Beckett no D.Maria II


"COMEÇAR A ACABAR" de SAMUEL BECKETT
direcção / tradução JOÃO LAGARTO
desenho de luz JOSÉ CARLOS GOMES
figurino ANA TERESA CASTELO
música JORGE PALMA
direcção de cena CRISTINA VIDAL
operação de som ANTÓNIO VENÂNCIO
operação de luz LUÍS LOPES
com
JOÃO LAGARTO

SINOPSE
“Começar a Acabar” é um monólogo em que um homem se dirige directamente ao público para contar a sua história. A primeira frase que profere dá-nos, desde logo, o tom do discurso: “Em breve estarei morto finalmente apesar de tudo”.
Enquanto espera que chegue a sua última hora, este homem recorda momentos significativos do seu passado: as relações tensas com o pai, que morreu cedo, a ligação terna à mãe, com quem nunca se conseguiu entender, uma infância passada com grande agitação interior, a maturidade decorrida sem amor (“Nunca amei ninguém acho eu, senão lembrava-me”), uma velhice vivida em solidão, sem mulher, filhos ou netos que o entretenham.
Mas à medida que as memórias mais insignificantes lhe acorrem ao espírito, o homem evoca também assuntos comezinhos, de forma aparentemente aleatória…


produção TNDM II / ACE Teatro do Bolhão


SALA ESTÚDIO
10 ABR a 01 JUN
3ª a SÁB. 21H45 DOM. 16H15
M/16

A sós com Beckett
Poucas peças existirão em que, sentado na plateia, o espectador consegue sentir a respiração da morte e a constante presença do fim como em “Começar a Acabar”, de Samuel Beckett. A partir de três textos chave da sua ficção – “Molloy”, “Malone está a Morrer” e “O Inominável” – o dramaturgo irlandês juntou fragmentos, (re)ordenou-os e, em alguns casos, chegou a reescrevê-los. O resultado é este magnífico espectáculo encenado e interpretado por João Lagarto que o TNDM II volta a apresentar na Sala Estúdio onde, em 2006, se estreou com grande êxito.

O reconhecimento deste trabalho com o Prémio da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro (2006) mostrou como esta é não só uma homenagem a Beckett, uma das grandes referências literárias do século XX, mas também um texto onde é obrigatório sentir o espectáculo. A depuração das palavras aliada à presença em palco de João Lagarto, cujo trabalho de voz e de corpo revelam uma brilhante interpretação, fazem de “Começar a Acabar” um desafio, uma partilha com cada espectador.

Uma caixa negra e três lâmpadas, que mal iluminam um cenário também desprovido de objectos, são o suficiente para, subitamente, o palco se encher com a presença do protagonista, um mendigo que joga com pedras nos bolsos, que faz rir a plateia e que a faz congelar quando diz: “Em breve estarei morto”. De repente, o espaço parece pequeno, abafado por tantas memórias que se vão soltando pelo ar, pelo passado que ora teima em ir ou voltar, pelas palavras pesadas de ironia e, sobretudo, pelo silêncio. O silêncio que nos faz reflectir, ao mesmo tempo que aquele homem, com quem estamos a sós, contraria as ilusões.

Demora-se a partir, que é como quem diz, a morrer. Mas neste monólogo, inédito em Portugal, a habilidade de Beckett é bem visível. O humor não abandona o texto, mesmo quando se abre o livro da vida e nele se encontram actos sem sentido, obsessões, isolamentos, caminhos subterrâneos que escondem aquilo que não pode ser escondido: a iminência do fim.

O TNDM II, seguindo a sua linha de programação de grandes textos da dramaturgia contemporânea, apresenta este espectáculo intimista, da autoria de um dos maiores vultos do teatro, cuja escrita depurada instituiu um estilo único. Durante cerca de uma hora, ouvimos aquele homem vestido de trapos que nos faz rir da desgraça. A qualquer momento pode regressar o silêncio e a escuridão e o espectador volta a ficar como quando se sentou: só. Porque com Beckett aprendemos que o fim persegue o começo de tudo.
Bom espectáculo.

Carlos Fragateiro


“Começar a Acabar” resulta da amizade de dois homens – o dramaturgo Samuel Beckett e o actor Jack MacGowran. O projecto terá partido de MacGowran que, no fim dos anos sessenta, começou a tentar juntar fragmentos da obra do seu conterrâneo na forma de um monólogo que foi sempre, e em primeiro lugar, uma homenagem e um acto de amizade. Primeiro, chamou-se “End of Day” e, ao que se sabe, dele fazia parte o “Acto sem Palavras 1”, o monólogo de Lucky de “À Espera de Godot” e o fabuloso “From na Abandonned Work of Art”.

Beckett mantinha-se à distância até que, em 1970, se decide a intervir mais activamente. O monólogo passa a chamar-se “Beggining to End” e, não sendo uma obra nova de Beckett, é uma revisão de alguns dos seus textos mais emblemáticos montados num monólogo duma espantosa unidade dramática sobre a morte, ou melhor: sobre o fim. Beckett terá dito a certa altura do processo que a questão não estava nos fragmentos a utilizar mas sim na maneira de os agrupar. A situação é a de um homem que está a morrer e que entretanto vai contando histórias. Passamos pelas palavras de Krapp, de Lucky, de Molloy, de Clov e de Hamm, de Watt, de Malone, de Vladimir, pelos poemas e tudo acaba nas palavras finais desse livro único chamado “O Inominável”.

O espectáculo estreou a 23 de Abril de 1970, no teatro Édouard VII para o “tout Paris”, e continuou a sua carreira nos anos seguintes até à morte de MacGowran, que se tornara numa estrela do cinema mundial, representou “Beggining to End” nos Estados Unidos da América, por toda a Europa e até em Dublin. Beckett começava a ser mais do que um autor de culto para alguns iniciados e este acto de amizade do actor ao seu dramaturgo terá contribuído em larga medida para isso.

A história desse monólogo também é a história da evolução da ideia beckettiana de actor. Nas primeiras versões, MacGowran ficava estático, sorria apenas uma vez (ao que parece com efeitos devastadores) e mantinha-se naquela posição neutra de transmissor dos ritmos das frases que se atribui muitas vezes ao actor “beckettiano”. Progressivamente ele, e Beckett, foram mandando. Não sei muito bem onde chegaram, parece que os mendigos de Dublin estavam presentes em palco, sem limites de exuberância. MacGowran fazia questão de dizer todas as palavras que lá estavam e Beckett, que não encenou o espectáculo mas acompanhou os ensaios, às vezes ficava em silêncio durante bastante tempo e depois dizia duas ou três frases fundamentais.

Nunca vi o monólogo, nem feito por MacGowran nem por ninguém (aliás, não tenho conhecimento de ele ter voltado a ser feito) mas conheço o texto final e os vários fragmentos de que Beckett partiu para o construir, o que me permitiu assistir ao minucioso trabalho dramatúrgico que Beckett fez sobre os seus próprios textos. São partituras e quando assistimos ao autor a recortá-las, ou a traduzi-las, mais entendemos que o são.

Quanto aos sem abrigo de Dublin também nunca conheci nenhum. Mas sempre me pareceu que os mendigos de Beckett não são mendigos sociais, são mendigos da alma – homens diante do mistério da morte, ou melhor do fim.

Uma vez, Jack MacGowran perguntou a Beckett se ele queria que o público se risse em “Beggining to End”, ao que Beckett terá respondido “o máximo de gargalhadas que tu consigas”.

João Lagarto






Samuel Beckett
Biografia
Samuel Barclay Beckett nasceu a 13 de Abril de 1906, numa sexta-feira 13, perto da cidade de Dublin. Teve uma infância feliz, mas era, nas suas próprias palavras, “pouco dotado para a felicidade”. Aos 17 anos, entrou na Universidade de Trinity, onde se destacou como desportista e se interessou por línguas estrangeiras e literatura, envolvendo-se no meio artístico irlandês. Terminados os estudos superiores, foi professor de línguas durante anos mas, depois de conhecer James Joyce e de se tornar seu secretário, começou a escrever, a instâncias do mestre. Fez crítica literária, publicou ensaios, poesia, romances. Chegou a escrever uma carta a Eisenstein, propondo-se ir para Moscovo estudar cinema, mas ficou sem resposta. Ainda assim, deixou para a História uma aventura na sétima arte chamada, simplesmente, “Film”: uma produção muda interpretada por Buster Keaton (Charlie Chaplin tinha recusado o papel). Aos 31 anos, em Paris, na sequência de uma briga que não provocou, Beckett foi esfaqueado junto ao coração e socorrido por Suzanne Deschevaux-Dumesnil, seis anos mais velha do que ele e, a partir de então, sua companheira para o resto da vida. Em 1940, integrou a Resistência Francesa a pedido de Jeannine Picabia (filha do pintor Francis Picabia), adoptando o nome de código “Sam” ou “O Irlandês”.

Com mais de 40 anos, começou finalmente a escrever teatro, arte que lhe daria notoriedade. Fê-lo, como ele próprio confessou, para sair da depressão em que se encontrava. “Pensei que o teatro seria uma distracção”, diria mais tarde. “À Espera de Godot”, “Endgame” ou “Os Dias Felizes” transformaram o teatro ocidental e mudaram a vida de Beckett que, a partir dos 47 anos, veria o mundo render-se finalmente ao seu talento. O Nobel chegou em 1969, mas Beckett, que estava em Cascais por razões de saúde, não o foi receber pessoalmente. Entregou parte do dinheiro (73 mil dólares) para financiar a actividade de jovens artistas: pintores, escritores, eruditos, e para pagar espectáculos de teatro experimental. Hospitalizado no início do mês de Dezembro de 1989, Samuel Beckett morreu no dia 22 do mesmo mês, à uma da tarde. Seis meses depois de Suzanne.


REVISTA DE IMPRENSA

“Samuel Beckett escreveu obsessivamente sobre a ideia de fim e não deixa de ser curioso como o título ‘Beginning to End / Começar a Acabar’ sintetiza, de alguma forma, a sua obra. ‘Começar a Acabar’ não é um texto qualquer, é um texto que corta e cola fragmentos de várias obras do autor irlandês (…) e que reduziu o teatro ao mínimo, limpando do palco o acessório reduzindo-o ao essencial, criando tensão dramática com a inacção.”
Joana Gorjão Henriques, Público (2006)

“A presença despojada de Lagarto sublinha a depuração do texto, conseguindo instalar uma intensa tragicomicidade apenas com o seu corpo e voz. Os espectadores fixam-se nestes, do início ao fim, sem qualquer distracção.”
Paulo Trindade, Público (2006)


“O actor está impecável na pele deste vagabundo, conseguindo mudar frequentemente de registo e fazendo-nos rir da desgraça, como Beckett gostaria. Um espectáculo que se vê com um sorriso nos lábios e uma lágrima no olho.”
Ana Maria Ribeiro, Correio da Manhã (2006)


“'Começar a Acabar ' é um trabalho dramatúrgico surpreendente elaborado por Samuel Beckett e que revisita as suas obras mais emblemáticas (‘Molloy’, ‘Malone está a Morrer’, ‘À espera de Godot’ e ‘O Inominável’)”.
SIC (2006)


“João Lagarto desenvolve o sentido dionisíaco do texto e contagiou o público com o absurdo da existência da personagem que interpretou. Neste espectáculo o público é apanhado de surpresa no início e fica suspenso no texto até ao fim. Porque o texto de Beckett é forte e humano e porque a personagem é desconcertantemente bela”.
Ana Oliveira, Jornal do Algarve (2006)

CURRICULA
JOÃO LAGARTO direcção, tradução, interpretação
Estudou Actuação, no Conservatório de Lisboa (1972/74) e na Fundação Gulbenkian com o professor Adolfo Gutkin (1980/81), e é actor profissional desde 1974. Trabalhou como actor, encenador e tradutor em mais de 60 peças de autores como Gil Vicente, Samuel Beckett, William Shakespeare, Georges Feydeau, Botho Strauss, Bertolt Brecht, Harold Pinter, David Mamet, Alfred Jarry, Brian Friel e António Patrício. É fundador de cinco grupos de teatro: Centro Cultural de Évora (1975), Maizum (1981), Alta Recreação (1984), Teatro da Malaposta (1988) e Os Crónicos (2004). O primeiro filme em que participou é “Histórias Selvagens”, de António Campos (1978), tendo, desde então, trabalhado com realizadores como Luís Rocha, Walter Salles Júnior, Ruy Guerra, João Mário Grilo, Joaquim Leitão, Toni Verdaguer, Laurence Ferreira Barbosa, Bertrand Tavernier, Luís Galvão Teles, José de Sá Caetano ou Manuel Mozos. Na televisão, começou por participar nos filmes de Luís Felipe Costa e na série “Duarte e Companhia”, de Rogério Ceitil, vindo a integrar os elencos de algumas telenovelas (“A Banqueira do Povo”, “Os Lobos”, …) e de várias séries (“Cluedo”, “Ballets Rose”, “Os Polícias”, “A Febre do Ouro Negro”, “Os Távoras”…). Apresentou o programa “Mesa à Portuguesa”, participou em diversas produções para as televisões francesa, inglesa e alemã, onde trabalhou, entre outros, com os realizadores Claude Guillemot, Franck Apprenderis, Michel Lang, Gero Erhardt, Marc Rivière, Robin Davis, Gerard Marx, Susan Belbin, Joel Santini ou Pierre Koralnik. Foi responsável pela área de teatro no lançamento da Escola de Circo – Chapitô. Foi professor de Actuação no IFICT (Instituto de Formação, Investigação e Criação Teatral), participou no arranque do Curso de Animadores Turísticos da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, como responsável pela cadeira de Artes e Espectáculos.

No TNDM II: “A Minha Mulher” (2007); “Começar a Acabar” (2006).



ANA TERESA CASTELO realização plástica
Tem o curso de Design de Moda do IADE (Instituto de Arte e Design) e especializou-se em Fotografia de Moda no mesmo Instituto. É formada em Realização Plástica do Espectáculo pelo Conservatório Nacional (Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa). Em televisão, trabalhou em várias séries e telenovelas (“Filhos do Vento”) e na área da publicidade trabalhou para a empresa de Lisboa Multitarefa, colaborando em diversas campanhas publicitárias. Em teatro, fez cenografia e adereços para encenadores como Diogo Infante (“Um Vestido para 5 Mulheres”), Luís Miguel Cintra (“Os Sete Infantes”), António Pires (“Peter Pan”) e Filipe La Féria, com quem trabalhou durante três anos consecutivos. Como figurinista colaborou com encenadores como José Gil, Kuniaki Ida (“A Resistível Ascensão de Arturo Ui”, de Brecht), João Paulo Costa (“A Ópera do Falhado”, de JP Simões, e “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?”, de Edward Albee), Sérgio Praia (“No Tempo dos Assassinos”) e com a coreógrafa Joana Providência (“A Fada Oriana”, de Sophia de Mello Breyner). Actualmente, integra o quadro de docentes da Academia Contemporânea do Espectáculo, onde lecciona as disciplinas de Figurinos e Prática Teatral e é figurinista da Companhia de Teatro ACE / Teatro do Bolhão.


JORGE PALMA música
Fez estudos no Conservatório Nacional onde foi aluno, entre outros, de Maria Fernanda Chichorro. Entre 1986 e 1989 regressa, aliás, ao Conservatório, onde conclui o Curso Geral de Piano e frequenta o antigo Curso Superior de Piano, onde é aluno da compositora Maria de Lourdes Martins. Em 1963, venceu o segundo prémio do Concurso Internacional de Piano, integrado no Festival das Juventudes Musicais, em Palma de Maiorca (1963) e, a par da formação erudita, começa a interessar-se pelo rock’n’roll e, de um modo geral, pela música popular americana e inglesa. Integrou, nos anos seguintes, vários grupos musicais, como os Black Boys ou Sindicato. A estreia a solo de Jorge Palma acontece com o single “The Nine Billion Names of God” (1972), título de um conto de Arthur C. Clarke e inspirado também no livro "O Despertar dos Mágicos", de Louis Pauwels e Jacques Bergier. Por esta altura, inicia uma colaboração com José Carlos Ary dos Santos, que o ajuda a aperfeiçoar a escrita poética e com quem estabelece uma relação aluno-mestre. Depois de uma longa viagem pelos Estados Unidos, Canadá, Caraíbas ou Dinamarca, regressa a Portugal após o 25 de Abril de 1974, iniciando uma carreira como orquestrador, entre 1974 e 1977, na indústria discográfica. Aqui se estabelece, com algumas viagens pontuais, e afirma-se como um dos maiores músicos, compositores, letristas portugueses. “Acto Contínuo” (1982), “O Lado Errado da Noite” (1985; onde se inclui o single “Deixa-me Rir”), “Bairro do Amor” (1989), “Só” (1991), “Jorge Palma” (2001), “Norte” (2004) e o seu mais recente “Voo Nocturno” (2007) foram alguns dos êxitos que marcaram a sua carreira.

JOSÉ CARLOS GOMES desenho de luz
Tem o Curso de Realização Técnica do Espectáculo pela Academia Contemporânea do Espectáculo e frequentou a licenciatura em Direito pela Universidade Portucalense. Realizou um estágio em Realização Técnica, na área da Iluminação, no Reino Unido, onde trabalhou, como assistente, no Royal Tournement, sob a direcção de Robert Ornbo, e no Royal National Theatre de Londres, sob a direcção de Rick Fisher. Foi coordenador técnico do Theatre Royal, sob a direcção de Mark Passey. Como desenhador de luz, trabalhou com encenadores como Óscar Branco, José Caldas, Caldeira Pires, Filipe Crawford, Jorge Alonso, Júlia Correia, Peta Lily, João Garcia Miguel, Isabel Alves, Lygia Pap, António Capelo, Joana Providência, João Paulo Costa, Ricardo Pais, Nuno Carinhas ou Kuniaki Ida. Foi membro e fundador do grupo de Teatro Bruto. Na área do cinema e vídeo, realizou o vídeo “A Cidade dos Diários”, para a companhia Visões Úteis. Realizou ainda, em co-autoria, o vídeo do espectáculo “Pioravante Marche”, de Joana Providência e assinou a fotografia do filme “O Belo Indiferente”, de Jean Cocteau, realizado por André Delalley. É director do Curso de Realização Técnica da Academia Contemporânea do Espectáculo / Escola de Teatro, actual Director Técnico e Desenhador de Luz da Academia Contemporânea do Espectáculo / Teatro do Bolhão.


ACE / TEATRO DO BOLHÃO
A Companhia
A Academia Contemporânea do Espectáculo é um centro de formação e produção, sedeado no Porto, que integra a companhia de teatro ACE / Teatro do Bolhão e a ACE / Escola Profissional. Fundada em 1990, a ACE notabiliza-se, enquanto entidade formadora, pelo seu papel nuclear na transformação do meio teatral do Porto: os seus formandos estão na origem de praticamente todas as novas companhias surgidas no Porto (As Boas Raparigas…, Teatro Bruto, Teatro Plástico, Teatro Só…) e ocupam os quadros técnicos e artísticos de um vasto número de instituições deste sector (TNSJ, Rivoli, Europarque, e os teatros de Braga, Viana, Coimbra, Aveiro, Faro, etc…).

A entrada formal em actividade, em 2003, da ACE / Teatro do Bolhão sob a direcção artística de António Capelo, João Paulo Costa, Joana Providência e Pedro Aparício, envolvendo um grupo de 11 profissionais com currículos relevantes nas várias áreas da produção teatral, perspectivou a criação de um espaço teatral sinergético, potencializador de um conjunto abrangente de recursos humanos, técnicos e materiais, que culminará no final de 2007 com a instalação desta estrutura no Palácio do Conde do Bolhão, edifício histórico classificado situado na Baixa do Porto.

O projecto artístico, programático e estratégico da companhia configura-se em torno:
- da promoção de um modelo eclético de produção teatral dirigido pelos vários criadores (encenadores, actores, coreógrafos, iluminadores, etc) “residentes” do projecto;
- da produção de textos e autores referentes da dramaturgia universal (Tchecov, Brecht ou Molière, por exemplo) que raramente são apresentados no Porto dadas as limitações estruturais da maior parte das companhias da cidade, nomeadamente: falta de espaços próprios de ensaio e apresentação, elencos reduzidos e com perfis etários homogéneos, escassez de parque técnico, etc;
- da criação de um programa de espectro artístico amplo incluindo formas teatrais específicas ou universos criativos multidisciplinares;
- da promoção de uma dimensão transnacional da produção pelo intercâmbio com criadores e entidades cujo perfil artístico enriquece o projecto destacando-se os trabalhos com os encenadores Kuniaki Ida e Silviu Purcarete;
- da criação de espectáculos destinadas a segmentos específicos de público (infantil, escolar, em risco de exclusão, etc) valorizando as vertentes social, cívica e comunitária que caracterizam fortemente este projecto;
- da estimulação do carácter experimental do projecto pela criação de espaços laboratoriais, de pesquisa e de reciclagem dos profissionais;
- da renovação contínua do projecto pedagógico da escola pela sua proximidade à actividade profissional, promovendo o contacto dos formandos com situações reais de produção e a integração dos jovens profissionais no trabalho;
- da parceria com outras estruturas de produção, com as quais se encontrem afinidades de ordem artística e ética, e que viabilizam a execução dos projectos;
- da integração numa rede de itinerância nacional amplificando a visibilidade pública do projecto.

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