Billy Elliot um musical em Londres no Victoria Palace





Corria o ano 2000, quando o realizador Stephen Daldry trouxe ao grande ecrã uma obra britânica que veio a ser largamente aclamada pela crítica e vencedora de inúmeros prémios, incluindo 3 nomeações para os Oscars. Originalmente tinha o nome Dancer, mas logo veio a chamar-se de Billy Elliot.

A acção desenvolve-se no Nordeste de Inglaterra, na década de 80. A indústria mineira sofria uma grande crise e os trabalhadores lutam a favor de melhores condições de trabalho. A greve instala-se durante dias e dias, a polícia não sai das ruas, o clima é intenso e fervoroso.
Billy Elliot é um rapaz de 12 anos que vive no seio de uma família com poucas condições. A mãe morreu, o pai é um dos mineiros em greve, o irmão (mais velho), também mineiro e revolucionário, e a avó, por quem Billy tem grande afecto e carinho - uma família guiada pelas leis do conservadorismo, onde a diferença é pouco ou mal aceite.A pedido e orgulho do seu pai, Billy frequenta as aulas de boxe, 50 pence por aula, que o ridicularizam dada a sua fraca capacidade pugilista. É no final de uma dessas aulas que Billy tem de entregar as chaves do pavilhão a uma tal Mrs. Wilkinson, também professora, que dará a aula ao final do dia. Mrs. Wilkinson ensina ballet a um grupo de raparigas (incluindo à sua filha) com a maior paciência e falta de vontade que pode existir no mundo. É este o primeiro contacto que Billy tem com a dança, com o ballet, com as piruetas e os pliês.
Inicia as aulas de ballet por curiosidade, transferindo os 50p do boxe para o ballet, mas cedo desenvolve um gosto especial e mostra um talento escondido que deixa em Mrs. Wilkinson uma esperança de ensinar um aluno com capacidades para chegar longe. Billy opta por não contar a ninguém que recebe lições de dança e sabe bem que a família iria desaprovar esta sua escolha.

O Musical Billy Elliot desenvolve-se com a mesma linha de acção. É encenado por Stephen Daldry (que realizou o filme) e conta com uma banda sonora de excelência, criada por Elton John.
Este pequeno mundo de Billy Elliot é deveras inspirador e facilmente se transpõe em cada um de nós. O perseguir e o realizar de um sonho, um tempo de mudança e revolução que dificultam os meios, uma família em transformação que se conforma... São pequenas lembranças que fazem parte da vida de muitas pessoas, pequenas memórias que nos perseguem desde há muito tempo e assim nos ligámos muito facilmente a tudo o que vemos em Billy Elliot.
É uma história (um filme e um musical) extremamente bem concebida, créditos dados a Lee Hall que se baseou na própria infância para criar Billy Elliot, com uma desenvoltura muito lógica e real. Tem pormenores que conseguem calar muitas bocas, insinuações e fobias (falo, claro, do personagem Michael, amigo de Billy), onde o que se estava à espera não é o que realmente acontece. E por isso (e por muito mais) é que Billy Elliot existe e merece existir.


O musical é fantástico! Comparando com o filme, a adaptação é excelente e não podia ter sido feita da melhor maneira. A inspiração é a mesma, o humor continua britânico, os british accents também, as musicas foram feitas e recriadas a partir de muitos diálogos do filme; é visível e inevitável a intrínseca ligação entre o filme original e o musical adaptado. As cenas deslizam pelo palco e a alteração dos cenários é subtilmente bem feita. Entre peças desmontáveis, controladas mecânicamente, que encaixam e desencaixam em poucos segundos, tranformando a casa de Billy (com um quarto na 2ª assoalhada, por sobre a cozinha, a elevar-se por cima das escadas) numa rua revolucionária e infestada de mineiros a lutar pelos seus direitos contra as forças de intervenção ou até no proprio pavilhão onde Billy recebe as aulas de ballet da Mrs. Wilkinson.




A apresentação é bastante exemplificativa do que se pode encontrar em palco, no caso do espectáculo de Londres, no Victoria Palace Theatre (também é possível ver o musical em Sydney e na Broadway, Nova Iorque). A direcção musical é excelente, muito bem instrumentada e acompanhada vocalmente por óptimos actores. Desde um Layton Williams no papel de Billy, arrebatador e incrivelmente talentoso para a dança (que nunca tinha praticado), música e representação, a par do colega Shaun Malone, no papel de Michael que conseguiu (e muito bem) pôr os espectadores de boca aberta com qualquer umas das cenas em que entra, não desfazendo a actriz Jackie Clune no papel de Mrs. Wilkinson, ex Donna do musical Mamma Mia!, inúmeras interpretações no West End e em televisão (incluindo a série Eastenders), assim como a veterana Ann Emery como Grandma (Avó), também com papéis variadísimos no West End ao longo da carreira, como em My Fair Lady e Cats, a título de exemplo, incluindo a famosa série britânica S Club 7 - uma avó dinâmica, apesar da idade, que em tempos quis ser bailarina, executando fantásticas cenas de dança e canto que passam do drama à comédia num ápiçe.


É de salientar também as presenças de Alex Delamere no papel de Mr. Braithwaite (Anna Karenina, West Side Story, Cabaret, Fiddler On The Roof em teatro, e ainda em cinema no filme 28 Weeks Later de Danny Boyle), Phil Whitchurch no papel de Pai (creditado em cinema e televisão, entre os quais Beowulf & Grendel, Treasure Island, The English Patient e Macbeth), enfatizando especialmente o actor/bailarino Barnaby Meredith, no papel de Older Billy (Billy adulto) com um curriculum espantoso na área do Ballet, uma presença em palco que intimida qualquer um e nos deixa mais do que espantados pela perfeição dos seus movimentos corporais na execução de uma das mais belas cenas do musical, a partir do bailado O Lago dos Cisnes de Tachaikovsky.
Em suma, é um espectáculo que nos faz bem à alma, que começa bem e acaba ainda melhor. O leque de músicas é todo muito bom, desde a abertura com When The Stars Look Down, seguindo-se a primeira aula de ballet com Shine, conduzida por Jackie Clune, passando logo pelo brilharete de Ann Emmery com The Grandma's Song. Depois de Solidarity, interpretada pelo elenco completo, vem a cena arrebatadora de Shaun Malone com Expressing Yourself, com fantásticas alterações de cenários e de luzes, contemplado ainda com uma óptima coreografia e interpretação tanto do Shaun Malone (Michael) como de Layton Williams (Billy Elliot). Seguem-se as cenas musicais The Letter (onde Billy relembra a mãe através de uma carta por ela deixada) e Born To Boogie (que introduz a aprendizagem de Billy no ballet) , terminando o Acto I com uma cena assustadoramente arrepiante, a Angry Dance de Billy Elliot.



Ainda antes do Acto II, há tempo para uma introdução à festa de Natal, com Merry Christmas Maggie Thatcher, através de uma original cena de stand-up comedy conduzida por Phil Whitchurch. Entre muitas outras que se seguem, paragem obrigatória na cena Electricity, onde Billy explica o que sente enquanto dança. Uma explicação divinal, em música, em dança e em representação, que facilmente nos comove e arrepia.
No final do espectáculo as apresentações são feitas, claro está, através de uma cena musical onde todos os actores marcam presença e deixam bem marcada a sua qualidade enquanto artistas.



Mais do que isto seria exagero referir aqui. Para quem quiser mais só tem mesmo é que ir ver o espectáculo ou, à falta de melhor, pode sempre contentar-se com o filme que, apesar de não ser musical, tem o mesmo espírito, a mesma dedicação e o mesmo entusiamo com que este musical foi realizado.


Billy Elliot – The Musical em cena desde Maio de 2005, em Londres, no Victoria Palace Theatre.
De Segunda a Sábado às 19.30h; Quinta e Sábado às 14.30h.
Mais informações aqui
Colaboração de Helder Magalhães

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