Sunday, November 23, 2008

"That Night Follows Day" na Culturgest







“That Night Follows Day” - “Que depois do dia vem a noite”
De Tim Etchells e Victoria
NOVEMBRO
QUI 27, SEX 28, SÁB 29
GRANDE AUDITÓRIO (lotação reduzida)
21h30 Duração: 1h10 M/12

Conceito, texto e encenação Tim Etchells
Assistência de encenação Pascale Petralia
Com Tessa Acar, Hannah Bailliu, Michiel Bogaert, Spencer Bogaert, Lina Boudry, Taja Boudry, Tristan Claus, Amber Coone, Tineke De Baere, Florian De Temmerman, Yen Kaci, Lana Lippens, Jérôme Marynissen, Aswin Van de Cotte, Viktor Van Wynendaele e Ineke Verhaegen
Cenografia Richard Lowdon
Figurinos Ann Weckx, assistida por Eva Van Kerkhove
Desenho de luz Nigel Edwards
Coordenação artística Marika Ingels
Tradução para neerlandês Catherine Thys, Pascale Petralia e Marika Ingels
Direcção de produção Wim Clapdorp
Acompanhamento das crianças Lotte De Vuyst e Hannelore Bonami
Treino vocal Françoise Vanhecke
Técnica Piet Depoortere e Niels Ieven
Produtor da digressão Leen Be Broe
Vendas Kristof Blom
Agradecimentos Isotta Mergaert
Produção Victoria (Gent)
Co-produção Festival d’Automne à Paris, Les Spectacles vivants - Centre Georges Pompidou, steirischer herbst Graz, Productiehuis Rotterdam
Apoio KunstenFESTIVALdes¬Arts Brussel, Fierce Earth Birmingham, Emilia Romagna Teatro Fondazione, Theaterfestival Spielart München
Estreia a 4 de Maio de 2007 no KVS de Bruxelas, integrado no KunstenFESTIVALdesArts
Espectáculo em neerlandês, com legendas em português e inglês.

O Espectáculo
A companhia de produção teatral Victoria, de Gent, considera que desafiar artistas colocando-lhes uma pergunta atípica é uma das suas tarefas principais. Uma forma de fazer isto é criando todo o tipo de ‘ordens artísticas’ inesperadas concebidas para atrair artistas a um território novo. O projecto That Night Follows Day, criado pelo escritor e encenador Tim Etchells no contexto da Victoria, surge precisamente desta abordagem.
Há vários anos, a Victoria projectou fazer uma trilogia de peças ou espectáculos onde criadores que nunca tivessem trabalhado antes com crianças seriam convidados a criar algo em que só aparecessem crianças. Para sermos claros e precisos, o objectivo não era teatro infantil – as peças em que a Victoria estava interessada em fazer neste caso destinavam-se a um público adulto. A primeira peça nesta trilogia foi üBUNG de Josse de Pauw, que estreou no Kunstenfestivaldesarts em Maio de 2001 e, nos anos seguintes, andou em digressão pelo mundo (incluindo uma passagem pela Culturgest em 2004). Para a segunda produção desta trilogia a Victoria abordou Tim Etchells, o director artístico do renomado grupo de teatro experimental Forced Entertainment, sediado em Sheffield, no Reino Unido. No que segue, Tim fala dos seus motivos e inspirações, do seu interesse em trabalhar com jovens e sobre o projecto That Night Follows Day.

O convite de Dirk Pauwels para criar uma peça com crianças como intérpretes estabeleceu uma relação profunda com o meu trabalho artístico e a minha vida pessoal. Tive imediatamente de pensar em como os meus dois filhos me tinham inspirado ao longo dos anos – como tinham sido extraordinários a fazer-me olhar com outros olhos para a linguagem, o jogo, a representação e a sociedade… para todas as coisas, na verdade. Apesar disto – e apesar do facto de ao longo de muitos anos eu ter de vez em quando fantasiado fazer algo para ou com crianças – tenho de confessar que o convite foi simultaneamente intimidante e emocionante: a minha experiência real de trabalho com crianças era, afinal, exactamente nula.
Havia no entanto uma certa ligação ao meu trabalho artístico e muito cedo tive de pensar nas várias formas segundo as quais os meus projectos com os Forced Entertainment foram influenciados por uma qualquer (talvez bastante alterada) ideia de representação infantil. De facto, o nosso fascínio colectivo pelas formas adultas populares e no entanto marginais ou de algum modo descredibilizadas – como a stand-up comedy ou o cabaret, o espectáculo de sexo ou o seminário de motivação, os filmes B ou o teatro amador – sempre partilhou um lugar com o nosso gosto pelas representações dos miúdos. Em muitos espectáculos ao longo dos anos, inspirámo-nos na estética do cenário feito em casa e dos figurinos improvisados que se podem encontrar no teatro com crianças, ou até nas suas brincadeiras em casa. Noutras alturas, inspirámo-nos na atitude ingénua face à narrativa e nos diálogos desajeitados da pantomima inglesa ou no estilo de representação e estruturas de bricolage dos saraus escolares – aquelas sequências apressadas de textos, canções, danças e poemas criados como resposta a um tema, como ‘saúde’, ‘espaço’ ou ‘a vida debaixo de água’.
Julgo que aquilo de que gostámos em todas estas coisas foi a sua estética de desenrascanço – a noção de um acontecimento engendrado num tempo reduzido e com recursos ou meios empobrecidos. Também adorávamos as diferentes maneiras pelas quais as representações de e para crianças se esquivam e fogem às questões centrais do grande teatro – toda a tralha pesadona do naturalismo – em favor de soluções mais simples, mais divertidas e certamente muito mais pragmáticas face ao que pode significar estar em cena. Canções, disfarces, piadas, danças, tudo junto, e talvez um bocadinho duma história.
Quando a Victoria me convidou propondo-me um projecto com crianças e jovens para 2007, tive dois pensamentos iniciais ‘concretos’. Um deles foi direitinho ao território do teatro amador e do espectáculo desajeitado que descrevi acima e o outro partiu noutra direcção, talvez mais na da estética do sarau escolar. A primeira das minhas ideias – fazer uma espécie de desfile com máscaras apresentando uma ingénua ‘história do mundo – em breve se metamorfoseou para se tornar o ponto de partida do espectáculo de 2006 dos Forced Entertainment The World in Pictures. Nesse processo não tardou a tornar-se uma tentativa gloriosamente destrambelhada de contar a história da humanidade em 90 minutos, com um texto que é em grande parte confuso, com várias interrupções licenciosas e uma data de figurinos improvisados. Pareceu-me perversamente acertado enviar os adultos dos Forced Entertainment nesta direcção enquanto a minha segunda ideia, bastante mais sóbria, cedo demonstrou ser um foco útil e produtivo para o projecto em que tenho estado a trabalhar com os miúdos de Gent.
Ao dar início aos ensaios de That Night Follows Day, comecei com a ideia de um grupo coral que não cantasse, um coro de miúdos e jovens, que pudesse falar, individualmente ou em uníssono, sobre as várias maneiras segundo as quais os adultos modelam, enquadram, explicam e definem o mundo que eles habitam. Acho que estava interessado em explorar as maneiras pelas quais os pais, professores e o mundo adulto em geral constroem o mundo para as crianças com que interagem, procurando acentuar ou esconder determinadas partes, procurando explicá-lo, procurando tornar o mundo seguro, compreensível, divertido, interessante ou simplesmente habitável para os que têm a seu cargo.

Vocês escolhem-nos as roupas.
Cantam para nós.
Observam-nos enquanto dormimos.
Dizem-nos que a terra é redonda.
Contam-nos histórias.
Dizem-nos que não há que ter medo das sombras.
Dizem-nos que o som que às vezes ouvimos é só o vento nas árvores.

Comecei por escrever. Ao longo de vários meses escrevi um longo, longo catálogo de expressões livremente associadas que tentava mapear as várias maneiras pelas quais os adultos articulam e moldam o mundo para crianças e jovens. Baseei-me nas minhas observações, em conversas com os meus dois filhos, nas minhas recordações de infância e na minha experiência enquanto uma espécie simultaneamente de pai e de ‘professor’ em situações de workshop. Armados com este texto que emergia – listas e listas e listas – começámos workshops e conversas com os miúdos de Gent e o texto cresceu, alterou-se e deslocou-se.

Vocês cortam-nos o cabelo e as unhas.
Guardam as fotos de quando éramos pequenos.
Preparam tupperwares com lanches e sanduíches.
Pegam-nos na mão quando andamos junto a uma estrada muito movimentada.
Tiram as moedas dos nossos mealheiros e prometem pagar tudo mais tarde.
Observam-nos enquanto filmam com a câmara de vídeo, e se alguma coisa corre mal dizem “vá, continua” ou dizem “faz de novo e desta vez não olhes para a câmara”.
Vocês fazem-nos saltar.
Preparam grandes surpresas.

No espectáculo que fizemos, com um elenco de 16 crianças e jovens com idades entre os 8 e os 14, a relação entre adultos e crianças articula-se através do texto. Também se articula nas relações físicas e na encenação da peça, onde se dispõem as crianças num agrupamento formal, limpo, arrumado, contido na estrutura da linha, tal como são tantas vezes dispostas e exibidas a um público de adultos em apresentações escolares e concertos, recitais e fotografias formais. Sempre bem-comportadas. Falando em uníssono. De pé numa fila, olhando em frente e falando directamente sobre a situação, crianças observadas por adultos, representando para eles.
Ao trabalhar com os Forced Entertainment, criei muitos espectáculos que exploram a relação dos intérpretes com o público – peças como First Night, Speak Bitterness e Showtime – fazendo um gráfico com os altos e baixos de toda a necessidade, voyeurismo, desejo e expectativa que a própria situação teatral parece gerar. Talvez a diferença em That Night Follows Day esteja nas relações de poder tantas vezes inerentes ao teatro – entre o palco e a plateia, os entertainers e os ‘entretidos’ – que aqui se multiplicam por outros quadros e circuitos de necessidade, desejo, poder e expectativa que entram em jogo quando adultos observam crianças e quando crianças representam para adultos. Há, no mínimo, uma tensão no ar, uma electricidade, uma tensão sobre o que pode acontecer e como, sobre o que pode ou não pode ser dito, ou até o que deve ou não ser dito.

Quando o nosso trabalho de ensaios começou em Gent, surpreendeu-me a princípio que estivéssemos a chegar a muitas das mesmas questões, limites e alegrias que encontrei ao trabalhar com adultos. Descobri com frequência que era capaz de propor versões das mesmas tarefas e exercícios de representação que tinha usado antes com intérpretes profissionais e com alunos muito mais velhos em universidades e escolas de teatro. Com efeito, as questões que não paravam de me ocorrer enquanto observava os jovens intérpretes nos primeiros workshops para o projecto eram as mesmas que muitas vezes me coloquei sobre performers num sentido mais geral – independentemente da idade ou do contexto.
São capazes de ficar ali de pé, simplesmente, a ser olhados? São capazes de sentir o peso das coisas que estão a dizer, ou o peso do que estão a fazer? Conseguem lidar com o olhar do público? São capazes de detectar uma alteração do ambiente quando acontece? São capazes de sentir, e negociar, o que se passa na sala? Entre si? Entre eles e nós que estamos a ver? Conseguem estar de pé, falar e devolver o olhar aos que observam?
São capazes – para dizer de outro modo – são capazes de simplesmente estar ali, a fazer o que estão a fazer, levando o tempo necessário para pensar, falar, esperar e pesar as consequências?
O que me surpreendeu desde o primeiro estádio do projecto até aos ensaios propriamente ditos foi que, mesmo com oito anos, há miúdos capazes de simplesmente falar, ou só ficar ali de pé, olhar para nós, calmos, descontraídos, concentrados, à vontade com a sua própria presença. Ao trabalhar no projecto, fiquei fascinado por esta qualidade e sinto-me feliz por ter este óptimo grupo de jovens com quem explorar o texto e estas preocupações. Alguns já tinham estado em palco antes em diferentes contextos e outros nunca tinham sequer representado, mas estou certo de que qualquer que seja o seu treino e experiência de representação, isso é menos importante e vital para o projecto do que aquela simples capacidade, aquela incompreensível combinação de banalidade e graça, de simplesmente ‘estar ali’. Armado com esta noção, e apoiado pelos meus colegas Pascale Petralia (assistente de encenação), Ann Weckx (figurinos), Nigel Edwards (luz), Richard Lowdon (cenografia) e a incrível equipa da Victoria, estou entusiasmado com a viagem que That Night Follows Day está a fazer. Espero que venham juntar-se a nós para ver o espectáculo.

Tim Etchells
Sheffield , 2007




Tim Etchells é um artista, criador performativo e escritor sediado em Sheffield, no Reino Unido. É talvez mais conhecido pelo seu trabalho à frente do renomado grupo performativo Forced Entertainment, que dirige desde a sua fundação em 1984.
A par do seu trabalho no teatro, performance e outras formas que Etchells produziu com os Forced Entertainment, muitos dos seus outros projectos têm também sido colectivos, de uma maneira ou de outra. Trabalhou extensamente com o fotógrafo Hugo Glendinning em projectos no contexto das artes visuais, e criou também obras com um conjunto de outros artistas, coreógrafos e outros, incluindo Vlatka Horvat, Wendy Houston, Franko B e Meg Stuart.
Os projectos de Etchells (tanto de forma independente como com os Forced Entertainment) têm atraído apoio regular no Reino Unido do Arts Council de Inglaterra e do British Council. Fez encomendas específicas para a Royal Society of Arts, Photo ’98, Opera North e BBC Radio entre outras, tendo também obtido apoio de um vasto leque de grandes festivais e instituições culturais europeias como o Centro Georges Pompidou em Paris, a Kunsthaus Graz e a Volksbühne em Berlim.
Etchells foi Senior Research Fellow na Unidade de Pesquisa de Live Art na Nottingham Trent University (em 2000 e 2001) e participou no Programa IASPIS Studio, Estocolmo, de Fevereiro a Março de 2003. É actualmente Creative Fellow no Departamento de Estudos de Teatro na Lancaster University.
Etchells fez inúmeras conferências sobre nova performance e instalação e os seus ensaios foram incluídos em livros e revistas como Performance Research, ArtPress e Frieze. Também deu workshops, fez conferências e geriu projectos no Reino Unido, na Europa e não só, em diversos contextos, desde o Das Arts em Amesterdão à Tisch em Nova Iorque e ao Goldsmiths em Londres. As suas publicações incluem a colecção de ensaios sobre performance contemporânea e os Forced Entertainment Certain Fragments (Routledge, 1999) e os livros de ficção Endland Stories (Pulp Books, 1999) e The Dream Dictionary for the Modern Dreamer (Duckworths, 2001).
Entre os espectáculos recentes dos Forced Entertainment, contam-se o concerto de rock desconstruído Bloody Mess (2004), Exquisite Pain (2005), baseado num texto da artista conceptual francesa Sophie Calle, e The World In Pictures (2006), uma destrambelhada ‘história da humanidade’. A última peça do grupo chama-se Spectacular e estreou em 2008.

Para mais informação consulte:
www.timetchells.com
www.forcedentertainment.com


Victoria é uma plataforma de produção de artes performativas sediada em Gent, na Bélgica. A exploração e a descoberta são os seus conceitos-chave: o caminho já trilhado nunca é o escolhido. É por isso que a Victoria prefere trabalhar com artistas que contornam as formas óbvias do teatro e questionam o próprio meio. Em geral, a Victoria tem uma inclinação pela art brut – não optimizada mas vulnerável e imprevisível.
Em Janeiro de 2008 foi lançado o CAMPO, sob a direcção artística de Dirk Pauwels, que resulta da fusão do Victoria e do Nieuwpoorttheater. Tem três espaços de trabalho e apresentação em Gent. Monta e apresenta espectáculos de pequena e grande envergadura. Oferece uma plataforma a artistas belgas e estrangeiros, tanto principiantes como consagrados, cujas obras, por mais heteróclitas, partem todas de uma mesma mentalidade e necessidade artísticas. Também segue de perto aquilo que mexe nas escolas artísticas e no mundo do teatro social.
CAMPO não se contenta com apoiar e ficar à escuta dos artistas. Também lhes dá matéria de reflexão. Agindo sobre o que estes lhe propõem, coloca-lhes o desafio de levar a bom termo determinadas missões muito precisas e frequentemente multidisciplinares, no quadro de uma colaboração a curto ou longo prazo.
Apesar de poder contar com uma longa experiência em matéria de produção e apresentação de espectáculos, CAMPO faz questão de se pôr constantemente em causa com o fim de criar e poder oferecer ao público espectáculos de qualidade, simultaneamente inovadores e relevantes.
Para mais informação consulte:
www.campo.nu

No comments: