"Memorial..." no Convento

MEMORIAL DO CONVENTO
de José Saramago
produção TEATRO NACIONAL D. MARIA II em colaboração com o PALÁCIO NACIONAL DE MAFRA

texto “ Memorial do Convento” de José Saramago, adaptação dramatúrgica de FILOMENA OLIVEIRA e MIGUEL REAL

encenação FILOMENA OLIVEIRA

orgânica sonora
direcção música original DAVID MARTINS
masterização e operação: BRUNO OLIVEIRA
arranjos para piano: SANDRA NUNES
arranjos para voz: ANDREIA LOPES

guarda-roupa FLÁVIO TOMÉ
adereços JOÃO MAIS

concepção e construção da passarola FLÁVIO TOMÉ e JOÃO TIAGO
assistente técnico/montagem JOÃO TIAGO
criação e adaptação do espaço CARLOS ARROJA

direcção técnica DAVID MARTINS
desenho de luz CARLOS ARROJA, DAVID FLORENTINO e PAULO CUNHA

cenografia e criação do espaço cénico
coordenação VITO e CARLOS ARROJA

actores
CLÁUDIA FARIA PAULO CAMPOS DOS REIS FLÁVIO TOMÉ
JOÃO MAIS FILIPE ARAÚJO

Palácio Nacional de Mafra
Horário 4ª, 5ª e 6ª-feira às 14h00 Sábado às 16h00 (sob marcação)
Duração 80 minutos
Preço por aluno 6€
Público-Alvo: ensino secundário e universitário
Março - Junho de 2007
INFORMAÇÕES E RESERVAS
Telefone 261817550
Fax 261811947
pnmafra@ippar.pt

Sinopse
Ansiando por um filho que tarda, o rei D. João V é avisado por frei António de S. José: “Mande V. Majestade fazer um convento de franciscanos em Mafra e Deus vos dará descendência”. O desejo real desencadeará uma epopeia de homens, um esforço hercúleo de milhares de trabalhadores arregimentados em todo o país, de arquitectos, engenheiros e materiais vindos do estrangeiro e pagos a peso de ouro do Brasil, esgotando-o.
Unidos por um amor natural, Blimunda e Baltasar reúnem-se a Bartolomeu de Gusmão e ao seu sonho de voar. A passarola, máquina voadora, misto de barco e de pássaro, nasce do saber científico de Bartolomeu, da força de trabalho de Baltasar e dos poderes de Blimunda, recolhendo as vontades humanas (as “nuvens fechadas”), que alimentarão a máquina e a farão voar. Sobre as obras do Convento de Mafra terá passado o Espírito Santo, dizem os padres e acredita o povo. Voar, nesse tempo, não sendo obra de Deus, só poderia sê-lo do demónio, e assim se anuncia o fim trágico das três personagens maravilhosas.

Personagens
Blimunda, Baltasar, Bartolomeu de Gusmão, rei D. João V, Frei António de S. José, Domenico Scarlatti, Arq. Ludovice, Almoxarife, João Francisco (pai de Baltasar), Álvaro Diogo (cunhado de Baltasar), José Pequeno e Manuel Milho (operários da construção do Convento), Camareiros do rei e da rainha, um homem.

Duração 1h20 M/12
EDITORIAL AINDA NÃO FOI APROVADO PELOS DIRECTORES
“Memorial do Convento” foi o romance que lançou a carreira literária de José Saramago e que nos recorda uma época conturbada na História de Portugal, mais precisamente o reinado de D. João V, que decorreu durante a primeira metade do século do século XVIII. O romance do Nobel português, cuja obra tem sido, nos últimos anos, alvo de cada vez mais adaptações quer ao teatro quer à ópera, é a crónica da obsessão real com a descendência, uma obsessão que valeu a Mafra um palácio magnífico que o Papa Bento XIV inaugurou em 1744, mas cuja magnificência não pode apagar os sacrifícios feitos pelo país quer em recursos materiais quer em vidas humanas. Miguel Real e Filomena Oliveira, que já tinham assinado uma adaptação teatral de “Memorial do Convento”, voltaram a pegar no texto, agora tendo como público-alvo os estudantes universitários e pré-universitários e usando como cenário o próprio palácio de Mafra. O espectáculo funciona, portanto, a três níveis: como uma lição de História de Portugal, como introdução à obra de Saramago e, finalmente, como pretexto para uma visita a um dos nossos monumentos mais emblemáticos.

Carlos Fragateiro
José Manuel Castanheira
JOSÉ SARAMAGO – UMA ESCRITA COM IDEIAS
Nos 25 anos da publicação de “Memorial do Convento”
A mais importante singularidade dos romances de José Saramago reside na exposição e concretização narrativa de uma ideia-força que alimenta a totalidade de cada romance.
Em “Levantado do Chão”, tematiza-se a história do Alentejo e o fracasso da Reforma Agrária, o destino histórico e o sofrimento daquela terra magoada; “O Ano da Morte de Ricardo Reis” sintetiza-se num encontro com Fernando Pessoa; em “Evangelho Segundo Jesus Cristo” trava-se o debate sobre os grandes limites civilizacionais da Europa e a interrogação sobre a origem da religião, cujo poder litúrgico e força sagrada há um século que se têm vindo a esvaziar; em “Jangada de Pedra”, a interrogação sobre a existência de uma real alternativa mediterrânica ao poder frio da tecnologia e do mercantilismo da Europa do Norte; em “Ensaio sobre a Cegueira” levanta-se o debate sobre a origem e os limites do Poder; em “Todos os Nomes” problematiza-se o labirinto da existência humana contabilista e burocrática das actuais sociedades desenvolvidas; em “História do Cerco de Lisboa” discute-se a raiz da nossa identidade nacional, sempre dependente do estrangeiro; em “Manual de Pintura e Caligrafia” inquire-se sobre a fundamentação da representação estética; em “A Caverna”, Saramago questiona a sociedade actual que substitui o poder da realidade factual pelo poder da imagem audiovisual e electrónica. Dito de outro modo, José Saramago não é um romancista social e ideologicamente neutro; diferentemente, é um escritor que explora a filosofia, a religião, a política e a história como alimento do conteúdo dos seus romances, empenhando-se activamente na denúncia e transformação dos aleijões da nossa sociedade. Onde Saramago presume existir injustiça, aí põe a sua pena ao serviço da sua visão de justiça e de igualdade sociais. É esta a profunda singularidade da escrita e do escritor: para José Saramago não basta escrever uma simples história, mais uma simples história que nada acrescenta ao nosso conhecimento do mundo, mas, partindo de vivas preocupações existenciais actuais, intenta retomar antigos temas da religião, da filosofia, da História, dando-lhes um novo sentido, não raro contaminado de uma sede de justiça social. Colocar em questão o passado cristalizado, insuflando-lhe uma nova ideia, que o avive e o actualize, eis o modo habitual de escrita de José Saramago.
Em “Memorial do Convento”, publicado em 1982, desenvolve-se a interrogação sobre o sentido da história de Portugal e sobre o divórcio entre o amor, a vida feliz e o progresso da ciência, por um lado, e a absolutização do poder político num pequeno grupo social; por outro lado, constitui uma das primeiras narrativas em que se evidencia o novo estilo exuberante, barroco, fáustico e festivo deste autor. José Saramago nunca escreveu segundo um cânone literário, não seguiu as modas em vigor, não foi realista, existencialista, estruturalista, pós-modernista, seguiu-se a si próprio, soube ser apenas ele próprio, inventando o estilo literário mais singular do actual panorama da literatura portuguesa. Foi este estilo e o conteúdo profundamente humano das suas histórias que lhe valeram, em 1998, a atribuição do primeiro Prémio Nobel da Literatura para um autor português, consagrando a sua ímpar arte da palavra e elevando o seu nome à universalidade da História da Literatura de todos os tempos e lugares.
Deste modo, em “Memorial do Convento” Saramago explora não o facto em si próprio na sua unívoca brutalidade histórica (e é este, normalmente, que constitui a atmosfera tradicional do romance histórico, corrente a que Saramago, e com razão, diz não pertencer), mas a mentalidade colectiva do tempo histórico de que o facto é expressão singular, evidenciando que se ele assim aconteceu, de outro modo poderia ter acontecido. Como o campo das possibilidades é mais extenso do que o campo do real, J. Saramago move-se naquele campo, explorando contínuas hipóteses de relações, transformando em principais factos que na realidade seriam subsidiários, inventando factos historicamente inexistentes mas que, na lógica da realidade social do tempo, poderiam ter acontecido, sem nunca deixar de entrelaçar a realidade concreta com as possibilidades que o espírito do tempo permite. A ficção histórica estatui-se, assim, como reveladora da rede intrínseca de possibilidades contidas (mas não consumadas) em cada facto histórico importante ou em cada sociedade, ou seja, mais do que à História historiável em livros oficialmente aceites, cabe à ficção iluminar o sentido da História, evidenciando a pluralidade de caminhos humanos passíveis de serem (ou terem sido) percorridos e de como, a cada momento, cada escolha, cada opção (inconsciente ou forçada) por um entre um imenso leque de possíveis, tem como consequência cultural desenhar a personalidade futura de um país. Assim, o romance ganha em José Saramago um estatuto ensaístico de permanente abertura de horizonte cultural segundo interrogações radicais de carácter filosófico, que desafiam, senão subvertem, o paradigma conceptual por que habitualmente interpretamos o mundo, forçando a romance a tornar-se, mais do que a narrativa de uma história, um texto inquiridor das regras e modelos do acto fundador da palavra.
A “revolução saramaguiana” na ficção portuguesa concretiza-se através de uma obra cujas histórias narradas se dirigem, não à recriação e ao ‘divertissement’, não à mera narração de atmosferas históricas, não à auto-consciencialização social da imagem de Portugal hoje, não ao memorialismo subjectivista, mas, sim, à interrogação problemática dos fundamentos filosóficos da nossa civilização, gerando uma literatura que se metamorfoseia num estado híbrido de todos os géneros narrativos e de todos os estilos possíveis, ou seja, uma Literatura não de palavras, mas Fundadora da Palavra.
Fontanelas, 13 de Janeiro de 2007
Filomena Oliveira/Miguel Real


Adaptação dramatúrgica de “Memorial do Convento”
O presente texto dramático sintetiza a adaptação dramatúrgica de “Memorial do Convento”, concentrando e condensando num espectáculo de 1h20 (aprox.) a essencialidade das personagens, dos seus conflitos e dos seus dramas, determinados e envolvidos pela construção do Convento de Mafra, símbolo do poder institucional, político e religioso, e pela construção da passarola, símbolo do poder da ciência, do sonho e da vontade humana.
Cinco actores desdobram-se nas várias personagens (Blimunda, Baltasar e Bartolomeu são interpretados sempre pelos mesmos actores). O ambiente do convento evidencia-se, por si só, um espaço cénico privilegiado, assentando a estética do espectáculo na representação dos actores, na orgânica sonora criada especificamente para cada cena/momento, no guarda-roupa rigoroso e significativo e em alguns, fortes e marcantes, objectos e adereços de cena.

Bartolomeu – O homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará.
Baltasar – Se Deus é maneta e fez o universo, este homem sem mão pode atar a vela e o arame que hão-de voar.
Bartolomeu – Voar é uma simples coisa comparando com Blimunda.
Blimunda – Sangue de virgindade é água de baptismo.
Blimunda – Entre a vida e a morte há uma nuvem fechada.
Scarlatti – Fica o silêncio depois da música e depois do sermão. Que importa que se louve o sermão e aplauda a música. Talvez só o silêncio exista verdadeiramente.
Bartolomeu – O que vem amanhã é que conta. Hoje é sempre nada.
José Pequeno – Os bois andam emprestados neste mundo como eu. Não somos de cá.
Manuel Milho – Sabes tu o que é ser homem e mulher? Ninguém sabe.
Bartolomeu – É a vontade dos homens que segura as estrelas. É a vontade dos homens que Deus respira.

JOSÉ SARAMAGO
(Azinhaga - Golegã, 1922)
Prémio Nobel de Literatura em 1998, José Saramago nasceu no Ribatejo, passando a residir em Lisboa desde muito novo. Com um curso em serralharia mecânica, é um caso paradigmático do escritor autodidacta. Tendo concluído este curso em 1939, repartiu, ao longo de vários anos, a sua actividade profissional entre a colaboração em vários jornais e revistas e a tradução e a direcção literária/produção numa editora. De destacar a sua participação enquanto crítico literário na revista “Seara Nova” e os cargos de coordenador do “Suplemento Literário” do “Diário de Lisboa” e de director-adjunto do “Diário de Notícias”, entre 1974 e 1975. “Terra do Pecado” (1947) marcou o início de uma carreira dedicada à literatura. Porém, José Saramago considera o romance “Levantado do Chão” (1980) o seu “primeiro grande romance”: a história de uma família camponesa do Alentejo, desde o início do século até à Revolução de Abril foi o primeiro de muitos outros grandes romances que se sucederam. Tal é o caso de “Memorial do Convento” (1982), um sucesso ao nível nacional e internacional, traduzido em mais de vinte línguas e adaptado a libretto de ópera. Este fascinante relato da construção do Convento de Mafra e do esforço dos homens que o construíram, cruzado com o sonho de Bartolomeu de Gusmão, o “padre voador” que construiu uma Passarola que voa à mercê da vontade dos homens, marca aquele que será um estilo de escrita único. O ritmo fluido e marcadamente oral das obras de José Saramago tem sido fonte de inspiração para muitos criadores, desde encenadores, realizadores de cinema ou músicos. “Memorial do Convento”, por exemplo, foi adaptado a teatro e levado à cena no Teatro da Trindade, em Lisboa, pelo encenador Joaquim Benite e à ópera pelo compositor italiano Azio Corghi, com o título "Blimunda". A estreia mundial, com encenação de Jérôme Savary, realizou-se no Teatro alla Scala, de Milão, em Maio de 1990. De “In Nomine Dei” foi extraído um libretto, o da ópera "Divara", estreada em Münster (Alemanha), em 1993, com música de Azio Corghi e encenação de Dietrich Hilsdorf. A produção romanesca de José Saramago tem-se cruzado com a História, dialogando com a memória, mas também com o futuro. “A Jangada de Pedra” (1986), uma ficção que toca o fantástico, é disso um bom exemplo. A sua capacidade de ver o real tem feito do seu percurso como escritor uma carreira premiada, com destaque para a atribuição do Nobel. O seu carácter humanista contribuiu para a edição dos seus livros em todo o mundo, sendo o autor português contemporâneo mais traduzido. Destaque ainda para o Prémio Camões, em 1995, e os prémios Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores (1993) e de Consagração de Carreira, da Sociedade Portuguesa de Autores (1995) -, doutoramentos Honoris Causa pelas Universidades de Turim (Itália), Manchester (Inglaterra), Sevilha, Toledo e Castilla-La Mancha (Espanha) e graus honoríficos, como o de Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada e Chevalier de l'Ordre des Arts e des Lettres (atribuído pelo governo francês). É, além disso, membro honoris causa do Conselho do Instituto de Filosofia do Direito e de Estudos Histórico-Políticos da Universidade de Pisa (Itália); membro da Academia Universal das Culturas (Paris), membro correspondente da Academia Argentina das Letras e membro do Parlamento Internacional de Escritores (Estrasburgo). Em Fevereiro de 1993 passou a dividir o seu tempo entre a sua residência habitual em Lisboa e a ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias (Espanha).

OBRAS PUBLICADAS

Poesia
“Os Poemas Possíveis”, 1966
“Provavelmente Alegria”, 1970
“O Ano de 1993”, 1975

Crónica, Ensaio, Conferências, Memórias
“Deste Mundo e do Outro”, 1971
“A Bagagem do Viajante”, 1973
“As Opiniões que o DL teve”, 1974
“Os Apontamentos”, 1976
“A Estátua e a Pedra”, 1966
“Folhas Políticas” (1976-1998), 1999
“Saramago na Universidade”, 1999
“Aquí soy Zapatista”, 2000
“Andrea Mantegna. Un'etica, un'estetica”, 2002
“El Nombre y la Cosa”, 2006
“As Pequenas Memórias”, 2006

Viagens
“Viagem a Portugal”, 1981

Teatro
“A Noite”, 1979
“Que Farei com Este Livro?!, 1980
“A Segunda Vida de Francisco de Assis”, 1987
“In Nomine Dei”, 1993
“Don Giovanni, ou o Dissoluto Absolvido”, 2005

Diário
“Cadernos de Lanzarote – I”, 1994
“Cadernos de Lanzarote – II”, 1995
“Cadernos de Lanzarote – III”, 1996
“Cadernos de Lanzarote – IV”, 1997
“Cadernos de Lanzarote – V”, 1998

Conto
“Objecto Quase”, 1978
“Poética dos Cinco Sentidos – O Ouvido”, 1979
“O Conto da Ilha Desconhecida”, 1997
“A Maior Flor do Mundo”, 2001

Romance
“Terra do Pecado”, 1947
“Manual de Pintura e Caligrafia”, 1977
“Levantado do Chão”, 1980
“Memorial do Convento”, 1982
“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, 1984
“A Jangada de Pedra”, 1986
“História do Cerco de Lisboa”, 1989
“O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, 1991
“Ensaio sobre a Cegueira”, 1995
“Todos os Nomes”, 1997
“A Caverna”, 2000
“O Homem Duplicado”, 2002
“Ensaio Sobre a Lucidez”, 2004
“As Intermitências da Morte”, 2005

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