Tuesday, December 30, 2014

"PlayLoud" na Comuna














"Play Loud" de Falk Richter
Elenco: Àlvaro Correia, Carlos Paulo, Cucha Carvalheiro, Lia Carvalho
Hugo Franco e Vicente Wallenstein.
com Direção de Àlvaro Correia :
Play Loud de Falk Richter é um dos mais recentes textos deste dramaturgo contemporâneo alemão, que será representado pela primeira vez em Portugal. O seu trabalho como dramaturgo e também como encenador tem-se destacado nos últimos anos pela Europa. Tem colaborado com a Schaubuhne em Berlim e com Christoph Marthaler na Zuricher Schauspielhaus. Recentemente tem colaborado com a coreografa Anouk van Dijk em Dusseldorf. Sendo uma das prioridades do Teatro da Comuna a divulgação de jovens autores contemporâneos, faz todo o sentido a apresentação de um texto deste jovem dramaturgo, pois a sua escrita fala de realidades mundanas e desperta a consciência do público para o que se passa nas relações humanas.

PLAYLOUD de Falk Richter 
O amor e a vida: uma separação que não chega a acabar, um regresso conturbado e uma reconciliação, uma noite insuportável de solidão, as memórias e os segredos de infância e a nostalgia da juventude, uma amor recente que vive a sua primeira crise, o sonho frágil de um “ménage à trois” feliz…
Em cena, estes seres poderiam ser uma família em busca da sua história possível. A sua crise poderia ser um começo. Onde é que eu me encontro nesta vida e como compreendê-la e contá-la?
Estes seres poderiam ser um grupo de música e a sua vida um ensaio intensivo. Eles tentam compreender as suas experiências e vivências e exprimir os seus medos e desejos. Tentam contar a sua vida a eles próprios. Uma sociedade em miniatura.
“Play Loud” é um conjunto de fragmentos de biografias possíveis: histórias de homens e de mulheres, de pais e de filhos, de casais e de famílias, as suas aproximações e os seus afastamentos, os seus sonhos e as suas memórias.

ESTREIA A 30 DEZEMBRO
Quarta a Sabado 21h30 Domingo 16h
Quarta e Quinta Preço Ùnico de 5 euros
reservas 217221770 ou teatrocomuna@sapo.pt

Memórias Partilhadas no Teatro Nacional D. Maria II




Três objetos: uma carteira, um lápis e uma almofada. Três monólogos que nos contam as histórias de objetos que têm muito para partilhar e que se ligam entre si de uma forma ou de outra.

Uma carteira vazia de Therese Collins
O que há na carteira de uma pessoa diz-nos muito sobre a pessoa. A escolha de uma carteira de uma pessoa diz-nos muito sobre a pessoa. Anna tem um fascínio por carteiras, não pode deixá-las sozinhas – especialmente as das outras pessoas. Se está tão fascinada por elas, por que não pode abrir a carteira da sua mãe falecida?

O Lápis de Abel Neves
A caneta é mais poderosa que uma espada ou, no caso de Delfim, que um lápis. Com um lápis, pode-se destravar o mundo. É a espada da verdade. Pode-se transportar um navio para a segurança, pode-se tomar banho de ervas no Montemuro - pode-se colmatar uma lacuna ou esconder-se na floresta. Bem, pode-se pela mão de Delfim e com a imaginação de Delfim.

A Almofada de Penas de Cuco de Peter Cann
Em 1966 existiam dois amigos, Adão e Fábio, que faziam tudo juntos. Em 1966 houve um Campeonato do Mundo e Eusébio agraciava o jogo. Em 1966 um dos amigos apaixonou-se. E tudo mudou. O que farias se nunca mais visses o teu único e verdadeiro amigo? O que farias para que as coisas voltassem a ser como eram antes dela chegar? O que não deves fazer é dar ao teu amigo uma almofada de penas de cuco.

textos Abel Neves, Peter Cann e Therese Collins 
tradução Graeme Pulleyn 
encenação Steve Johnstone 
direção musical Simon Fraser
com Abel Duarte, Eduardo Correia e Paulo Duarte
cenografia e figurinos de Sandra Neves
desenho de luz Paulo Duarte
construção de cenários Carlos Cal 
assistência à construção de cenários e figurinos Maria da Conceição Almeida 
direção de produção TNSM Paula Teixeira
direção de cena TNSM Abel Duarte
coprodução TNDM II, Teatro Regional da Serra de Montemuro
M/12

3 JAN - 1 FEV 2015
SALA ESTÚDIO
4.ª 19h15
5.ª a sáb. 21h15 
dom. 16h15

Artistas Unidos apresentam Janeiro

Ano novo? Sim, abrimos 2015 no Teatro da Politécnica. Com Heiner Müller por Jorge Silva Melo (AJAX POR EXEMPLO) a partir de quarta, 7 de Janeiro (19h!) . E vamos a Évora, ao Bruxa Teatro, na 5a 8 e sexta 9 estrear AS HISTÓRIAS DO SENHOR KEUNER de Bertolt Brecht. E GATA EM TELHADO DE ZINCO QUENTE de Tennessee Williams estará em Almada de 15 a 18 de Janeiro. Vida Nova?


ÁJAX POR EXEMPLO e outros textos de Heiner Müller Tradução João Barrento Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves Luz Pedro Domingos por Jorge Silva Melo M12

No Teatro da Politécnica de 7 a 10 e a 16 e 17 de Janeiro
Às 19h00 
Reservas | 961960281
Preço único | 6 euros

Eu dinossauro não de Spielberg estou sentado
Pensando na possibilidade
De escrever uma tragédia.
Heiner Müller, Ájax por Exemplo

Ájax por exemplo é um longo poema sinuoso e descontínuo. É a confidência de um escritor que, num quarto de hotel, pensa escrever uma tragédia.
Jean-Pierre Morel

Fotografias ©Jorge Gonçalves


AS HISTÓRIAS DO SENHOR KEUNER de Bertolt Brecht Tradução Luís Bruhein Com João Meireles Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves Luz Pedro Domingos Encenação Jorge Silva Melo M12

Em Évora, A Bruxa Teatro, a 8 e 9 de Janeiro
De 20 a 31 de Janeiro no Teatro da Politécnica
3ª e 4ª às 19h00 | 5ª e 6ª às 21h00 | Sáb. às 16h00 e às 21h00
E após o espectáculo de 5ªf29 de Janeiro, haverá conversa com os espectadores
Preço único: 6 euros
Reservas | 961960281

“Qual é o seu trabalho?”, perguntaram ao senhor K. O senhor K. respondeu: “Preparo com grande esforço o meu próximo erro.”
Bertolt Brecht, As Histórias do Senhor Keuner

Bertolt Brecht também é o criador de uma misteriosa personagem que figura em vários contos escritos ao longo de trinta anos: o senhor Keuner, um sábio pouco convencional.

Fotografias ©Jorge Gonçalves


GATA EM TELHADO DE ZINCO QUENTE de Tennessee Williams
Tradução Helena Briga Nogueira Com Catarina Wallenstein, Rúben Gomes, Américo Silva, Isabel Muñoz Cardoso, João Meireles, João Vaz, Tiago Matias, Vânia Rodrigues, Rafael Barreto e as estagiárias da ESTC Inês Laranjeira e Margarida Correia Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves Construção Thomas Kahrel Luz Pedro Domingos Som André Pires Operação de Som Flávio Martins Fotografia Jorge Gonçalves Assistência Leonor Carpinteiro Produção Executiva João Meireles e João Chicó Encenação Jorge Silva Melo Uma Produção Artistas Unidos / Teatro Viriato / Fundação Centro Cultural de Belém / Teatro Nacional S. João, com o apoio do Centro Cultural do Cartaxo M16

Em Almada, no Teatro Municipal Joaquim Benite, 15 a 18 de Janeiro
Quinta a Sábado às 21h39| Domingo às 16h
Reservas | 212 739 360


PAPÁ POLLITT (devagar e num tom violento): MALDITOS SEJAM TODOS OS MENTIROSOS E MENTIROSAS! FILHOS DA PUTA (...) Sim, todos mentirosos, todos mentirosos, todos mentirosos, moribundos mentirosos. (...) Mentirosos, moribundos, mentirosos!
Tennessee Williams, Gata em Telhado de Zinco Quente

Um casamento destruído, a ausência de filhos, mistérios e mentiras. Heranças, valores, filhos, sexo. E a doença, a morte. O que é a propriedade privada?

O texto está editado em UM ELÉCTRICO CHAMADO DESEJO E OUTRAS PEÇAS de Tennessee Williams (Relógio d'Água).

Fotografias ©Jorge Gonçalves

Janeiro no Teatro Municipal Joaquim Benite


As escolhas dos críticos de teatro do Público de 2014

Os melhores espectáculos de 2014 para os críticos Jorge Louraço Figueira e Tiago Bartolomeu Costa.











Jorge Louraço Figueira

1. - What happens to the hope at the end of the evening, de Tim Crouch e Andy Smith. Encenação de Karl James (25 a 27 de Setembro, Culturgest, Lisboa)

2. - Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas, de Joana Craveiro, pelo Teatro do Vestido (13 a 16 de Novembro, Negócio/ZDB, Lisboa)

3. - Ubu Roi, de Alfred Jarry, pela Cheek By Jowl. Encenação de Declan Donnellan (14 de Julho, Escola D. António da Costa, Almada / Festival de Almada)

4. - Demónios, de Lars Nóren, pelo Ao Cabo Teatro / O Cão Danado e Companhia). Encenação de Nuno Cardoso (13 de Junho, Centro Cultural Vila Flor, Guimarães / Festivais Gil Vicente; 8 de Novembro, Theatro Circo, Braga; 12 de Novembro, Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra)

5. - Protocolo, de Jorge Andrade, pela Mala Voadora (3 a 8 de Junho, Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa / Alkantara Festival; 11 a 15 de Junho, Mala Voadora, Porto)

6. - La Réunification des Deux Corées. Encenação de Joël Pommerat (10 e 11 de Julho, Teatro Municipal Joaquim Benite, Almada / Festival de Almada)

7. - Otelo, a partir de William Shakespeare. Encenação de Jaime Lorca, Teresita Iacobelli e Christian Ortega (16 e 17 de Setembro, Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa / Próximo Futuro)

8. - A Farsa, de Raúl Brandão, pela Karnart. Encenação de Luís Castro (25 de Setembro a 19 de Outubro, Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa)

9. - Al Mada Nada, a partir de Almada Negreiros. Encenação de Ricardo Pais (26 a 29 de Março, Teatro Nacional São João, Porto; 10 a 13 de Abril, Teatro Municipal Joaquim Benite, Almada)

10. - La Reunión, de Trinidad González, pelo Teatro en el Blanco. Encenação de Trinidad González (13 e 14 de Setembro, Teatro do Bairro, Lisboa / Próximo Futuro)



Tiago Bartolomeu Costa

1. - As con­fis­sões ver­dadeiras de um ter­ror­ista albino, de Breyten Breytenbach, pelo Teatro Griot. Encenação de Rogério de Carvalho (2 a 4 de Setembro e 10 a 21 de Dezembro, Teatro do Bairro, Lisboa / Próximo Futuro)

2. - Le Sorelle Macaluso, de Emma Dante (18 de Julho, Escola D. António da Costa, Almada / Fes­ti­val de Almada)

3. - Tropa-Fandanga, pelo Teatro Praga. Encenação de Pedro Zegre Penim, José Maria Vieira Mendes e André e. Teodósio (20 de Fevereiro a 16 de Março, Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa)

4. - António e Cleó­pa­tra, de Tiago Rodrigues, a partir de William Shakespeare, pela Mundo Perfeito. Encenação de Tiago Rodrigues (5 a 8 de Dezembro, Centro Cultural de Belém, Lisboa)

5. - Os Bud­den­brooks, de Thomas Mann, pelo Pup­penthe­ater­halle (9 e 10 de Maio, Teatro Maria Matos, Lisboa / Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas de Lisboa)

6. - Íon, de Eurípides, pelo Teatro da Cornucópia. Encenação de Luís Miguel Cintra (23 de Abril a 4 de Maio, São Luiz Teatro Municipal, Lisboa)

7. - Punk Rock, de Simon Stephens, pelos Artistas Unidos. Encenação de Pedro Carraca (12 de Novembro a 13 de Dezembro, Teatro da Politécnica, Lisboa)

8. - Escuela, de Guil­lermo Calderón. Encenação de Guillermo Calderón (6 a 8 de Setembro, Teatro do Bairro, Lisboa / Próx­imo Futuro)

9. - Mac­beth, a partir de Verdi, pela Third World Bunfight. Encenação de Brett Bailey (22 e 23 de Outubro, Teatro Maria Matos / Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa)

10. - Encyclopédie de la Parole: Suite nº 1 ABC, de Joris Lacoste (21 e 22 de Maio, São Luiz Teatro Municipal, Lisboa / Alkantara Festival)

Diogo Infante é "Cyrano de Bergerac" no Teatro Nacional D. Maria II


O actor Diogo Infante vai interpretar Cyrano de Bergerac, personagem principal da peça de Edmond Rostand que fala da capacidade de renúncia por amor, com estreia marcada para 08 de Janeiro no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Esta produção do D. Maria II tem versão cénica e encenação de João Mota e é ainda protagonizada por Virgílio Castelo, Sara Carinhas, e João Jesus, ficando em cena na Sala Garrett até 01 de Março de 2015.

O elenco é ainda composto por João Grosso, José Neves, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Maria Amélia Matta, Paula Mora, Alberto Villar, Bernardo Chatillon, Celestino Silva, Frederico Coutinho, Joana Cotrim, Jorge Albuquerque, Lita Pedreira, Luís Geraldo, Marco Paiva, Nídia Roque, Rita Figueiredo, Simon Frankel, Bernardo Souto e José Sotero.

A acção decorre na França do século XVII, onde Cyrano de Bergerac, um homem com qualidades nobres e veia poética, mas o aspecto físico, sobretudo o nariz avantajado, provoca-lhe grande frustração.

Cyrano sofre por amar intensamente a prima, Roxanne, jovem, bela, emotiva, que tem como ideal um homem de beleza e de espírito.

Quando Roxanne conhece o belo Christian, apaixona-se por ele, mas é tímido e não consegue manter uma relação normal com uma mulher.

Cyrano ajuda Christian, escrevendo-lhe as longas e belas cartas de amor que entrega a Roxanne, intensificando ainda mais a paixão.

Comédia heróica que exalta sentimentos nobres como o amor e a capacidade de renúncia, foi escrita em 1897 por Edmond Rostand, baseada na vida do escritor Cyrano de Bergerac, sendo considerada o último grande mito do teatro romântico francês.

A cenografia está a cargo de José Manuel Castanheira, e os figurinos são de Storytailors.

de Edmond Rostand
tradução Nuno Júdice
adaptação João Maria André
versão cénica e encenação João Mota
cenografia José Manuel Castanheira
figurinos Storytailors
desenho de luz P. Graça
música Pedro Carneiro
desenho de som e sonoplastia Pedro Costa, Rui Dâmaso, Sérgio Henriques
mestre de esgrima Miguel de Andrade Gomes
caracterização Nuno Elias
cabelos Helena Vaz Pereira para Griffe Hair Style
maquilhagem Carla Pinho
assistentes de encenação Fábio Vaz (estagiário da ESTC)
assistente de cenografia Luna Rebelo (estagiária)
com Diogo Infante, Virgílio Castelo, Sara Carinhas, João Jesus, João Grosso, José Neves, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Maria Amélia Matta, Paula Mora, Alberto Villar, Bernardo Chatillon, Celestino Silva, Frederico Coutinho, Joana Cotrim, Jorge Albuquerque, Lita Pedreira, Luis Geraldo, Marco Paiva, Nídia Roque, Rita Figueiredo, Simon Frankel e Bernardo Souto, José Sotero (ano 2013/2014 ESTC)
produção TNDM II

duração 2h25 (com intervalo)
M/12

Nota: As cortinas do palco cenográfico no 1º acto, contêm elementos decorativos inspirados na Capela de Santa Comba, Telões/Baião. Alguns outros telões cénicos contêm referências à pintura de John Constable (1776 – 1837) e de Claude Lorrain (1600 - 1682).

No teatro violento e lírico de Rodrigo García, o texto não é dono dos actores





Em Lisboa para apresentar a publicação do livro Agamémnon – Vim do Supermercado e Dei Porrada ao Meu Filho, o dramaturgo hispano-argentino Rodrigo García falou de um teatro que já foi marcadamente violento na sua crítica ao capitalismo e ao consumismo. Essa “diatribe lírica”, como lhe chama Jorge Silva Melo, fez dele uma das vozes mais singulares do teatro europeu.

Rodrigo García estranha-se. Acabado de se ouvir enquanto autor de Agamémnon – Vim do Supermercado e Dei Porrada ao Meu Filho, na voz do actor Gonçalo Waddington, confessa: “Tenho vergonha e assusto-me com tanta violência.” A violência é, de facto, desbragada e contundente no monólogo de um pai que faz exactamente aquilo que o título anuncia, mas sempre com um tal excesso que a violência e o humor se fundem numa narrativa quase grotesca, num ataque cerrado e corrosivo à sociedade de consumo e ao mundo capitalista.
Tanto quanto se lembra, confessa perante uma sala cheia no Teatro da Politécnica, em Lisboa, para assistir à leitura de excertos dos textos incluídos no volume Agamémnon… e Outras Peças – número 86 na colecção Livrinhos de Teatro publicada pelos Artistas Unidos –, a escrita algures em 2003 foi vertida febrilmente para o papel e, diz ele hoje, inspirada talvez pelo ritmo de Uivo, de Allen Ginsberg.

Só que a estranheza não se prende apenas com a violência das palavras, de um pai que distribui estalos no filho e na mulher para depois os levar a jantar fora num KFC à beira da estrada, onde improvisa uma lição sobre a tragédia com frascos de ketchup. A estranheza está igualmente no facto de, apesar de ser um autor publicado, o argentino Rodrigo García não deificar o texto. Pelo contrário, quer que os actores não se limitem a debitar as palavras por si escritas. Daí que a fixação em papel do texto de uma peça da sua autoria seja apenas reveladora de uma das dimensões que explora em palco. Na maior parte das vezes, aliás, começa por trabalhar sem texto. “Ensaio acções e momentos teatrais com os actores”, explica horas antes em conversa com o PÚBLICO. “E adio o mais possível o momento em que chego ao ensaio com a literatura. Então, provoco uma espécie de cataclismo estranho porque temos de ver se alguma coisa das imagens que trabalhámos antes nos serve. Há imagens e acções que necessitam da palavra para ter sentido; outras não, estragam-se.”

Apesar da mestria com que torce as palavras, Rodrigo García diz-se um autor acidental. Quando chegou a Madrid, depois de se formar na Argentina em convívio com as obras de Samuel Beckett e Harold Pinter, tentou prolongar esse teatro de que se sentia próximo. “Mas não conseguia montar uma peça de Beckett porque havia um sistema muito claro de subsídios e ajudas estatais, algo que não existe na Argentina, onde as pessoas trabalham numa padaria ou num táxi de manhã e fazem teatro à noite. Ainda me ajudaram a pedir subsídios, mas claro que ninguém me deu nada.” Pouco depois, ao saber de um concurso de textos teatrais, escreveu uma peça e participou, ganhando um dos prémios. A falta de oportunidades para se afirmar como encenador foi então compensada pela pequena abertura para levar à cena os seus próprios textos, inicialmente muito deslumbrados com a descoberta do teatro de Heiner Müller. “Essas duas ou três primeiras obras que escrevi são plágios de Müller escritos por um miúdo de 22 anos, sem experiência de vida. Estava profundamente comovido por aquela escrita. Pouco a pouco, fui procurando o meu estilo.”

Ronald no Citemor
Enquanto lutava contra o conservadorismo madrileno – aquele meio teatral “não aceita que alguém tome a liberdade de utilizar o teatro de outra forma”, argumenta – e procurava um estilo que sedimentou um crescente estatuto na dramaturgia europeia, Rodrigo García fez como na sua terra e deixou o teatro para as investigações nocturnas enquanto ganhava a vida trabalhando em publicidade. Foi assim durante muitos anos e foi com este labor que custeou as suas primeiras produções teatrais em Madrid com a sua companhia La Carnicería Teatro. García privilegia mais este facto do que as temáticas que então abordava, mas é impossível não ler na violenta crítica dessa fase a que chamou “poesia anti-sistema” um contrapeso moral à sua actividade, atacando a sociedade de consumo e a presença (também ela agressiva e subjugadora) das marcas comerciais no quotidiano. Hoje admite que peças como Comprei Uma Pá no Ikea para Cavar a Minha Tumba, A História de Ronald, o Palhaço da McDonald’s ou mesmo Agamémnon se enquadram numa “etapa que já passou e onde se vê uma espécie de ira de alguém que tinha trabalhado no mundo da publicidade”. “Claro que para mim era horrível pensar nos anos e esforço dedicados a dizer às pessoas que a Coca-Cola nos faz felizes e me parecia bem poder atacar isso. Agora parece-me um pouco ingénuo, mas ao menos foi honesto.”

Uma das peças mais importantes desse período foi criada em Montemor-o-Velho, em 2003, a convite de Armando Valente, director do festival Citemor. “Telefonaram-me a perguntar se queria ir, dizendo que me podiam oferecer alojamento, um mínimo de dinheiro e técnicos. E então metemo-nos à aventura, sem dinheiro, com os actores a levarem a família por dois meses.” A peça, Ronald, o Palhaço da McDonald’s foi então estreada no Citemor e tornou-se uma das obras emblemáticas de Rodrigo García, apresentada em festivais de todo mundo durante anos a fio, trazendo-lhe um reconhecimento internacional que o impôs como um dos nomes mais relevantes do teatro europeu e abriu caminho para ser nomeado há um ano director do Centro Dramático Nacional de Montpellier, que sob a sua liderança passou a designar-se Humain Trop Humain.

Esse estatuto, no entanto, nunca teve grande eco em Portugal, uma vez que só no Citemor Rodrigo García encontrou verdadeiramente um espaço para o seu teatro. Tal como acontece em Inglaterra, reconhece o dramaturgo. Jorge Silva Melo, director dos Artistas Unidos e responsável pela publicação de Agamémnon, diz conhecer García “mais como escritor do que criador de espectáculos” precisamente por esta pouca disponibilidade portuguesa em receber a obra do hispano-argentino. “As grandes instituições de hoje são muito anglófonas e o mundo dele não entra no racionalismo britânico, um teatro muito baseado em personagens. Nas suas peças, o Rodrigo matou a ideia de personagem.” Por isso, Silva Melo gaba-lhe sobretudo a “capacidade de a diatribe ser lírica e revolta. A revolta do Rodrigo não é só a revolta de uma pessoa zangada, é a revolta de uma pessoa que tem dons, que tem poder literário. Não é apenas um tipo que está zangado com o mundo, mas que sabe designar o mundo.”

Silva Melo assistiu apenas a Ronald no Centro Cultural de Belém, em 2002, na mesma ocasião em que John Romão, então estudante no Conservatório de Teatro e com curtos 18 anos tomou contacto com a obra de García. “Estava a receber imensa informação e sempre fui muito interessado em procurar coisas além da escola. Quando vi o espectáculo do Rodrigo vi aquilo que nunca tinha visto em cena: havia teatro, havia textos, havia acções performativas que não podiam ser repetidas diariamente com a mesma precisão – era um teatro vivo todos os dias”, diz Romão ao PÚBLICO. Esse encontro revelar-se-ia determinante. Tendo passado a seguir a obra de García, Romão aproveitou, em 2005, um curso da Nouvelle Écoles des Maîtres para trabalhar com o argentino. Daí em diante, passou a seu assistente, acompanhando cada nova criação desde a apresentação no Citemor, em 2006, de Autocompaixão. Depois, em 2011, foi ele quem traduziu, encenou e propôs a Gonçalo Waddington protagonizar Agamémnon em Lisboa, na esperança de que “pudesse ser impulsionador de interesse nos outros”. Na mesa de leitura, na noite da Politécnica, estão Romão, Waddington e a actriz Isabel Abreu, partilhando textos. Enquanto Rodrigo García se observa, através deles, estranhando-se num palco onde só existem palavras.

Gonçalo Frota in Público

‘Amor e Informação’ em cena em Lisboa




Está em cena no Teatro Aberto, em Lisboa uma peça de Caryl Churchill, encenada por João Lourenço.
'Amor e Informação' é uma peça caleidoscópica, que propõe uma reflexão sobre o modo como lidamos justamente com o amor e com a informação, mas também com os afetos em geral, com a memória e com a privacidade. Estes pensamentos fazem especial sentido no momento presente, profundamente marcado pela tecnologia e pelas ligações digitais que se estabelecem na sociedade contemporânea. 
Ama-se e deixa-se de amar, perde-se a memória de quem se amou, recorda-se os tempos do amor, faz-se o luto, vai-se à procura da intensidade do sentimento longe da civilização, tem-se uma paixão virtual difícil de explicar, idolatra-se uma estrela até à loucura. Como num zapping de imagens, surgem cerca de cem personagens em mais de 50 peças curtas, criadas por esta encenação, numa proposta teatral invulgar que investiga os múltiplos aspetos da nossa necessidade de amor e conhecimento.

No dia 31 de Dezembro e 1 de Janeiro não haverá sessões.

AMOR E INFORMAÇÃO, de Caryl Churchill, encenação de João Lourenço

com Ana Guiomar | Carlos Malvarez | Cristóvão Campos | Francisco Pestana | Irene Cruz | João Vicente | Marta Dias | Marta Ribeiro | Melim Teixeira | Patrícia André | Paulo Oom | Rui Neto | Teresa Sobral

Local: Sala Azul do Teatro Aberto, em Lisboa
Horário: de quarta-feira a sábado, às 21h30 e domingo, às 16h00
Preços: €15

Filipa Estrela in Destak

"Horas" em Vila Nova de Gaia

HORAS
de André Braga & Cláudia Figueiredo / Circolando
9 e 10 de Janeiro de 2015 às 22H00; 11 de Janeiro de 2015 às 18H00
Convento Corpus Christi, Vila Nova de Gaia

Um espectáculo-viagem pelos territórios do românico. Dança, música coral, vídeo, três campos artísticos a trabalhar isoladamente e em diálogo cruzado.

Este é um lugar de mosteiros que não parou no tempo. Importa mergulhar num certo imaginário medievalista sem perder o pé da actualidade. Frescos, pinturas murais, esculturas, altos-relevos... Que diálogos com o presente se podem estabelecer? Que elementos intemporais importam relevar? Silêncio, recolhimento, dúvida, medo, conflito... O monaquismo será o ponto de partida para uma viagem entre a escuridão e a luz. As vivências radicais do silêncio, um mote para a indagação do ruído interior.
“Nunca tive nas mãos uma flor invisível”.
O projecto conta com a participação do Coro Gregoriano de Penafiel e o grande desafio será a sua integração no espectáculo de forma não totalmente convencional. A todos seduz a ideia de levar este canto tão singular e purista a um espaço de encontro e cruzamento com outras linguagens artísticas.