Da touca de Mirandolina aos brincos de Amália, arquivo conta com figurinos, fotos e documentos pessoais.
Bibi Ferreira maquilha-se antes de entrar em cena em "My fair lady"
Foto: Ana Paula Araripe / Agência O Globo
Antes de subir ao palco para interpretar Amália Rodrigues, em 2001, Bibi Ferreira mandou confeccionar réplicas perfeitas dos brincos que a cantora portuguesa usou num show em Nova York. A bijuteria, de strass, faz parte do acervo de mais de 18 mil itens deixados pela grande dama do teatro brasileiro, morta no último dia 13, aos 96 anos.
O material foi organizado pela filha da artista, a também actriz e encenadora Thereza Christina Ferreira, com a ajuda de sete pessoas, entre elas a museóloga Martha Burle. Durante quatro meses, o grupo reuniu e catalogou o acervo, a pedido de um empresário português que demonstrou interesse em comprá-lo (entre 1956 e 1960, Bibi morou em Portugal, onde actuou e dirigiu clássicos do teatro e espectáculos de revista).
Com o recuo do empresário, o legado da actriz, guardado em caixas de papelão no escritório do apartamento onde ela morava, no Flamengo, vem sendo oferecido agora a instituições brasileiras. Nele estão oito mil fotos, quase 300 troféus, comendas e diplomas, mais de cem fitas cassete e VHS e instrumentos, como um violino e um violão com o qual ela, adolescente, dava aulas.
O acervo possui ainda partituras originais de espectáculos, como o de “Piaf”, e textos com marcações da própria actriz e encenadora (“Deus lhe pague”, encenado em 1976 no Canecão). Entre os figurinos, destacam-se o casaco de pele de “Piaf”, o colar e a coroa de “My Fair Lady”, a touca de Mirandolina, de “La locandiera” (1941), a sua estreia no teatro.
Há croquis de cenários, programas de peças, cartazes e desenhos em aguarela para o material de divulgação do espectáculo de revista “Escândalos de 50”, livros, rolos de filme, perucas.
No meio e objectos pessoais, como passaportes, boletins e cartas, chamam a atenção vales de racionamento de comida do período em que estudou na Royal Academy of Dramatics Arts em Londres, logo após a Segunda Guerra.
Em 77 anos de carreira, Abigail Izquierdo Ferreira trabalhou com artistas como Paulo Autran, com quem dividiu o palco em “My Fair Lady’’ e “O Homem de La Mancha’’, Maria Bethânia e Ítalo Rossi, em “Brasileiro, Profissão: Esperança’’. Na montagem de 1976 de “Deus Lhe Pague”, dirigiu mais de 50 artistas, entre eles Walmor Chagas, Marília Pêra e Marco Nanini. De todos estes espectáculos guardou fotos e objectos.
A cadeira e o casaco de peles usado por Bibi no espetáculo "Piaf"
Foto: Ana Paula Araripe / Agência O Globo
"Ela disse: “Vende o acervo para uma instituição, porque ninguém nunca me deu nada, Não tenho por que doar”. É verdade. Minha mãe sempre ajudou os outros. Nosso intuito é negociar o acervo. A instituição que o receber terá um material muito rico. São quase cem anos de história."
Documentários, ficção e série de TV
A família ainda pretende honrar a memória da actriz com dois documentários em longa-metragem, ambos dirigidos por Felix Ferreira, 43 anos, neto de Bibi. “Bibi, uma vida no palco”, inscrito em edital do BNDES, debruça-se sobre a carreira. Já “Abigail”, é um retrato mais íntimo. Felix começou a filmar a avó quando entrou no curso de cinema da Universidade Gama Filho, incentivado por professores como Ruy Guerra, Dib Lutfi e Walter Goulart.
"Desde 2005, eu registrava minha avó no palco e em casa" — conta — "E captei cenas memoráveis, como ela fazendo solilóquios na cozinha, ao lado de empregados da casa, declamando “Gota d’Água” e depois cantando um trecho do musical. Filmei em 2017 sua despedida dos palcos (no especial “Por toda a minha vida’’, no teatro Oi Casa Grande) . No ano passado, no aniversário dela, filmei a última vez em que cantou. E gravei depoimentos de pessoas que estavam lá, como Fernanda Montenegro e Maitê Proença. A vida da minha avó era nutrida por aplausos. Ela tinha um temperamento forte, não gostava de ser contrariada, mas era extremamente generosa, gostava de ensinar."
Além dos docs, há dois projetos de ficção, ainda em fase inicial, que serão levados a cabo pela produtora Kika Rovai: um longa-metragem e uma série para a TV.
Ana Paula Araripe
in O Globo


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