremamente fortes. Vai-se até há raiz do sofrimento da pessoa humana.

Essas vidas deixaram-lhe repercussões?
Tudo vai enriquecendo a pessoa humana. Por isso hoje já não sou tão leviano a julgar os outros pelos comportamentos que têm porque sinto que estas pessoas, as das personagens, por exemplo, não poderiam ser julgadas de ânimo leve porque não expressam exactamente o que sentem. Portanto, o julgamento do comportamento que fazemos rapidamente do outro é bastante leviano porque não vai ao fundo e ao sofrimento que, eventualmente, a pessoa leva por dentro. O teatro também tem esta componente de tolerância para com os outros.

O CETA nasceu em pleno Estado Novo. Pretendeu a associação ser uma lufada de ar revolucionário em Aveiro?
Eu não estive na origem do CETA por isso não posso falar com certezas. Mas havia uma inquietação nos jovens que fizeram o CETA nascer de fazer qualquer coisa pela cultura mas, eventualmente, também, de terem um papel activo na sociedade e, de alguma forma, de resistir contra o regime que imperava. E eles canalizaram as suas energias para o teatro e isso foi muito importante para muita gente de Aveiro e da Região. Criou-se aqui um pólo cultural mas também de resistência política.

A cultura pode incomodar os poderes instituídos?
Acho que a cultura tem sempre qualquer coisa de resistência e de subversivo para qualquer poder. E para aquele poder que não admite o contrário, nem que haja opiniões contrárias, a cultura pode ser muito mais subversiva e muito mais intimidante.

Tanto assim foi que o CETA teve peças censuradas.
Houve peças censuradas. Temos alguns documentos com peças riscadas com o lápis da censura.

O CETA já não é um centro de encontro de alguns oposicionistas…
… passaram por aqui muitas pessoas que actualmente são eminentes políticos, escritores, poetas e actores que estão a fazer teatro em Lisboa… Há muita gente que passou pelo CETA que é assim como um forno que vai dando um pão muito saboroso comestível pelo país inteiro. E esta é a casa de todas essas pessoas.

Quais são hoje as lutas do CETA?
A luta principal é trazer as pessoas ao teatro. Ou então, tentar intervir saindo do próprio espaço do CETA e fazendo teatro ou intervenções de rua. O CETA bate-se por continuar, porque tem uma função cultural fundamental e porque o CETA é uma associação emblemática de Aveiro.

Apoios em falta

Como vai o CETA dar a volta por cima num momento em que os públicos parecem andar entretidos com outros palcos menos culturais?
O CETA vai apostar em vários campos. Mas se dêmos a volta por cima até aqui, estou convencido de que daremos a volta durante muito tempo e que esta associação nunca há-de acabar como ponto cultural importante de Aveiro.

Os apoios ao CETA têm funcionado?
Ao nível dos apoios é evidente que tínhamos algum, e continuamos a contar com ele, da parte da Câmara de Aveiro. Sabemos que a situação financeira da autarquia não é boa e portanto o seu apoio não tem sido aquele que era até há algum tempo atrás. Da parte da Junta de Freguesia da Vera-Cruz temos tido todo o apoio. Entretanto estamos a procurar soluções ao nível de parcerias, de mecenas, de empresas privadas… O momento não é muito propício para isso, visto que há uma crise financeira no país, mas haveremos de dar a volta. Logicamente que as peças não se pagam por si próprias. Mas reciclamos muitos cenários, muito vestuário. Os actores não são pagos. A única pessoa que é paga é o encenador. E temos tido sempre encenadores profissionais e de alto gabarito.
Texto de Pedro Farias
in O Aveiro

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