Sunday, September 5, 2010

Tennessee Williams regressa ao palco do Teatro Nacional









“Um Eléctrico Chamado Desejo” é uma obra-prima da dramaturgia do século XX que estabeleceu Tennessee Williams como um dos maiores autores americanos. Aqui, retrata-se o confronto entre os valores tradicionais do Sul da América e o materialismo agressivo da América moderna.
Blanche DuBois, uma frágil e solitária beldade sulista, decide visitar a sua irmã, Stella, que vive num bairro pobre de Nova Orleães. Numa altura em que a sua vida se encontra em declínio, Blanche acaba por se confrontar com o marido de Stella, Stanley Kowalski, cujo temperamento rude tanto ofende como atrai a sua educada sensibilidade. Enquanto o jazz dos anos 40 enche os bares locais durante a noite, as tensões crescem até atingirem um ponto de ruptura inevitável.


as palavras do encenador...
Em 1998, a convite do Dr. Mega Ferreira, encenei, no âmbito do Festival dos 100 dias da Expo 98, a peça “O Jardim Zoológico de Cristal”. O espectáculo estreou precisamente no Teatro Nacional D. Maria II, na sala Estúdio, e tinha no papel de Amanda Wingfield a extraordinária Carmen Dolores. Foi assim que mergulhei no universo de Tennessee Williams e me familiarizei com a sua vida e obra. Ao longo dos ensaios deste “Eléctrico” e enquanto desbravávamos terreno, várias foram as vezes que me lembrei desse outro processo. A tendência lírica de Williams está bem patente nas histórias que conta e nos códigos que utiliza. O optimismo de Amanda Wingfield e a sua capacidade para entreter os seus “Gentlemen Callers” está igualmente expressa na personagem de Blanche e nas leis da natureza que dizem que uma senhora deve divertir um cavalheiro ou então nada feito! Mas contrariamente a Blanche que não diz a verdade mas o que deveria ser a verdade, Williams é cru na percepção que tem do mundo que o rodeia e das personagens que o habitam. Não é na malícia mas na incapacidade de comunicar e entender os outros que reside a semente do conflito e consequentemente
da acção... os cegos guiam os cegos...!
Não sei porquê, mas em retrospectiva constato que me sinto invariavelmente atraído por peças que foram adaptadas ao cinema. As narrativas e as personagens tridimensionais devem ter algo que ver com isso. De qualquer forma, neste caso obrigo-me a não rever a versão cinematográfica. Guardo apenas imagens que a minha memória se encarregou de seleccionar. Suponho que as comparações sejam inevitáveis, mas recomendo que se concentrem no trabalho deste notável conjunto de actores, determinante no espectáculo que agora partilhamos convosco.
Não posso deixar de celebrar o regresso da Alexandra Lencastre aos nossos palcos. Enquanto colega e admirador, há muito que aguardava por este momento.
Flores para los vivos...!
Diogo Infante


[9 Set – 31 Out]
SALA GARRETT
4.ª a Sáb. 21h30 Dom. 16h
Ficha Artística
de TENNESSEE WILLIAMS
encenação DIOGO INFANTE
tradução HELENA BRIGA NOGUEIRA
cenografia CATARINA AMARO
figurinos MARIA GONZAGA
desenho de luz NUNO MEIRA
sonoplastia RUI DÂMASO
psicologia da performance PEDRO ALMEIDA
assistente de encenação ISABEL ROSA
com ALBANO JERÓNIMO, ALEXANDRA LENCASTRE, ANDRÉ PATRÍCIO,
ESTÊVÃO ANTUNES, JOSÉ NEVES, LÚCIA MONIZ, MARQUES D´AREDE, PAULA MORA,
PEDRO LAGINHA e SOFIA CORREIA
produção TNDM II
M/12

uma paródia inconsequente de Jorge Silva Melo no Porto










"FALA DA CRIADA DOS NOAILLES QUE NO FIM DE CONTAS VAMOS DESCOBRIR CHAMAR-SE TAMBÉM SÉVERINE NUMA NOITE DO INVERNO DE 1975, EM HYÈRES" - uma paródia inconsequente de Jorge Silva Melo

Com Elsa Galvão, Vânia Rodrigues, Pedro Lamas, Pedro Mendes, António Simão, Jessica Anne, João Delgado, Miguel Aguiar, Ricardo Batista, Susana Oliveira, Tiago Correia, Ruben Correia e os alunos do 2.º ano do Curso de Teatro da ESMAE Adriana Carvalho, Ana Lúcia Magalhães, Ana João Regueiras, Diana Barnabé, Elsa Pinho, Inês Espinhaço, Inês Simões Pereira, Isabel Quaresma, Helena Carneiro, Joana Amaral, Sílvia Barbosa, Silvana Brochado, Simão Ramos, Tiago Moreira, Vítor Silva Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves Luz Pedro Domingos Assistente de encenação Pedro Lamas Encenação Jorge Silva Melo Co-produção Artistas Unidos/ Fundação Culturgest/ Festival de Almada M16
No TECA (Porto) de 16 a 19 de Setembro
5ª a Sáb às 21h30 | Dom às 16h00

Uma paródia inconsequente de Jorge Silva Melo.

Uma eterna criada evoca as ricas horas dos mecenas, os bailes loucos, a arte livre, o amor livre, o financiamento de L`Age D´Or de Luis Buñuel, tudo na altura em que se anuncia a vinda do realizador espanhol ao palacete de Hyères onde ainda vive o Conde de Noailles, mecenas que foi de tanta gente e tanto dos surrealistas: estamos a meio dos anos 70 ( do século XX) e os anos loucos já se foram, com as jóias da família. Muito livremente inspirado em O Meu Último Suspiro de Buñuel – e nas botinas de Diário de Uma Criada de Quarto de Buñuel, é claro. E Séverine era a Belle de Jour do romance de Joseph Kessel de que Buñuel e Oliveira se apropriaram, maliciosos.

Diz que é espanhol.

Espero que não seja aquele pequenito e entroncado
que me apalpava o rabo sempre que eu o ia servir
e que vinha cá com uma mulher diferente sempre
mesmo que fosse hoje e no dia seguinte e depois de
amanhã
era sempre uma mulher diferente grande rabo
grande peito mais altas que ele sempre
que ele era pequenito e entroncado quase careca
ou rapava o cabelo
era pintor.

É um monólogo delicioso da criada dos famosíssimos Noailles, que tantos artistas mecenaram, tantos projectos apoiaram e tantas festas temáticas deram (vimos imagens das festas surrealistas e ficámos com alguma inveja).
Uma mulher que viu passar, gostou e odiou, e até se envolveu, tantas figuras da modernidade do século XX.
Ali fala delas de uma maneira cómica e caricatural. Descomprometida e despretensiosa.
São sempre “aquele que faz umas coisas…” que ela não percebe bem mas que acaba por
gostar.
Elsa Galvão fá-lo muito bem.
Uma delícia a não perder.
Luís Royal, Choosearoyal.blogspot.com

Os Noailles
Charles de Noailles nasceu em 1891. A sua mulher Marie-Laure de Noailles (cuja família ainda descendia do Marquês de Sade) nasceu em 1902. Casaram em 1923. Antes do casamento já eram amigos de Jean Cocteau e, em 1923, Charles de Noailles encomendou um retrato da mulher a Picasso. Nesse mesmo ano, contrataram o arquitecto Robert Mallet-Stevens para lhes construir uma casa de Verão nas colinas por cima da cidade de Hyères. As obras demoraram 3 anos e acabaram por incluir um jardim cubista desenhado por Gabriel Guevrekian. Apesar dos rumores de que Charles de Noailles preferia sexualmente homens, o casal teve duas filhas. Entre 1920 e 1930, os Noailles foram importantes mecenas da arte moderna, especialmente do surrealismo. Apoiaram projectos de Man Ray, Salvador Dalí, Luis Buñuel e encomendaram obras a Balthus, Giacometti, Brancusi, Miró e Dora Maar. Financiaram os filmes Les Mystères du Château de Dé de Man Ray, Aubade de Poulenc, L’Age d’Or de Buñuel e Le Sang d´un Poète de Cocteau. Em 1940, a propriedade dos Noailles foi ocupada pelo Exército Italiano e transformada em hospital. A casa continuou a ser a residência de Verão de Marie-Laure até 1970. Charles de Noailles morreu em 1981. A casa é agora um centro de artes.

L’Age d’Or é um filme realizado por Luis Buñuel em 1930, escrito por este em colaboração com Salvador Dalí. Custou 1 milhão de francos e foi Charles de Noailles que encomendou o filme em 1928 para o aniversário da mulher. Quando estreou, no Studio 28 em Paris, recebeu uma chuva de protestos. Para comseguir a autorização da censura, Buñuel teve que o apresentar como sendo o sonho de uma senhora. A 3 de Dezembro de 1930, um grupo de membros da Liga de Patritotas atirou tinta para o écran, atacou o público e destruiu obras de Dalí, Miró, Man Ray, Yves Tanguy, entre outros que estavam a ser exibidas no foyer. A 10 de Dezembro, o Perfeito da Polícia de Paris conseguiu proibir as projecções do filme. Um jornal espanhol condenou o filme por ser ‘a maior corrupção repulsiva da nossa era... o novo veneno que o Judaísmo, a Maçonaria, o fanático sectarismo revolucionário queriam para corromper o povo’. A família Noailles retirou o filme de circulação durante quase 50 anos.

"Hedda" no São Luiz teatro Municipal pelos Artistas Unidos








HEDDA de José Maria Vieira Mendes a partir de Hedda Gabler de Henrik Ibsen

Com Maria João Luís, Lia Gama, António Pedro Cerdeira, Marco Delgado, Cândido Ferreira e Rita Brütt Pianista Inês Mesquita Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves Luz Pedro Domingos Pintura do Cenário Guilherme Lopes Alves Construção do cenário João Prazeres e Luís Carvalho Assistência de Figurinos Isabel Boavida Assistência de Encenação João Miguel Rodrigues Encenação Jorge Silva Melo Co-produção Artistas Unidos/ São Luiz Teatro Municipal M16

No São Luiz Teatro Municipal de 16 de Setembro a 17 de Outubro
4ªf a Sáb às 21h00 | Dom às 17h30

REESCREVER HEDDA
A proposta que me é feita enquanto dramaturgo deste projecto é a de uma reescrita da Hedda Gabler. Não uma reescrita que pretenda uma actualização (coisa que aliás não sei muito bem o que seja…), mas que se ofereça como leitura minha, hoje, do texto do Ibsen. Não se pretende pois tornar o texto de Ibsen legível para uma sociedade contemporânea, recorrendo a uma transposição de temáticas e linguagem e estilos para os tempos de hoje, mas sim distanciar-nos de leituras mais casualistas que procuram uma navegação sociológica pelos tempos de hoje e aproximar-nos daquilo que consideramos ser intelectualmente mais honesto, ou seja, perseguir as ideias que atravessam os tempos, que sempre podem existir.
Escrever como leitor é pois provavelmente o objectivo principal a atingir. Como se a figura do leitor fosse a única figura a acompanhar fielmente a passagem do tempo sobre a obra de Ibsen. Como leio hoje o Ibsen e esta peça em particular e o que é que eu, enquanto dramaturgo português com dilemas de escrita situados num tempo e biografia particulares, leio nesta peça? E já agora, o que é isso de escrever como leitura?

O teatro de hoje, ultrapassado um século XX de importantes movimentos de escrita e encenação, tem uma vida bem diferente daquela que acompanhou Ibsen. E por isso um dos primeiros impactos, para mim enquanto leitor que escreve, é o desfazamento de um naturalismo ibseniano difícil de suportar ou transportar. Provavelmente por tiques e vontades pessoais que me têm afastado do género, mas por outro também por ser uma espécie de obstáculo insrito no texto de Ibsen, que quanto a mim impede uma tentativa de actualização. Não funciona (ou não satisfaz), do meu ponto de vista, a escolha de um computador ou pen para substituir o manuscrito queimado. Não me parece interessante a substituição de uma criada a anunciar entradas por uma campainha… E se, apesar de tudo, se consegue trabalhar com estas marcas, disfarçando-as, secundarizando-as, já muitos dos conteúdos, carimbados por uma época com direitos e garantias diferentes dos de hoje, dificilmente se tornam maleáveis. Não chega o transporte de um feminismo de final de século para um movimento idêntico de princípio de um outro século. É difícil suportar a relação do casal recém-casado num espectáculo que se queira “actual”. Etc, etc.
Curiosamente, desaparecendo a preocupação de actualização ou transporte para o tempo e sociedade contemporâneos, consegue-se desmpoeirar a leitura e rapidamente a escrita se concentra nas personagens enquanto espécie animal com preocupações atemporais. O que interessa nesta Hedda? O que interessa no casal? O que interessa no terceiro elemento, esta espécie de soldado regressado da guerra? E o que pode interessar na Thea Elvsted? É aqui que se concentra o trabalho de escrita. E não tanto procurando psicologias, traumas de passado, questões edipianas, mas sobretudo focando-nos em ideologias, problemas intelectuais, pensamentos sobre a vida, sobre a escrita e sobre a morte.
Passamos pois pelos mesmos patamares em que Ibsen se apoiou, aproveitando os dois revólveres, o valioso e prometedor manuscrito, o casal recém-casado, o provável concorrente, o velho juiz com interesses malsãos, e uma jovem que abandona o marido por um amor. Mantemos também a velha tia Juliana, agora apenas em duas aparições mais longas, com um discurso de sábia confusa ou sibilina, pintalgado com piadas, inversões e trocas. Reforçamos o isolamento montanhoso de Eilert Lovborg, acentuamos uma diferença de idade relevante entre Hedda e Thea e acentuamos um ponto de vista para a narração, como se nesta nossa Hedda Gabler tudo viesse da cabeça da protagonista. Uma mulher, numa sala onde entram e saem as pessoas da sua vida, a rejeitar esta realidade e a caminhar pausadamente e decididamente para o suicídio.
E assim insistimos nesta nossa Hedda Gabler num texto que discute as utopias, que pensa as ideologias e que vai atrás dos fundamentalismos. Olhar para Hedda Gabler como uma mulher à procura de um fundamento, de arma em punho, pronta a defender ou seguir uma ideia até ao fim, querendo levar com ela todos os que a rodeiam e saindo vencedora derrotada, numa morte paradoxal que funciona como uma coroa de folhas de videira na cabeça de quem perde. Uma mulher determinada a viver uma impossibilidade ou, roubando as palavras do filósofo alemão contemporâneo Marcus Steinweg, determinada a viver um “sonho com valor de verdade”. E uma mulher que arrasta todos os que vivem em seu redor, questionando-os, desequilibrando-os, pondo-os em causa, como aliás a arte é e deve ser capaz de fazer. Lê-se deste modo a Hedda Gabler também como um dilema artístico. Como se a discussão girasse em redor de uma vontade de arte que contém o seu suicídio. Uma vontade que quer ser mais do que pensamento e que exige uma passagem ao acto que se vê concretizada em dois revólveres.

Esta é, quanto a nós, a “actualização” possível, ou seja, não uma aproximação a um tempo ou geografia, mas uma aproximação a um pensamento, o pensamento de um dramaturgo que também é o pensamento de um teatro ou da arte hoje (e sempre?). O pensamento que se faz no gesto de leitura e que, concretizado em escrita, projecta as dificuldades de um leitor, as omissões, as escolhas e as interpretações.

José Maria Vieira Mendes

Setembro no Teatro da Cerca de São Bernardo






música
13 de Setembro | segunda | 21h30
Mancha em terras de cor
A Barca dos Castiços

Sediado em Souselas, “A Barca dos Castiços” foi criado em 2003. Utiliza o património da música tradicional portuguesa como base para a experimentação e para a fusão de vários géneros musicais. O grupo apresenta neste concerto o seu primeiro trabalho discográfico, “Mancha em terras de cor”, que inclui elementos tradicionais, mesclados com elementos da música erudita, do jazz, e também do pop-rock, correntes que fazem parte dos universos pessoais de cada um dos elementos. O resultado é uma matriz de trabalho própria, que cria uma ambiência característica e reflecte uma nova forma de experimentar a tradição.

voz, bandolim e flauta doce Patrícia Ferreira violino, guitarra, cavaquinho, tin twistle, gaita de foles, voz Daniel Crespo piano, cavaquinho/guitarrinho de Coimbra, guitarra David Lopes baixo e voz Fernando Santos guitarra, bateria/percussão e voz João Crespo concertina e percussão Sérgio Forte

entrada livre, mediante ingresso a levantar na bilheteira do TCSB


teatro
14 e 15 de Setembro | terça e quarta | 21h30
“Noites Brancas” de Fiódor Dostoiévski
Chão Concreto

Um homem vagueia, sozinho, por S. Petersburgo – a cidade em peso, essa, vagueia pelos verões do campo. Uma mulher espera, sozinha, apoiada no parapeito do canal. Um oportunista, cambaleante e pouco respeitável, ensaia uma abordagem agreste e atrevida à menina do chapéu amarelo. O primeiro, o nosso sonhador, salta de rompante para o outro lado da rua – qual herói improvisado! – e afugenta a ameaça. Os ânimos acalmam. A donzela respira fundo. As mãos apertam-se. É então que ele se apercebe: uma mulher. Conheceu finalmente uma mulher! Depois disso vão encontrar-se ali mais quatro noites. Ela porque espera. Ele porque alimenta a sua espera. O amor há-de chegar de manhã. Quando a noite branca acabar. Quando a realidade tornar tudo estranho outra vez. “Noites Brancas” é um dos maiores romances da literatura mundial. Uma incursão atípica e genial de Fiódor Dostoiévski pela estética do Romantismo.

texto Fiódor Dostoiévski tradução Filipe Guerra e Nina Guerra dramaturgia e encenação Rodrigo Santos interpretação Ivo Bastos e Nuno Preto desenho de luz Pedro Vieira de Carvalho cenografia Ricardo Preto figurinos Catarina Marques sonoplastia Rodrigo Santos

M/12 > 60’ > 6 a 10€


teatro
17 e 18 de Setembro | sexta e sábado | 21h30
“Mulher Mim”
Magnólia Teatro

Esta é a história de uma mulher que é, como quase todas as mulheres, muitas mulheres. “Mulher Mim” é uma peça que retrata a mulher de todos os tempos. Mulheres que trabalham, mulheres que são mães, mulheres que são imperfeitas, mulheres que são mulheres. Uma mulher que viaja a uma velocidade vertiginosa, que se perde na esquina de cada memória, para se voltar a encontrar numa acção, num gesto, num movimento, num cantar secular que a faz recordar quem é.

direcção artística Rafaela Santos encenação, movimento e espaço cénico Rafaela Santos e Leonor Keil interpretação Rafaela Santos dramaturgia Fernando Giestas figurino Rafaela Mapril desenho de luz Jorge Ribeiro desenho de som Tiago Cerqueira dramaturgia Fernando Giestas produção Rodrigo Francisco, Magnólia Teatro / Amarelo Silvestre co-produção Teatro Viriato (Viseu) / Centro Cultural Vila Flor (Guimarães)

M/12 > 60’ > 6 a 10€


teatro
23, 24 e 25 de Setembro | quinta, sexta e sábado | 21h30
“Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente
Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra

Não pretendo actualizar, nem tão pouco fazer uma reconstituição histórica de um Portugal quinhentista, mas gostaria de burilar as suas palavras, de encontrar com as actrizes, seis por sinal, a sua fisicalidade, o seu jogo, e de construir uma trupe que joga entre o fazer vicentino e a memória desse fazer neste grupo de teatro universitário, re-inventando um novo caminho artístico. Queremos, e agora uso o plural, fazer um espectáculo íntimo, um espectáculo que nasce da proximidade física, onde a comunicação seja feita olhos nos olhos, tal como foram os espectáculos apresentados por Gil Vicente na Corte, em pequenos espaços, e deste modo, rir deste Mundo às avessas, rir dos outros, rir do passado para inscrevermo-nos no Futuro. Entramos na Barca, resta saber para onde nos leva...
Ricardo Correia

texto Gil Vicente versão José Camões encenação Ricardo Correia elenco Íris Ferrer, Maria Pinela, Mariana Ferreira, Nádia Iracema, Rafaela Bidarra, Susana Rocha espaço cénico Carolina Santos, Ricardo Correia cenografia Bruno Gonçalves, Eduardo Conceição figurinos Carolina Santos desenho de luz Jonathan de Azevedo sonoplastia João Gil, Sérgio Costa produção executiva TEUC/2010

M/12 > 55’ > 6 a 10€


performance
29 de Setembro | quarta | 21h30
os sons it(n)rantes
Tiago Schwäbl

Ooooooooooooooooooooooooooooooo.
os sons. um som um som um som os sons.
sons que deambulam entre le t ras. sons-palavra e palavras-som.
o que é um som? e uma palavra? uma palavra é um som? um som é palavra? como soa uma palavra? como se forma? chegamos à palavra através do som ou partimos dela até ao som?
Rinnzekete bee bee nnz krrmüü?
sons itinerantes, deslizantes, mutantes, sons que nascem sem palavra, palavras que nascem sem som. palavras que não mudam, mudas, mudam.
Quero um significado.
Kwii Ee.
traço raço aço ço o. silêncio.

voz, flauta, performance Tiago Schwäbl voz Ana Paula Dantas, Manuel Portela música electrónica Igor Silva vídeo Laetitia Morais
organização Mestrado em Poesia e Poética, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

M/12 > 60’ > entrada livre

Friday, September 3, 2010

"Is You Me" na Culturgest







Na terça e quarta-feira, 14 e 15 de Setembro, às 21h30, no Grande Auditório da Culturgest, será apresentada a coreografia Is You Me, em colaboração com o Festival Materiais Diversos / Teatro Virgínia, Torres Novas e o Centro Cultural Vila Flor, Guimarães.
Estreado em 2008, Is You Me é o resultado de uma colaboração entre Benoît Lachambre, coreógrafo e performer de que o público da Culturgest se recordará em Forgeries, love and other matters (de e com Meg Stuart), cuja interpretação lhe valeu um Bessie Award em 2006, Louise Lecavalier, ex-estrela da companhia La La La Human Steps e considerada por muitos um dos ícones da dança contemporânea, o artista visual Laurent Goldring e o músico, compositor e produtor musical nova-iorquino Hahn Rowe, que o público da Culturgest igualmente conhece de Forgeries, love and other matters.
Num palco branco dinamicamente pincelado de linhas, cores e formas pelas projecções vídeo de Laurent Goldring, dois performers excepcionais constroem uma autêntica festa visual. Como diz Laurent Goldring, “O Benoît e a Louise tornaram-se gradualmente numa espécie de desenhos, mas desenhos animados, e começaram a brincar com a sua terceira dimensão, divertindo-se a livrarem-se dela e a recuperá-la, a passar de um estado de volume a um de plano e vice-versa.”
Os bilhetes têm o preço de 18 Euros; jovens até aos 30 anos têm um preço único de 5 Euros.
Is You Me será também apresentado no dia 11 de Setembro no Teatro Virgínia e no dia 17 no Centro Cultural Vila-Flor.

“No final dos 75 minutos deste inventivo dueto (...) o público estava de pé aos gritos, e a cena da dança parecia estranhamente nova. (...) O movimento muda de lugar por contágio, transmitido de um bailarino ao outro por contacto, ou de um corpo vivo para uma representação gráfica, já que os desenhos de Laurent Goldring – digitalmente projectados na área de representação – respondiam às formas que eram executadas em palco. (...) ‘Is You Me’ traz elegância ao fugaz, ao virtuoso e ao estranho.” MJ Thompson, Dance Magazine, Julho 2008

Laurent Goldring fala assim do processo de criação deste espectáculo:
“Is You Me é o resultado de vários encontros. O encontro entre o Benoît (Lachambre) e a Louise (Lecavalier), claro, mas também a história que eu tenho vindo a tecer entre as imagens e a dança, uma história em que me cruzei muitas vezes com o Benoît.
Desta vez o Benoît propôs-me que continuasse com ele uma experiência começada com a Mathilde Monnier: com um único projector criar simultaneamente o espaço teatral, o palco, as luzes e o cenário.
A experiência com a Mathilde tinha-me ensinado que isso implicava trabalhar desde o início numa óptica de co-criação, coisa que o Benoît compreendeu de imediato.
A dança não teria podido ser concebida separadamente do espaço desenhado, da mesma forma que as projecções não teriam podido ser concebidas como um simples enquadramento neutro e acolhedor.
(...) Quanto às projecções, a intenção de partida foi também inflectida para a utilização progressivamente maior do desenho. O desenho, em vez de se tornar numa imagem final imóvel, pôs-se ele próprio em movimento, pôs-se a narrar a sua própria construção, a mostrar a forma como um traço engendra outro, como a gestualidade do desenho se assemelha ou distingue da gestualidade da dança: fui pondo a tónica cada vez mais na temporalidade do traço do que na imobilidade da forma.
(...) Outro gesto simples, mas que mudou radicalmente os dados, foi a abertura do ecrã e a possibilidade de ter os corpos literalmente dentro do ecrã, na fissura entre o ecrã do fundo e o palco inclinado (que é também ecrã), fissura que foi sendo usada cada vez mais durante o processo de criação de Is You Me.
Esta re-materialização, este voltar a ser gesto da imaterialidade informática, é também verdade em relação ao trabalho do Hahn Rowe, que me ajudou a compreender o que se estava a passar. A nossa dupla presença nas margens do palco, que se impôs por si própria, conduziu naturalmente a um desenho-música que se ia fazendo ao mesmo tempo que a dança. O Hahn propôs narrativas e ritmos que se encontram quase tal qual no desenho. (...)
A sinergia foi igualmente forte com a figurinista (Lim) Seononc, que reagiu prontamente a este devir-desenho dos bailarinos e ao devir-dança do desenho, com os seus figurinos que sublinham simultaneamente a fisicalidade e o grafismo das presenças. Para mim um dos momentos mais importantes é quando as silhuetas amarelas e verdes que construímos podem passar completamente sem o desenho porque se tornaram desenho elas próprias…”

"Black Swan"

Mestrado em Teatro da ESAD





Teatro Aberto em Setembro








"Sexo, Sim Obrigada" de Dario Fo em Oeiras






ESTREIA
SEXO? SIM OBRIGADA
DE DARIO FO,
dia 09 Setembro 2010 no T.I.O.

O T.I.O. – Teatro Independente de Oeiras vai estrear a sua nova produção: Sexo? Sim Obrigada, no dia 9 de Setembro de 2010 às 21h30 no Auditório Novo Espaço – T.I.O. em St. Amaro de Oeiras (em frente à praia).
A peça, da autoria de Dario Fo, prémio Nóbel da Literatura em 1997, consiste numa conversa descontraída, divertida e natural sobre as mais variadas questões relacionadas com o sexo.
O elenco é constituído por duas actrizes, Patrícia Adão Marques e Rita Frazão e a encenação está a cargo de Carlos d’Almeida Ribeiro.
O espectáculo estará em cena de 5ª a Sábado às 21h30, no Auditório Novo Espaço do T.I.O. até 27 de Novembro.
O preço dos bilhetes é de 8 euros (normal) e 7 euros (menores de 25 e maiores de 65 anos) e a classificação etária é para maiores de 16 anos.
As reservas são feitas através do 213020003, Ticket Line 707234234 e locais habituais.


Sinopse:
Duas actrizes, uma voz, milhares de
dúvidas sobre um tema tão controverso
quanto natural. Um ambiente relativa-
mente misterioso e minimalista
alberga uma conversa descontraída
sobre a sexualidade, os medos,
as inseguranças, as dúvidas, as especulações, o desconhecido. Um espectáculo útil e interessante para qualquer idade, cultura ou religião, onde duas actrizes se desdobram em várias personagens, com a ajuda de pouco mais que o seu corpo, a sua voz e… um andaime… para trazer à ribalta assuntos polémicos, mas que fazem parte da vida de qualquer ser humano… os medos e as falsas certezas sobre a virgindade, a menstruação, o orgasmo, a frigidez, a impotência e tantos outros assuntos.
O sexo é natural e indispensável ao ser humano. O amor também. Poderão existir um sem o outro?...

Ficha Técnica:
Autoria: Dario Fo e Franca Rame | Encenação e direcção de actrizes: Carlos d’Almeida Ribeiro | Assistência de Encenação: David Ferreira | Elenco: Patrícia Adão Marques e Rita Frazão | Produção: Pancada / TIO | Assistência de Produção: Pedro Almeida Ribeiro e Patrícia Adão Marques| Coreografia: Mirco Satir | Cenografia e Figurinos: Carlos d’Almeida Ribeiro | Adereços Patrícia Adão Marques| Fotografia: Miguel Pinote | Design Gráfico: Carlos Neves | Vídeo: Nuno Vieira e Sérgio | Serralheiro de Cena: Manuel Franco | Costureira: Guida Alves | Imagem: Carlos Neves | operação de luzes e som: Carlos Neves | assistente de vídeo e técnica: Michelle Sancho e Mário Duarte | desenho de Luz: Carlos d’ Almeida Ribeiro, Pedro Pinto

EntreMitos em Oeiras #3

EntreMitos em Oeiras #2

Lurdes Norberto, um Mito entreMitos em "Olhos nos Olhos"







Em pânico mas satisfeita -- é como Lourdes Norberto se sente face à estreia no seu primeiro papel quase de improviso, a peça 'Olhos nos Olhos', a apresentar no festival entreMITOS, que começa sexta feira em Oeiras.

Em declarações à agência Lusa, a actriz, uma das mais conceituadas com 70 anos de carreira no teatro, cinema e televisão, diz estar 'absolutamente em pânico, mas contente' com o desafio que lhe foi lançado pelo director do entreMITOS, António Terra, para se estrear num espectáculo sem texto de autor que resulta antes da imaginação e da criatividade da própria e da encenadora brasileira Simone Bencke.
Para este espectáculo, encenado pela responsável do espaço Camarim, de Rio Grande do Sul (Brasil), a actriz portuguesa leva 'três ou quatro fases da sua vida, entre as quais memórias da infância, do percurso como actriz, sempre num registo bem-disposto e sem dramas'.
O espectáculo, a realizar nos dias 10 e 11 (22:30) no Espaço Expressão - um dos três palcos do entreMITOS, a decorrer entre sexta feira e dia 11 na Fundição de Oeiras -- é o primeiro em que a actriz se 'expõe publicamente' e para o qual parte sem 'quaisquer expectativas'.
'Nunca na vida fiz nada assim, estou absolutamente em pânico', disse a actriz à Lusa, acrescentando que embora tenha aceitado o convite de António Terra e de que se arrependeu depois vezes, decidiu realizá-lo 'porque é necessário levar as coisas para cima'.
'Um trabalho em que conto experiências e vivências e imagino coisas' e que apesar de 'não ter nada especial, pode ser giro, mas também pode não ser, tudo depende do público', considera sobre o desempenho neste trabalho, um de duas bolsas de criação do entreMITOS.
Para a actriz -- que a Câmara de Oeiras já homenageou com a Medalha de Ouro e a quem atribuiu o nome a um auditório em Linda-a-Velha -- a participação na iniciativa é também uma forma de a homenagearem embora a deixe feliz não deixa de a perturbar.
À semelhança do que lhe aconteceu sempre em todo os papéis que representou ao longo da carreira, na qual está sempre em 'dúvida permanente' por ser muito 'rigorosa, ter muita noção do ridículo e gostar das coisas muito bem feitas' -- argumenta.
A estreia de Lourdes Norberto no entreMITOS, uma plataforma que se realiza este ano pela primeira vez e que irá decorrer bianualmente entre o MITOS (Mostra Internacional de Teatro de Oeiras), resulta de um convite do director artístico do Festival, António Terra.
A criação do MITO Social, uma plataforma 'de criação artística, técnica e cultural de inovação e desenvolvimento que aposta na arte como alimento de cultura' e define como 'uma arma contra a exclusão social', é a novidade desta primeira edição do certame, disse à Lusa o director da iniciativa.
Oito peças, das quais sete estreias, completam a programação, da qual o director destaca 'Pequenos Burgueses', uma adaptação da peça homónima do dramaturgo russo Máximo Gorki que o grupo brasileiro 'Nós do Morro' - do Morro do Vidigal, bairro problemático do Rio de Janeiro, conhecido por ter participado em filmes como 'Cidade de Deus' e 'Estômago' e dirigido pelo jornalista, actor e director artístico Guti Fraga -- estreia no dia 09 (20:00) no Espaço Aproximação.
in DN



Ana Bustorff regressa ao Theatro Circo







Concerto “à la carte” de Franz Xaver Kroetz
21 a 24 de Setembro – 21h30 no Theatro Circo

Concerto “à la carte” da Companhia de Teatro de Braga regressa à sala principal do Theatro Circo para uma curta série de representações, de 21 a 24 de Setembro, às 21h30.
Concerto “à la carte”, de Franz Xaver Kroetz, é um monólogo sem palavras, um espectáculo de existência, onde durante hora e meia Ana Bustorff é a Sr.ª Rasch, uma senhora solitária igual a tantas que moram no apartamento ao lado, que se cruzam connosco no supermercado, a quem olhamos sem ver e que morrem sem sabermos e sem elas mesmas darem por isso.

O espectáculo, com encenação de Rui Madeira, será também apresentado em Espanha: em Outubro (27), no âmbito do FITO – Festival Internacional de Teatro de Ourense, e em Janeiro (14 e 15), no Centro Dramático Galego, em Santiago de Compostela. Recorde-se que Concerto “à la carte” já foi apresentado em Castro Daire; Porto, no Teatro Carlos Alberto, integrado no ciclo “Solos”; Santarém; Almada; Aveiro; Coimbra, no Teatro Académico Gil Vicente, incluído no ciclo “Do monólogo, coisa pública”; Viseu; e Cagliari (Itália), no Festival “Superquattro - Teatro no Feminino”.

Interpretação Ana Bustorff Encenação Rui Madeira Assistentes de encenação Frederico Bustorff Madeira, Solange Sá Tradução Maria Adélia Silva Melo Cenografia Carlos Sampaio Figurinos Sílvia Alves Desenho de luz Fred Rompante Desenho de som Pedro Pinto Fotografia Paulo Nogueira

"The Prisoner of Second Avenue"






"Um Eléctrico Chamado Desejo" no TNDMII






EntreMitos em Oeiras






Francisco Nicholson recebe o “Prémio Beatriz Costa”








Francisco Nicholson recebe o “Prémio Beatriz Costa”, atribuído pela Comissão de Festas da Charneca, de Venda do Pinheiro (Aldeia da Roupa Branca).

A Comissão de Festas da Charneca, de Venda do Pinheiro, a Aldeia da Roupa Branca (antiga Charneca do Milharado), terra que viu nascer Beatriz Costa, uma das nossas maiores vedetas de todos os tempos, institui, a partir deste ano, um Prémio com o nome da Actriz sua patrona inspiradora, destinado a galardoar uma personalidade que ao longo da sua carreira se tenha distinguido ao serviço do Teatro de Revista.

Francisco Nicholson, autor, actor e encenador que ainda recentemente foi distinguido com a Medalha de Mérito, Ouro, pela Câmara Municipal de Lisboa, por serviços relevantes prestados à Cultura da Cidade e do País, receberá no próximo Sábado, dia 04, pelas 22,30 horas, no palco principal das Festas da Charneca, que se iniciam dia 02 e decorrem até dia 06 de Setembro, o primeiro Troféu Beatriz Costa.

Trata-se de homenagear alguém, que ao longo duma carreira multifacetada, contribuiu não só para muitos êxitos, mas também, para a dignificação do Teatro de Revista.

Neste momento, Francisco Nicholson encena “Vai de em@il a Pior!...”, a nova revista produzida por Hélder Freire Costa para o seu Teatro Maria Vitória, que assinala o regresso de Florbela Queiroz aos palcos nacionais. Com textos de Francisco Nicholson e Mário Raínho, música de José Cabeleira e Pedro Lima, cenografia de Moniz Ribeiro, figurinos de Magda Cardoso e coreografia de Marco de Camillis, a revista “Vai de em@il a Pior!...”, conta no seu elenco, além de Florbela Queiroz, Paulo Vasco, Carlos Queiroz, Vanessa, Joana Alvarenga, Cristina Aurélio, David Ventura, Raquel Lourenço, João Duarte Costa, Élia Gonçalves e a atracção do fado Joana Baeta.

Memórias de Maria Dulce



por Lauro António
Aqui há dois ou três anos, Luciano Reis (honra lhe seja feita!) escreveu uma curta biografia sobre a actriz, que foi publicada com o título “Maria Dulce a Verdade a que tem Direito”. Luciano Reis soube que eu tinha uma particular estima pela actriz e pediu-me um prefácio, que escrevi com todo o gosto. Rezava assim:

PARA A MARIA DULCE COM AMOR

Durante alguns anos da minha adolescência vivi em Portalegre. Meu pai era professor e fora colocado nessa bela cidade do Alto Alentejo para se efectivar. Em finais dos anos 50, não sei precisar o ano, mas recordo que era um puto de 13 ou 14 anos que já tinha escolhido as paixões que me iriam acompanhar ao longo da vida. Uma delas era o cinema, outra a escrita, a leitura, os jornais, outra o SCP, outra as mulheres. Entre estas últimas, que na altura não eram ainda mulheres mas meninas mais ou menos da minha idade, encontrava-se a Maria Dulce, a Maria de Noronha, do “Frei Luís de Sousa”, filme de 1950. Devo ter visto o filme no ecrã do Teatro Portalegrense ou no cinema ao ar livre da Cine Parque, uma esplanada que funcionava durante o Verão.
Ainda me lembro hoje como era bonita a gaiata loura de catorze anos, com os cabelos encaracolados, que tinha pouco mais anos idade que eu, e cintilava brilhantemente nesse filme de António Lopes Ribeiro. Não sei mesmo o que mais me impressionou na altura – se o dramático “Ninguém!” do Romeiro, se a presença da bela Maria Dulce. Já se sabe que todos os putos têm sonhos, um dos meus sonhos era a Maria Dulce. Linda de morrer (ou não estivesse no “Frei Luís de Sousa”!) e, ainda por cima, actriz, e de cinema. Era tudo o que eu podia desejar. Em sonhos… para quem vivia em Portalegre, nos anos 50. Sabem o que era isso? Perdido junto à fronteira com a Espanha, a muitas horas de Lisboa, longe de tudo... ainda sem televisão. Só revistas de cinema, jornais diários, jornais regionais, um ou outro filme português no cinema da terra.
Existia, todavia, uma prática saudável. Rara, mas mesmo assim salutar: de tempos a tempos aparecia em digressão pela província uma companhia teatral, normalmente uma revista ou comédia de sucesso garantido, uma vez por outra algo de mais substancial. Havia também a Companhia de Teatro Itinerante Rafael de Oliveira, e outros espectáculos musicais.
Pois não querem então lá ver que um dia apareceu anunciada a presença de Maria Dulce em Portalegre! Integrada em que projecto (como hoje se diz), já não me lembro. Mas não devia ser grande coisa, uma revista montada para consumo na província ou um “sarau para trabalhadores”, daqueles que a FNAT promovia para “Alegria no Trabalho”. Mas eu queria lá saber da qualidade do “projecto”. O que me interessava era a Maria Dulce em Portalegre, e esse episódio não o esqueci mais. Por varias razões: por ver a Maria Dulce, “ao vivo e a cores”, diriam os putos de hoje; porque era teatro, ou algo semelhante, e tudo o que mexesse num palco, valia a pena, mas sobretudo por um acontecimento que ocorreu e que me marcou profundamente.
Passo a contar, para ficar registado para a História: anunciado o espectáculo para a noite do dia tal, calculei que a Maria Dulce e todo o elenco chegariam de véspera e ficariam instalados na Pensão Vinte e Um, a única então existente em Portalegre, onde todas as noites se podia ver a jantar o poeta José Régio, amigo da minha família, o que me fazia um frequentador assíduo da pensão. Consegui saber com facilidade quando chegava a comitiva, quantos dias iam ficar, introduzindo-me assim no segredo dos deuses.
Mal a Maria Dulce pôs o pé em Portalegre, já estava eu no seu encalço. Chegámos portanto à fala, à porta da Pensão Vinte e Um. Como já por essa altura escrevia umas “notícias” sobre espectáculos para os jornais da terra, pedi-lhe descaradamente uma borla para o espectáculo da noite. Eu e uns colegas de liceu que me acompanhavam. A Maria Dulce, com uma simpatia que rondava a sedução (mas o que não rondaria a sedução nela?), disse-me que deixaria bilhetes para nós na porta do Teatro, à hora do espectáculo. Assim foi. Às 21 horas, lá estava eu e os amigos a recolher a oferta: uma magnífica frisa para os atrevidos putos do liceu de Portalegre.
Nessa noite, cada palavra de Maria Dulce fazia aumentar a minha paixão. Que perdura até hoje, apesar dela não saber. Desencontros da vida.
Ao longo da tempos fui acompanhando a sua carreira, sempre com um interesse particular (um amor de adolescência não se esquece!). Uma ou outra vez tropecei em filmes medíocres (ela não voltou a ter muita sorte com os filmes, mas naquele tempo, quem tinha?), mas nunca por culpa dela, que tentava defender personagens banais em argumentos sem garra e realizações sem nada que as recomendassem. Em Espanha foi vedeta, mas também aí os filmes do período franquista não eram particularmente brilhantes. No teatro, porém, construiu uma carreira sólida, onde brilhou o seu enorme talento e dedicação à arte, sempre que havia oportunidade para o conseguir (Portugal é, todavia, madrasto para os seus artistas, já se sabe). Na revista obteve êxitos inesquecíveis. Na televisão, sobretudo ultimamente em séries e telenovelas, foi mantendo um registo de qualidade e de exigência para consigo própria e para com o seu público. Hoje é uma das presenças mais respeitadas e queridas do nosso espectáculo.
Já não tem os caracóis louros. Pois não. Vamos obviamente envelhecendo. “Os cabelos branqueando”, como dizia um nosso comum amigo, José Viana. Mas há dias, numa aula de História do Cinema Português, projectei o “Frei Luís de Sousa” e tudo voltou ao que era: eu adolescente, ela adolescente, a frisa no Teatro Portalegrense, Portalegre, à porta da Pensão Central, o autocarro com a companhia, pronto para regressar a Lisboa, eu a despedir-me de Maria Dulce, com o coração destroçado. Coisas de miúdos.
Um beijo para ti, Maria Dulce, do teu Lauro António.


Há coisa de ano e meio, recebi um telefonema de Maria Dulce. Estava sem trabalho, morava em Mora, no Alentejo, sozinha, tinha uma pensão miserável, passava por dificuldades, ia neste ano de 2010 comemorar 60 anos de carreira (tinha-se estreado ao treze, em “Frei Luís de Sousa”) e perguntava-me, a medo, se eu quereria integrar um projecto que ela tinha. Queria comemorar os seus 60 anos de carreira, havia um grupo de admiradores que propunha uma festa de homenagem, e ela, que tinha assistido a um festa idêntica, realizada em Oeiras por mim, em relação a José Viana, dizia-me que só aceitava que fosse eu a organizar os festejos. Uma festa, e se possível um vídeo sobre a sua vida e obra. Se eu aceitava? Claro que aceitava. E logo nessa altura a convidei a integrar o Júri de um festival que se realizaria em Maio, em Portel. Até uns dias antes do certame, contei com ela, teríamos alguns dias para falar do projecto. Mas, na altura do festival, ela fora convidada por Celso Cleto (honra lhe seja feita!) para integrar o elenco da peça "Hedda Gabler", de Henrik Ibsen, produzida pelo Dramax, com a qual se apresentou em vários palcos nacionais e no Círculo de Bellas Artes, em Madrid. Não pôde estar no Festival, mas combinámos para mais tarde continuar a nossa conversa. Depois ela andou em tournée, durante vários meses, e eu fui parar ao hospital durante uma semana que deixou algum rasto. Voltámos a falar e a adiar o encontro, ela tinha um outro projecto, andava um pouco mais animada.
Hoje telefonaram-me a dar conta da triste notícia.
Lamento, Maria Dulce, que os tempos tenham sido de novo madrastos para projectos conjuntos. Mas acredita que teria tido o maior prazer em organizar a tal festa de homenagem e dirigir o documentário sobre a tua vida e obra. Bem os merecias. Bem os mereces. Beleza e talento não te faltaram. Apenas alguma sorte, neste tão triste final de vida.
E continuo a despedir-me, como o fiz no prefácio ao livro: “Um beijo para ti, Maria Dulce, do teu Lauro António”. As paixões da meninice nunca se esquecem.






Filipe La Féria: “Se fosse inglesa era uma dame, aqui morreu pobremente”

O encenador Filipe La Féria classificou Maria Dulce, hoje falecida, aos 73 anos, como “uma grande actriz” que, “se fosse inglesa, era uma dame” mas em Portugal “morreu pobremente, com dificuldades, esquecida por todos”.
“A Maria Dulce foi uma estrela do teatro de revista e sobretudo do cinema. Ela fez filmes extraordinários. Estreou-se como actriz no ‘Frei Luís de Sousa’ ainda muito nova, com 12 anos. O seu nome ficará sempre ligado ao cinema português e também ao teatro ligeiro. Ela, comigo, fez, na Casa da Comédia, o ‘Faz Tudo, Faz Tudo, Faz Tudo’ – que foi uma peça memorável em que ela fazia um papel extraordinário – e fez na televisão comigo também a ‘Grande Noite’”, disse o encenador à agência Lusa.


“Era uma actriz excelente, uma chamada vedeta de revista – isto, no bom sentido – uma mulher lindíssima, com uns olhos verdes fascinantes e com uma voz que prendia o público. É pena que esse teatro esteja tão decadente, porque ela foi um bocadinho vítima do declínio do teatro em que ela era uma estrela absoluta”.

Filipe La Féria classificou ainda Maria Dulce como “uma actriz versátil”, que fez “desde teatro de revista ao teatro clássico”, no Teatro Nacional D. Maria II, na Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro.

Na sua opinião, a memória dela “ficará muito presa ao cinema, sobretudo à Maria de Noronha que ela faz fantasticamente no ‘Frei Luís de Sousa’ do António Lopes Ribeiro”.

O encenador referiu ainda o facto de a actriz ter também feito “muita televisão”, e sublinhou que “era uma actriz de primeiro plano” e “uma mulher lindíssima”:

“Trata-se de uma grande actriz que desaparece, infelizmente muito esquecida quer pelo público, quer pelos responsáveis pela cultura. Não era uma segunda figura, mas uma primeira figura do teatro português, fez trabalhos fantásticos. Se fosse inglesa, era uma dame. Aqui não, aqui morreu pobremente, com dificuldades, e esquecida por todos. É muito o espírito português, infelizmente. Em Portugal, as pessoas são muito esquecidas e maltratadas. Só quando morrem é que se lembram delas... Isso deixa-me triste, deixa-me muito triste.”
in Público

Fotos de camarins de "Hedda Gabler" em Ilhavo (2009) de Helder Bugios

Thursday, September 2, 2010

Curso de Expressão Dramática por Bruno Schiappa







Estão abertas as inscrições para o Curso de Expressão Dramática, de Bruno Schiappa, que funcionam nas instalações da Colectividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina vulgo Chapitô, integrado no programa dos Cursos de Fim de Tarde. As aulas de Bruno Schiappa são baseadas, sobretudo, nas técnicas d'O Método de Lee Starsberg. Bruno Schiappa é Doutorando em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Mestre em Estudos de Teatro pela mesma instituição e Licenciado em Actor/Encenador pela Escola Superior de Teatro e Cinema. A especialização nas técnicas d'O Método foi feita com Marcia Haufrecht (membro do Actors' Studio e aluna de Strasberg) desde 1995 até à actualidade. Schiappa é assistente e coordenador dos Cursos de M. Haufrecht, em Lisboa, desde 2000.
Este curso, criado em 1993 pelo próprio, inclui também trabalho físico (flexibilidade e ritmo) e vocal (respiração, apoio, dicção). O mesmo destina-se a qualquer pessoa que queira ter contacto com as técnicas de Expressão Dramática para além de actores, encenadores e bailarinos.
O trabalho sensorial que Bruno Schiappa tem desenvolvido com os alunos que por ele passaram tem sido bastante elogiado pela própria Marcia Haufrecht. Bruno Schiappa é criador de projectos pessoais e trabalha com a Companhia canadiana Pigeons International como actor desde 2000. Dirigiu um workshop destas técnicas para actores, em Montréal, em 2001.

"Bruno Schiappa's work with actors exhibit sensitivity, intelligence and imagination.
Also, his knowledge and understanding of theatre past and present is unsurpassable. I believe he can make a very big contribuition and effect a positive influence with any opportunity he has for advancing the art of acting".
Marcia Haufrecht


O horário é pós-laboral. 2ªs e 4ªs das 19h às 21h.
As inscrições e informações mais concretas de preçário devem ser feitas através do telefone: 218855550
As aulas começam em Outubro.