Tuesday, March 27, 2007

Autores das mensagens desde 1962

1962: Jean COCTEAU
1963: Arthur MILLER
1964: Laurence OLIVIER - Jean-Louis BARRAULT
1965: Anonymous/Anonyme
1966: René MAHEU, Director General of UNESCO
1967: Hélène WEIGEL
1968: Miguel Angel ASTURIAS
1969: Peter BROOK
1970: D. CHOSTAKOVITCH
1971: Pablo NERUDA
1972: Maurice BEJART
1973: Luchino VISCONTI
1974: Richard BURTON
1975: Ellen STEWART
1976: Eugène IONESCO
1977: Radu BELIGAN
1978: national messages /messages nationaux
1979: national messages
1980: Janusz WARMINSKI
1981: messages nationaux
1982: Lars af MALMBORG
1983: Amadou Mahtar M'BOW, Director General of UNESCO
1984: Mikhaïl TSAREV
1985: André-Louis PERINETTI
1986: Wole SOYINKA
1987: Antonio GALA
1988: Peter BROOK
1989: Martin ESSLIN
1990: Kirill LAVROV
1991: Federico MAYOR, Director General of UNESCO
1992: Jorge LAVELLI - Arturo USLAR PIETRI
1993: Edward ALBEE
1994: Vaclav HAVEL
1995: Humberto ORSINI
1996: Saadalla WANNOUS
1997: Jeong Ok KIM
1998: 50th Anniversary of ITI - Special Message
1999: Vigdís FINNBOGADÓTTIR
2000: Michel TREMBLAY
2001:Iakovos KAMPANELLIS
2002:Girish KARNAD
2003:Tankred DORST
2004:Fathia EL ASSAL
2005: Ariane MNOUCHKINE
2006: Victor Hugo RASCON BANDA
2007: Sultan bin Mohammed AL QASIMI

Mensagem Internacional do Dia Mundial do Teatro


Mensagem do Dia Mundial do Teatro

27 de Março de 2007

Sua Alteza O Xeque Dr. Sultão Bin Mohammed Al Qasimi
Membro do Conselho Supremo dos Emirados Árabes Unidos e Governador de Sharjah
"Muito Jovem, descobri o amor pelo fascinante mundo do Teatro. Pude entender e valorizar a sua verdadeira essência quando me envolvi seriamente como escritor, actor e director de uma produção teatral de carácter político que provocou a cólera das autoridades da época. Confiscaram tudo o que se encontrava no Teatro e procederam ao seu encerramento perante os meus próprios olhos. O espírito do Teatro que vivia em mim não tinha outra escolha frente aos soldados armados que a de refugiar-se e teimar com a minha consciência. Nesse momento, compreendi a força e o poder do Teatro perante aqueles que não toleram a opinião dos outros e aprendi, com certeza, o papel sério e importante que o Teatro pode desempenhar na vida dos povos.
Durante os meus anos de estudante no Cairo, o palco entrou no profundo da minha consciência e deixou raízes, li tudo quanto se escrevia sobre Teatro e tive ocasião de assistir aos espectáculos mais diversos. Esta descoberta aprofundou-se anos depois e hoje, o Teatro continua a interessar-me de modo geral.
Aprendi através das minhas leituras, sobre a Antiga Grécia até aos nossos dias, a magia potencial que o mundo do Teatro contém e a sua capacidade para descobrir a profundidade da alma humana e revelar os seus mistérios. O Teatro constitui um factor de unificação dos seres humanos e o homem pode, através dele, encher o mundo de amizade e abrir horizontes de diálogo entre os povos, sem distinção de raça, cor ou crença. Foi para mim um factor suplementar para aceitar o Outro tal como é. Compreendi igualmente que o bem unifica os seres humanos e que o mal os separa.
As guerras que golpearam a humanidade desde épocas antigas encontraram justificações profundas nas intenções maléficas que não apreciam a beleza. E a beleza perfeita não se encontra em nenhuma outra arte como no Teatro. Ele é o recipiente que contém todas as Belas Artes. Aquele que não saborear a beleza não pode apreciar o valor da vida; e o Teatro é a vida.
Necessitamos repelir hoje todas as guerras absurdas em todas as suas formas e divergências dogmáticas que flagelam. Na ausência de um travão moral, de uma consciência viva, o espectáculo das violências e os assassinatos cegos vão submergindo em todo o planeta com o seu cortejo de desigualdades, entre uma riqueza excessiva e uma miséria negra entre as partes de um mundo sinistrado por epidemias endémicas ou pelos problemas de desertificação e seca. Tudo isto é causado pela ausência de um diálogo autêntico que possibilite fazer deste mundo um lugar para vivermos juntos.
Amigos do Teatro, uma tempestade desencadeia-se sobre o nosso planeta, causada pela violência de um turbilhão de suspeitas e desconfianças que ameaçam e nos impedem de ter uma visão clara das coisas. As nossas vozes são sufocadas e não chega a todos os ouvidos a causa da violência e a divisão dos povos. Esta tempestade ameaça desviar-nos e afastar-nos uns dos outros.
Devemos opormo-nos aos que fazem soar a corneta para desencadear tumultos, não para destruí-los mas para afastarmo-nos de atmosferas contaminadas e dedicar nossos esforços à comunicação e estabelecimento de relações amistosas, com quem prega a fraternidade entre os povos.
Nós somos meros mortais, mas o Teatro é como que eterno, como a própria vida."




World Theatre Day International Message 2007
H.H. Sheikh Dr. Sultan bin Mohammed Al Qasimi,
Member of the Supreme Council of the United Arab Emirates

It was during my early school days that I became fascinated by the theatre, that magical world which has captivated me ever since.

The beginnings were humble, a casual encounter which I only saw as an extracurricular activity to enrich the mind and spirit. But it was to be more than that when I became seriously involved as a writer, actor and director of a theatrical production. I remember it was a political play that angered the authorities at the time. Everything was confiscated, and the theatre was closed before my very eyes. But the spirit of the theatre could not be crushed by the heavy boots of the armed soldiers. That spirit sought refuge and settled deep in my inner being, making me fully aware of the vast power of the theatre. It was then that the true essence of the theatre impinged on me in a most profound way, I became absolutely convinced of what the theatre can do in the lives of nations, particularly in the face of those who cannot tolerate opposition or differences of opinion.

The power and spirit of the theatre took root and deepened in my conscience through my university years in Cairo. I avidly read almost everything written about the theatre, and saw the diverse range of what was being performed on the stage. This awareness has deepened even further in subsequent years as I have tried to follow the latest developments in the world of theatre.

In my reading about the theatre since the times of ancient Greeks up to the present, I have become acutely conscious of the inner magic which the many worlds of the theatre have the power to exercise. It is in this way that the theatre reaches the hidden depths of the human soul, and unlocks the hidden treasures that lie deep within the human spirit. This has strengthened my already unshakable faith in the power of the theatre, in the theatre as an instrument of unification through which man can spread love and peace. Theatre power also allows new channels of dialogue to open up between different races, different ethnicities, different colors and different creeds. This has personally taught me to accept others as they are and instilled in me the belief that in goodness humanity can stand united, and in evil humanity can only be divided.True, the struggle between good and evil is intrinsic to the code of the theatre. Ultimately, however, common sense prevails and human nature will by and large align itself with all that is good, pure and virtuous.

The wars with which humanity has been afflicted ever since ancient times have always been motivated by evil instincts which simply do not recognize beauty. The theatre does appreciate beauty, and one could even argue that no art form is capable of capturing beauty more faithfully than the theatre. Theatre is an all-encompassing receptacle for all forms of beauty, and those who do not value beauty cannot value life.

Theatre is life. There has never been a time as now when it is incumbent on all of us to denounce futile wars and doctrinal differences which often raise their ugly heads undeterred by the conscience that is vibrant with responsibility. We need to put an end to scenes of violence and random killings. These scenes have become common occurrences in today’s world, only to be aggravated by abysmal differences between wicked affluence and abject poverty, and by diseases like AIDS which have bedevilled many parts of the globe and defeated the best of efforts to eradicate them. These ills are alongside other forms of suffering from desertification and drought, calamities fanned by the absence of any genuine dialogue which is the sure way of turning our world into a better and happier place.

Oh Theatre People, it is almost as if we have been struck by a storm, and overwhelmed by the dust of doubt and suspicion which is approaching us.

Visibility has become almost totally eclipsed, and our voices shrill and barely audible in the clamor and division intent on keeping us far apart from one another. In fact, were it not for our deep-rooted belief in dialogue so uniquely manifested by such art forms as the theatre, we would have been swept away by the storm which leaves no stone unturned to divide us. We must, therefore, face up to and challenge those who never tire of agitating the storm. We must face up them, not to destroy them, but to rise above the contaminated atmosphere left in the wake of their storms. We need to rally our efforts and to devote them to communicating our message and establishing bonds of friendship with those calling for brotherhood among nations and peoples. We are mere mortals, but the theatre is as eternal as life itself.

Sultan Bin Mohammed Al Qasimi

"Memorial do Convento" no Convento

MEMORIAL DO CONVENTO
no Palácio Nacional de Mafra
produção TEATRO NACIONAL D. MARIA II em colaboração com o PALÁCIO NACIONAL DE MAFRA
texto “Memorial do Convento" de José Saramago, adaptação dramatúrgica de FILOMENA OLIVEIRA e MIGUEL REAL

a partir de 3 de Março
Horário 4ª, 5ª e 6ª 14h00 Sábado às 16h00
(Capela do Campo Santo, sempre sob marcação)

Memorial do\nConvento de José Saramago em cena a partir de 3 de Março no Palácio\nNacional de Mafra
Memorial do Convento de José Saramago em cena a partir de 3 de Março no Palácio Nacional de Mafra

O Teatro Nacional D. Maria II apresenta, em colaboração com o Palácio Nacional de Mafra, Memorial do Convento. Uma encenação Filomena Oliveira a partir do texto que lançou a carreira de José Saramago. A crónica de uma obsessão real com a descendência, que valeu a Mafra um palácio magnífico que o Papa Bento XIV inaugurou em 1744, mas cuja magnificência não pode apagar os sacrifícios feitos pelo país quer em recursos materiais quer em vidas humanas.
Resumo da acção
Ansiando por um filho que tarda, o rei D. João V é avisado por frei António de S. José: “Mande V. Majestade fazer um convento de franciscanos em Mafra e Deus vos dará descendência”. O desejo real desencadeará uma epopeia de homens, um esforço hercúleo de milhares de trabalhadores arregimentados em todo o país, de arquitectos, engenheiros e materiais vindos do estrangeiro e pagos a peso de ouro do Brasil, esgotando-o.
Unidos por um amor natural, Blimunda e Baltasar reúnem-se a Bartolomeu de Gusmão e ao seu sonho de voar. A passarola, máquina voadora, misto de barco e de pássaro, nasce do saber científico de Bartolomeu, da força de trabalho de Baltasar e dos poderes de Blimunda, recolhendo as vontades humanas (as “nuvens fechadas”), que alimentarão a máquina e a farão voar. Sobre as obras do Convento de Mafra terá passado o Espírito Santo, dizem os padres e acredita o povo. Voar, nesse tempo, não sendo obra de Deus, só poderia sê-lo do demónio, e assim se anuncia o fim trágico das três personagens maravilhosas.

encenação FILOMENA OLIVEIRA

orgânica sonora
direcção música original DAVID MARTINS
masterização e operação: BRUNO OLIVEIRA
arranjos para piano: SANDRA NUNES
arranjos para voz: ANDREIA LOPES

guarda-roupa FLÁVIO TOMÉ
adereços JOÃO MAIS

concepção e construção da passarola
FLÁVIO TOMÉ e JOÃO TIAGO
assistente técnico/montagem JOÃO TIAGO
criação e adaptação do espaço CARLOS ARROJA
estruturas cénicas e desenho 3D CARLOS BRUNO

direcção técnica DAVID MARTINS
desenho de luz CARLOS ARROJA, DAVID FLORENTINO e PAULO CUNHA
cenografia e criação do espaço cénico
coordenação VITO e CARLOS ARROJA
equipa de montagem BRUNO OLIVEIRA BRUNO RIBEIRO CARLOS BRUNO JOÃO MOTA ZÉ PEDRO


actores
CLÁUDIA FARIA PAULO CAMPOS DOS REIS FLÁVIO TOMÉ
JOÃO MAIS FILIPE ARAÚJO

"Hamlet" no Trindade


HAMLET
uma tragédia de William Shakespeare

Sinopse
Reino da Dinamarca. O tio de Hamlet, Cláudio, assassina o rei seu irmão e, dois meses depois, desposa a rainha viúva, tornando-se ele próprio rei, no lugar do jovem Hamlet, que deveria suceder ao pai. Inconformado, Hamlet é confrontado com o espectro do pai, que lhe revela o crime e lhe exige vingança. O comportamento que Hamlet adopta de aí em diante é semelhante a um estado de loucura. Sabendo-se espiado por Cláudio e Polónio, maltrata a filha deste, Ofélia, por quem manifestara sentimentos amorosos. Com a ajuda de um grupo de actores, e para se certificar da culpa de Cláudio, faz representar diante dele uma cena idêntica ao crime que este praticou. Pálido e incrédulo, Cláudio manda parar a representação. A prova está feita.

Com
André Gago, Maria Emília Correia, Mário Jacques, Orlando Costa, Adriano Carvalho, Claúdia Andrade, Marcantónio Del Carlo, Philippe Leroux, Emanuel Arada, José Mateus, Matze e Nuno Vinagre

Co-Produção INATEL/Teatro da Trindade e Teatro Instável

"Bestas Bestiais" no D.Maria II


B.B. BESTAS BESTIAIS
DE VIRGÍLIO ALMEIDA

CO-PRODUÇÃO TNDM II Klassikus

SALA ESTÚDIO
MAR 29 – JUN 03
3ª a SÁB. 21H45 DOM. 16H15

um “reality show” onde não se pode parar de dançar

O Teatro Nacional D. Maria II apresenta B. B. Bestas Bestiais, de Vírgilio Almeida. Este espectáculo marca a estreia, numa encenação ao nível profissional, de José Neves e conta com as interpretações de João Reis, Adriano Luz, Patrícia Bull, Carlos Gomes, Daniel Martinho e Dora Bernardo.
Num velho armazém à beira-rio, seis personagens partilham a arena, um ringue de boxe convertido numa pista de dança. Bruce, Sabina, Jorgina e Céu dançam há 27 dias, num concurso-maratona que é um labirinto de exaustão. Comandados pelo mestre-de-cerimónias do show, o Dj Bigbang, qual filósofo indolente que tenta quebrar os concorrentes com os seus juízos ácidos, cada concorrente, enquanto dança, partilha a sua história, os segredos mais íntimos e ocultos, enquanto tenta eliminar o adversário. Observados permanentemente pelo público e por um enorme “Olho de Vidro” que assiste a este desfile de misérias humanas, para os concorrentes vale tudo para ganhar um prémio-mistério, menos tocar com um joelho no chão e parar. Até onde somos comandados pela televisão, pelos reality shows, pelas telenovelas? Como se consegue (sobre)viver num lugar onde todos nos vêem? “Bestas Bestiais” é uma excelente metáfora da sociedade actual, obcecada com o mediatismo, onde se fala de fé, amor, mentira, solidão, morte. Nesse ‘circo’, cada um desperta o seu lado mais bestial, numa libertação que é também uma revolução individual. Mas será esta maratona uma passagem para o mundo dos afectos ou o pretexto para a libertação dos instintos mais violentos?

encenação JOSÉ NEVES
instalação cenográfica DORA LONGO BAHIA
figurinos DINO ALVES (actor João Reis, personagem Dj BigBang)
ANA VAZ (actor Adriano Luz, personagem Bruce)
MARGARIDA ALFACINHA (actriz Dora Bernardo, personagem Sabina)
ROSA BERNARDO (actor Daniel Martinho, personagem Priscilo)
ANTÓNIO GRACIAS (actor Carlos Gomes, personagens Dinis e Jorgina)
NUNO BLUE (actriz Patrícia Bull, personagem Céu)
desenho de luz JORGE RIBEIRO
desenho de som FERNANDO ABRANTES
concepção sonora NUNO VEIGA
produção (klassikus) MANUELA JORGE


COM
DORA BERNARDO PATRÍCIA BULL CARLOS GOMES ADRIANO LUZ
DANIEL MARTINHO JOÃO REIS

Conversas com Pina


Dia Mundial do Teatro

27 de Março 2007
DIA MUNDIAL DO TEATRO
MENSAGEM PORTUGUESA
Neste Dia Mundial do Teatro quero manifestar a minha admiração por todos aqueles que ao longo dos tempos dignificaram e fizeram desta arte e profissão um exemplo de vida, de manifestação artística e de mensagem política. Quem suportou a violência da censura de antes do 25 de Abril e recebeu a missão de comunicar e criar em liberdade, não pode ignorar a sua responsabilidade. A todos aqueles que neste momento são gente de teatro, uma palavra de amizade, de solidariedade e confiança num futuro que estamos a criar. Posso dizer que ser de teatro é ser maior, é ser diferente, é ser responsável. Vivemos numa época de preocupação com a guerra do Iraque, com a fome, com as desigualdades sociais, com a prostituição, o racismo e o flagelo da droga. Trabalhamos para um público que partilha das nossas preocupações. Tenho o maior orgulho nos meus colegas e nos meus amigos. O egoísmo de que nos acusam é resultado da paixão que temos pela nossa profissão. Um profissional vive, ri, sofre e ama profundamente o teatro.É estranho quando nos deparamos com situações que pensamos que sabemos resolver. Quanto mais sabemos, mais temos a noção de que ainda há muito para aprender. Aos mais novos, àqueles que por vezes terminam os seus cursos e depois ficam à espera de uma oportunidade, àqueles em quem eu acredito que serão o teatro do futuro, que serão os responsáveis por esta profissão maravilhosa, única. Garanto que vale a pena! O teatro não esquece aqueles que o amam e o servem sem se servirem dele. A vossa oportunidade chegará. Por último, uma palavra muito especial, um aplauso diferente para Isabel de Castro e Canto e Castro. Assim se faz o Teatro.
(escrita pelo encenador Carlos Avilez, a convite da Sociedade Portuguesa de Autores)

Thursday, March 1, 2007

Pina Bausch no Camões


Primavera


"Criadas Para Todo o Serviço" na Politécnica


Criadas para todo o Serviço
no Teatro da Politécnica
de Carlo Goldoni
Co-Produção Teatro Nacional D. Maria II Teatro dos Aloés Centro Dramático de Évora
8 a 18 de Março
3ª a Sábado 21H30 e Domingo 16H


Uma comédia de Carlo Goldoni
O Teatro Nacional D. Maria II apresenta, a partir de 8 de Março, no Teatro da Politécnica, Criadas para todo o Serviço, de Carlo Goldoni, o grande renovador do teatro italiano do século XVIII. Uma co-produção com o Teatro dos Aloés e o CENDREV inserida no âmbito nas comemorações dos 300 anos do nascimento de Carlo Goldoni. O espectáculo, com encenação e dramaturgia de José Peixoto, vai estrear em Évora, no Teatro Garcia de Resende, no próximo dia 1 de Março.
Goldoni acostumara o público veneziano a um divertimento teatral durante o Carnaval. Oferece-lhe assim mais uma comédia que é bem mais que um simples divertimento.
Era tradição na Veneza do século XVIII dar um dia de folga aos empregados domésticos para que gozassem em liberdade esta inversão da ordem estabelecida. E os amos divertiam-se simultaneamente em bela convivência.
Aproveitando essa liberdade os criados vestem-se como os amos não só por envergarem o guarda-roupa que subtraíram à sua vigilância, mas porque lhes imitam os comportamentos.
Numa manhã fria e nevoenta do Inverno de 1755, em pleno Carnaval, Momolo, jovem aprendiz de padeiro, acorda as cozinheiras despertando-as para o trabalho para, em contrapartida, beneficiar dos seus favores. Mas estas sabem bem como beneficiar também dos serviços do jovem padeiro.
Todos se preparam para o Carnaval disputando parceiros e perspectivas de divertimento, fortuna e prazer. E o grande comércio com a troca de favores inicia-se num mercado onde tudo acaba por ser moeda de troca, onde tudo se pode vender ou comprar.
Os patrões, por seu lado, mobilizam os favores e a cumplicidade dos criados para os colocar ao serviço dos seus amores inconfessáveis, os seus pequenos vícios, as suas pequenas necessidades materiais, que podem ir desde um anel valioso a um empréstimo de dinheiro para o jogo ou um simples prato de sopa.
No Carnaval, forças estranhas são postas em jogo libertando impulsos recalcados e instintos que não são tão visíveis noutras alturas.
A vida privada vai-se tornando pública, o espaço privado vai-se alargando até se tornar a praça onde todas as nossas misérias e segredos se denunciam, como se o Carnaval e a sua inversão da ordem nos julgassem e nos punisse.
E Goldoni que não perdoa as nossas fraquezas acaba por nos aceitar com um imenso coração magnânimo, com uma infinita benevolência, com uma inequívoca paixão pela vida e suas surpresas.


tradução JOSÉ COLAÇO BARREIROS
encenação dramaturgia JOSÉ PEIXOTO
cenografia ACÁCIO CARVALHO
figurinos MANUELA BRONZE
execução de figurinos GUARDA ROUPA MARIA GONZAGA
banda sonora RUI REBELO
desenho de luz CARLOS GONÇALVES
coreografia KOT KOTECKI
assistente de encenação CARLA CARREIRO MENDES
produção (Teatro dos Aloés) GISLAIN TADWALD


SÍLVIA FILIPE JORGE SILVA ELSA VALENTIM DIANA COSTA E SILVA
ANGELA RIBEIRO DAVID PEREIRA BASTOS PATRÍCIA ANDRÉ LEONOR CABRAL
LUÍS BARROS CARLOS QUEIRÓS RICARDO ALVES TIAGO MATEUS
CARLA CARREIRO MENDES

(Re)Cover no Viriato


ESTREIA ABSOLUTA EM PALCO
Música (RE)COVER NICOLAU PAIS & KF BAND

Sexta, 2 e Sábado, 3 Mar. 21h30
Todos os públicos 90 min. aprox. 5 a 10€ Preço Jovem 5 €

TEATRO VIRIATO - VISEU
Nicolau Pais & KF Band estreiam-se este fim-de-semana, em palco, no Teatro Viriato, com um concerto rock para baixo, bombo e duas guitarras eléctricas, e, uma ´playlist´ heterogénea, de Bowie a Springsteen, de Lennon a Cohen. Desejo, frivolidade, inconsequência, entretenimento, intervenção, conflito, tolerância ou, simplesmente, uma “boa noitada” em nome da alvorada das pretensões cosmopolitas perseguidas. Estes são alguns dos ingredientes de (Re)Cover, por Nicolau Pais & KF Band, um concerto para ouvir com o volume no máximo.

Esta apresentação inclui temas de Muddy Waters, John Lennon, David Bowie, Lou Reed, The Beatles/The Free, Bruce Springsteen e Leonard Cohen. A Terra Mais Ocidental (Atlantis), a partir da canção de Donovan e de uma selecção de textos, será o último tema a interpretar por Nicolau Pais & KF Band.

// Sobre o projecto (RE)COVER
Tudo no Mundo é uma cadeia – sucedemo-nos mudando apenas de Forma; a Essência persiste única e inalterada até à consumação dos séculos
Aquilino Ribeiro

Foi a 24 de Março de 2006 que nos encontrámos pela primeira vez, nos Maus Hábitos no Porto. Crescemos para o nosso formato "(Re)Cover". E com a confiança atenta de alguns agentes culturais saímos do Bar para o Teatro, aproximando-nos cada vez mais da ideia fundatória do nosso trabalho: a construção de um espectáculo fundado no carácter de cada uma das suas canções, no seu erotismo frívolo, no seu delírio onírico, na reedição do seu conflito original, nas suas contribuições (e dos seus autores) para a forma como olhamos uns para os outros, nos toleramos nos pecados da existência e fomentamos essa ideia que nos parece estar tão tangente a todos nós, como distante dos Gabinetes: o Cosmopolitismo.

E não temos outra Política que não seja expôr-nos ao prazer de vos convidar a partilhar connosco esta forma de Paz, que vive acima de tudo do deslumbre pela diferença.

Até já, neste ou noutros formatos. Livres.

Nicolau Pais


Direcção Geral Nicolau Pai; Interpretação Nicolau Pais (Voz harmónica e percussão), Orlando Mesquita (Baixo, guitarra acústica, bombo e voz), Hugo Mesquita (guitarra eléctrica) e Gino Costa (guitarra electro-acústica); Imagem e design Isabel Menezes; Co-produção Teatro Viriato / Olhos de Ver Soluções em Comunicação e Imagem
Mais informações em www.aminhapequenacidade.blogspot.com

Biografias
Nicolau Pais
Nasceu em Londres a 6 de Maio de 1975. Estudou Bioquímica e frequentou o Actor´s Course do Drama Centre London entre 1996 e 1998. Vive no Porto desde 1998. Trabalhou como actor com Ricardo Pais, Max Stafford-Clarke, Giorgio Corsetti, Nuno Cardoso, João Pedro Vaz, José Carretas e Manoel de Oliveira. Em 2004 abandonou a actividade de actor para fundar a empresa de Comunicação, Publicidade e Design “OlhosDeVer, Soluções em Comunicação e Imagem”.

O seu primeiro projecto musical teve apresentação a 24 de Março de 2006, no espectáculo por ele concebido 52, Addison Gardens do qual viria a nascer Nicolau Pais&KF Band.


Orlando Mesquita
Nasceu no Porto a 28 de Julho de 1952. Músico, compositor, instrumentista e professor há mais de 35 anos. Aulas de Iniciação Musical com o Maestro Miguel Graça Moura em 1976/77; aulas de Iniciação Musical e Contrabaixo na Escola de Música do Porto entre 1980 e 1982; aulas de Harmonia, Composição e Baixo na Escola de Jazz do Porto entre 1986 e 1988 (professores Mário Laginha, José Menezes, Paulino Garcia e Pedro Barreiros).

Em 1976 funda o grupo KING FISHER’s Band. Como autor e compositor, aparece em 1981 com o projecto Bando do REI PESCADOR gravando o single Roda. Em 1988 grava o álbum CAFÉ LUSITANO e em 1994 grava o CD Confraria das Almas (Bando do REI PESCADOR). Em 2000 grava o CD Floresta Imensa (Bando do REI PESCADOR) e em 2007 grava o CD Planeta Agreste (Bando do REI PESCADOR). Em 1982 participa num filme de promoção à Costa Verde para o ICEP.

Em 1991 participa no filme Adeus Princesa de Jorge Paixão da Costa. Em 1996 dá voz ao tema da série de desenhos animados Mu Mesa (RTP). A partir de 2006 integra o projecto Nicolau Pais & KF Band. É o compositor, autor, voz, guitarra e banjo do grupo Bando do REI PESCADOR.

Gino Costa
Nascido em 1978 e Engenheiro Electrotécnico de profissão, desde cedo que está ligado à música, passando por vários instrumentos até ter estabilizado na guitarra em finais de 1992.
Participou em alguns projectos de "garagem". Em 1998 integra a formação Bando do Rei Pescador, tendo tocado nesse mesmo ano na Antena I, Hardclub e diversos programas de televisão.
Em 2000 participa na gravação do álbum Floresta Imensa do Bando do Rei Pescador, fazendo a apresentação do álbum na Escola de Jazz do Porto, seguido do circuito normal de apresentação do disco.
Em 2006 participa na gravação do álbum Planeta Agreste do Bando do Rei Pescador, estando previsto o seu lançamento para ainda este ano.

Hugo Mesquita
Em 1979 vislumbrou pela primeira vez o mundo de sensações da experiência humana. Iniciou-se profissionalmente no mundo da expressão artística através das artes gráficas, transitando para o campo da produção multimédia no início do séc. XXI. Estudou peles mais teclas pretas e brancas na Escola de Jazz do Porto.
No ano de 2003 renegou 6 anos de estudo e ensino de bateria e percussão para assumir-se como guitarrista apaixonado por instrumentos com menos de 7 kg e dependentes de electricidade.
Entre a fundação, participação e assassínio a sangue frio de bandas de garagem projectoras de decibéis adolescentemente abusivos, integrou a formação inicial dos Stangeversion com quem compôs e gravou o EP S.K.O.N. (2004) e o single Wonder (2006).
Integra actualmente a formação do Bando do Rei Pescador com quem gravou
Floresta Imensa (2000) e co-produziu Planeta Agreste (2006).

"Memorial..." no Convento

MEMORIAL DO CONVENTO
de José Saramago
produção TEATRO NACIONAL D. MARIA II em colaboração com o PALÁCIO NACIONAL DE MAFRA

texto “ Memorial do Convento” de José Saramago, adaptação dramatúrgica de FILOMENA OLIVEIRA e MIGUEL REAL

encenação FILOMENA OLIVEIRA

orgânica sonora
direcção música original DAVID MARTINS
masterização e operação: BRUNO OLIVEIRA
arranjos para piano: SANDRA NUNES
arranjos para voz: ANDREIA LOPES

guarda-roupa FLÁVIO TOMÉ
adereços JOÃO MAIS

concepção e construção da passarola FLÁVIO TOMÉ e JOÃO TIAGO
assistente técnico/montagem JOÃO TIAGO
criação e adaptação do espaço CARLOS ARROJA

direcção técnica DAVID MARTINS
desenho de luz CARLOS ARROJA, DAVID FLORENTINO e PAULO CUNHA

cenografia e criação do espaço cénico
coordenação VITO e CARLOS ARROJA

actores
CLÁUDIA FARIA PAULO CAMPOS DOS REIS FLÁVIO TOMÉ
JOÃO MAIS FILIPE ARAÚJO

Palácio Nacional de Mafra
Horário 4ª, 5ª e 6ª-feira às 14h00 Sábado às 16h00 (sob marcação)
Duração 80 minutos
Preço por aluno 6€
Público-Alvo: ensino secundário e universitário
Março - Junho de 2007
INFORMAÇÕES E RESERVAS
Telefone 261817550
Fax 261811947
pnmafra@ippar.pt

Sinopse
Ansiando por um filho que tarda, o rei D. João V é avisado por frei António de S. José: “Mande V. Majestade fazer um convento de franciscanos em Mafra e Deus vos dará descendência”. O desejo real desencadeará uma epopeia de homens, um esforço hercúleo de milhares de trabalhadores arregimentados em todo o país, de arquitectos, engenheiros e materiais vindos do estrangeiro e pagos a peso de ouro do Brasil, esgotando-o.
Unidos por um amor natural, Blimunda e Baltasar reúnem-se a Bartolomeu de Gusmão e ao seu sonho de voar. A passarola, máquina voadora, misto de barco e de pássaro, nasce do saber científico de Bartolomeu, da força de trabalho de Baltasar e dos poderes de Blimunda, recolhendo as vontades humanas (as “nuvens fechadas”), que alimentarão a máquina e a farão voar. Sobre as obras do Convento de Mafra terá passado o Espírito Santo, dizem os padres e acredita o povo. Voar, nesse tempo, não sendo obra de Deus, só poderia sê-lo do demónio, e assim se anuncia o fim trágico das três personagens maravilhosas.

Personagens
Blimunda, Baltasar, Bartolomeu de Gusmão, rei D. João V, Frei António de S. José, Domenico Scarlatti, Arq. Ludovice, Almoxarife, João Francisco (pai de Baltasar), Álvaro Diogo (cunhado de Baltasar), José Pequeno e Manuel Milho (operários da construção do Convento), Camareiros do rei e da rainha, um homem.

Duração 1h20 M/12
EDITORIAL AINDA NÃO FOI APROVADO PELOS DIRECTORES
“Memorial do Convento” foi o romance que lançou a carreira literária de José Saramago e que nos recorda uma época conturbada na História de Portugal, mais precisamente o reinado de D. João V, que decorreu durante a primeira metade do século do século XVIII. O romance do Nobel português, cuja obra tem sido, nos últimos anos, alvo de cada vez mais adaptações quer ao teatro quer à ópera, é a crónica da obsessão real com a descendência, uma obsessão que valeu a Mafra um palácio magnífico que o Papa Bento XIV inaugurou em 1744, mas cuja magnificência não pode apagar os sacrifícios feitos pelo país quer em recursos materiais quer em vidas humanas. Miguel Real e Filomena Oliveira, que já tinham assinado uma adaptação teatral de “Memorial do Convento”, voltaram a pegar no texto, agora tendo como público-alvo os estudantes universitários e pré-universitários e usando como cenário o próprio palácio de Mafra. O espectáculo funciona, portanto, a três níveis: como uma lição de História de Portugal, como introdução à obra de Saramago e, finalmente, como pretexto para uma visita a um dos nossos monumentos mais emblemáticos.

Carlos Fragateiro
José Manuel Castanheira
JOSÉ SARAMAGO – UMA ESCRITA COM IDEIAS
Nos 25 anos da publicação de “Memorial do Convento”
A mais importante singularidade dos romances de José Saramago reside na exposição e concretização narrativa de uma ideia-força que alimenta a totalidade de cada romance.
Em “Levantado do Chão”, tematiza-se a história do Alentejo e o fracasso da Reforma Agrária, o destino histórico e o sofrimento daquela terra magoada; “O Ano da Morte de Ricardo Reis” sintetiza-se num encontro com Fernando Pessoa; em “Evangelho Segundo Jesus Cristo” trava-se o debate sobre os grandes limites civilizacionais da Europa e a interrogação sobre a origem da religião, cujo poder litúrgico e força sagrada há um século que se têm vindo a esvaziar; em “Jangada de Pedra”, a interrogação sobre a existência de uma real alternativa mediterrânica ao poder frio da tecnologia e do mercantilismo da Europa do Norte; em “Ensaio sobre a Cegueira” levanta-se o debate sobre a origem e os limites do Poder; em “Todos os Nomes” problematiza-se o labirinto da existência humana contabilista e burocrática das actuais sociedades desenvolvidas; em “História do Cerco de Lisboa” discute-se a raiz da nossa identidade nacional, sempre dependente do estrangeiro; em “Manual de Pintura e Caligrafia” inquire-se sobre a fundamentação da representação estética; em “A Caverna”, Saramago questiona a sociedade actual que substitui o poder da realidade factual pelo poder da imagem audiovisual e electrónica. Dito de outro modo, José Saramago não é um romancista social e ideologicamente neutro; diferentemente, é um escritor que explora a filosofia, a religião, a política e a história como alimento do conteúdo dos seus romances, empenhando-se activamente na denúncia e transformação dos aleijões da nossa sociedade. Onde Saramago presume existir injustiça, aí põe a sua pena ao serviço da sua visão de justiça e de igualdade sociais. É esta a profunda singularidade da escrita e do escritor: para José Saramago não basta escrever uma simples história, mais uma simples história que nada acrescenta ao nosso conhecimento do mundo, mas, partindo de vivas preocupações existenciais actuais, intenta retomar antigos temas da religião, da filosofia, da História, dando-lhes um novo sentido, não raro contaminado de uma sede de justiça social. Colocar em questão o passado cristalizado, insuflando-lhe uma nova ideia, que o avive e o actualize, eis o modo habitual de escrita de José Saramago.
Em “Memorial do Convento”, publicado em 1982, desenvolve-se a interrogação sobre o sentido da história de Portugal e sobre o divórcio entre o amor, a vida feliz e o progresso da ciência, por um lado, e a absolutização do poder político num pequeno grupo social; por outro lado, constitui uma das primeiras narrativas em que se evidencia o novo estilo exuberante, barroco, fáustico e festivo deste autor. José Saramago nunca escreveu segundo um cânone literário, não seguiu as modas em vigor, não foi realista, existencialista, estruturalista, pós-modernista, seguiu-se a si próprio, soube ser apenas ele próprio, inventando o estilo literário mais singular do actual panorama da literatura portuguesa. Foi este estilo e o conteúdo profundamente humano das suas histórias que lhe valeram, em 1998, a atribuição do primeiro Prémio Nobel da Literatura para um autor português, consagrando a sua ímpar arte da palavra e elevando o seu nome à universalidade da História da Literatura de todos os tempos e lugares.
Deste modo, em “Memorial do Convento” Saramago explora não o facto em si próprio na sua unívoca brutalidade histórica (e é este, normalmente, que constitui a atmosfera tradicional do romance histórico, corrente a que Saramago, e com razão, diz não pertencer), mas a mentalidade colectiva do tempo histórico de que o facto é expressão singular, evidenciando que se ele assim aconteceu, de outro modo poderia ter acontecido. Como o campo das possibilidades é mais extenso do que o campo do real, J. Saramago move-se naquele campo, explorando contínuas hipóteses de relações, transformando em principais factos que na realidade seriam subsidiários, inventando factos historicamente inexistentes mas que, na lógica da realidade social do tempo, poderiam ter acontecido, sem nunca deixar de entrelaçar a realidade concreta com as possibilidades que o espírito do tempo permite. A ficção histórica estatui-se, assim, como reveladora da rede intrínseca de possibilidades contidas (mas não consumadas) em cada facto histórico importante ou em cada sociedade, ou seja, mais do que à História historiável em livros oficialmente aceites, cabe à ficção iluminar o sentido da História, evidenciando a pluralidade de caminhos humanos passíveis de serem (ou terem sido) percorridos e de como, a cada momento, cada escolha, cada opção (inconsciente ou forçada) por um entre um imenso leque de possíveis, tem como consequência cultural desenhar a personalidade futura de um país. Assim, o romance ganha em José Saramago um estatuto ensaístico de permanente abertura de horizonte cultural segundo interrogações radicais de carácter filosófico, que desafiam, senão subvertem, o paradigma conceptual por que habitualmente interpretamos o mundo, forçando a romance a tornar-se, mais do que a narrativa de uma história, um texto inquiridor das regras e modelos do acto fundador da palavra.
A “revolução saramaguiana” na ficção portuguesa concretiza-se através de uma obra cujas histórias narradas se dirigem, não à recriação e ao ‘divertissement’, não à mera narração de atmosferas históricas, não à auto-consciencialização social da imagem de Portugal hoje, não ao memorialismo subjectivista, mas, sim, à interrogação problemática dos fundamentos filosóficos da nossa civilização, gerando uma literatura que se metamorfoseia num estado híbrido de todos os géneros narrativos e de todos os estilos possíveis, ou seja, uma Literatura não de palavras, mas Fundadora da Palavra.
Fontanelas, 13 de Janeiro de 2007
Filomena Oliveira/Miguel Real


Adaptação dramatúrgica de “Memorial do Convento”
O presente texto dramático sintetiza a adaptação dramatúrgica de “Memorial do Convento”, concentrando e condensando num espectáculo de 1h20 (aprox.) a essencialidade das personagens, dos seus conflitos e dos seus dramas, determinados e envolvidos pela construção do Convento de Mafra, símbolo do poder institucional, político e religioso, e pela construção da passarola, símbolo do poder da ciência, do sonho e da vontade humana.
Cinco actores desdobram-se nas várias personagens (Blimunda, Baltasar e Bartolomeu são interpretados sempre pelos mesmos actores). O ambiente do convento evidencia-se, por si só, um espaço cénico privilegiado, assentando a estética do espectáculo na representação dos actores, na orgânica sonora criada especificamente para cada cena/momento, no guarda-roupa rigoroso e significativo e em alguns, fortes e marcantes, objectos e adereços de cena.

Bartolomeu – O homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará.
Baltasar – Se Deus é maneta e fez o universo, este homem sem mão pode atar a vela e o arame que hão-de voar.
Bartolomeu – Voar é uma simples coisa comparando com Blimunda.
Blimunda – Sangue de virgindade é água de baptismo.
Blimunda – Entre a vida e a morte há uma nuvem fechada.
Scarlatti – Fica o silêncio depois da música e depois do sermão. Que importa que se louve o sermão e aplauda a música. Talvez só o silêncio exista verdadeiramente.
Bartolomeu – O que vem amanhã é que conta. Hoje é sempre nada.
José Pequeno – Os bois andam emprestados neste mundo como eu. Não somos de cá.
Manuel Milho – Sabes tu o que é ser homem e mulher? Ninguém sabe.
Bartolomeu – É a vontade dos homens que segura as estrelas. É a vontade dos homens que Deus respira.

JOSÉ SARAMAGO
(Azinhaga - Golegã, 1922)
Prémio Nobel de Literatura em 1998, José Saramago nasceu no Ribatejo, passando a residir em Lisboa desde muito novo. Com um curso em serralharia mecânica, é um caso paradigmático do escritor autodidacta. Tendo concluído este curso em 1939, repartiu, ao longo de vários anos, a sua actividade profissional entre a colaboração em vários jornais e revistas e a tradução e a direcção literária/produção numa editora. De destacar a sua participação enquanto crítico literário na revista “Seara Nova” e os cargos de coordenador do “Suplemento Literário” do “Diário de Lisboa” e de director-adjunto do “Diário de Notícias”, entre 1974 e 1975. “Terra do Pecado” (1947) marcou o início de uma carreira dedicada à literatura. Porém, José Saramago considera o romance “Levantado do Chão” (1980) o seu “primeiro grande romance”: a história de uma família camponesa do Alentejo, desde o início do século até à Revolução de Abril foi o primeiro de muitos outros grandes romances que se sucederam. Tal é o caso de “Memorial do Convento” (1982), um sucesso ao nível nacional e internacional, traduzido em mais de vinte línguas e adaptado a libretto de ópera. Este fascinante relato da construção do Convento de Mafra e do esforço dos homens que o construíram, cruzado com o sonho de Bartolomeu de Gusmão, o “padre voador” que construiu uma Passarola que voa à mercê da vontade dos homens, marca aquele que será um estilo de escrita único. O ritmo fluido e marcadamente oral das obras de José Saramago tem sido fonte de inspiração para muitos criadores, desde encenadores, realizadores de cinema ou músicos. “Memorial do Convento”, por exemplo, foi adaptado a teatro e levado à cena no Teatro da Trindade, em Lisboa, pelo encenador Joaquim Benite e à ópera pelo compositor italiano Azio Corghi, com o título "Blimunda". A estreia mundial, com encenação de Jérôme Savary, realizou-se no Teatro alla Scala, de Milão, em Maio de 1990. De “In Nomine Dei” foi extraído um libretto, o da ópera "Divara", estreada em Münster (Alemanha), em 1993, com música de Azio Corghi e encenação de Dietrich Hilsdorf. A produção romanesca de José Saramago tem-se cruzado com a História, dialogando com a memória, mas também com o futuro. “A Jangada de Pedra” (1986), uma ficção que toca o fantástico, é disso um bom exemplo. A sua capacidade de ver o real tem feito do seu percurso como escritor uma carreira premiada, com destaque para a atribuição do Nobel. O seu carácter humanista contribuiu para a edição dos seus livros em todo o mundo, sendo o autor português contemporâneo mais traduzido. Destaque ainda para o Prémio Camões, em 1995, e os prémios Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores (1993) e de Consagração de Carreira, da Sociedade Portuguesa de Autores (1995) -, doutoramentos Honoris Causa pelas Universidades de Turim (Itália), Manchester (Inglaterra), Sevilha, Toledo e Castilla-La Mancha (Espanha) e graus honoríficos, como o de Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada e Chevalier de l'Ordre des Arts e des Lettres (atribuído pelo governo francês). É, além disso, membro honoris causa do Conselho do Instituto de Filosofia do Direito e de Estudos Histórico-Políticos da Universidade de Pisa (Itália); membro da Academia Universal das Culturas (Paris), membro correspondente da Academia Argentina das Letras e membro do Parlamento Internacional de Escritores (Estrasburgo). Em Fevereiro de 1993 passou a dividir o seu tempo entre a sua residência habitual em Lisboa e a ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias (Espanha).

OBRAS PUBLICADAS

Poesia
“Os Poemas Possíveis”, 1966
“Provavelmente Alegria”, 1970
“O Ano de 1993”, 1975

Crónica, Ensaio, Conferências, Memórias
“Deste Mundo e do Outro”, 1971
“A Bagagem do Viajante”, 1973
“As Opiniões que o DL teve”, 1974
“Os Apontamentos”, 1976
“A Estátua e a Pedra”, 1966
“Folhas Políticas” (1976-1998), 1999
“Saramago na Universidade”, 1999
“Aquí soy Zapatista”, 2000
“Andrea Mantegna. Un'etica, un'estetica”, 2002
“El Nombre y la Cosa”, 2006
“As Pequenas Memórias”, 2006

Viagens
“Viagem a Portugal”, 1981

Teatro
“A Noite”, 1979
“Que Farei com Este Livro?!, 1980
“A Segunda Vida de Francisco de Assis”, 1987
“In Nomine Dei”, 1993
“Don Giovanni, ou o Dissoluto Absolvido”, 2005

Diário
“Cadernos de Lanzarote – I”, 1994
“Cadernos de Lanzarote – II”, 1995
“Cadernos de Lanzarote – III”, 1996
“Cadernos de Lanzarote – IV”, 1997
“Cadernos de Lanzarote – V”, 1998

Conto
“Objecto Quase”, 1978
“Poética dos Cinco Sentidos – O Ouvido”, 1979
“O Conto da Ilha Desconhecida”, 1997
“A Maior Flor do Mundo”, 2001

Romance
“Terra do Pecado”, 1947
“Manual de Pintura e Caligrafia”, 1977
“Levantado do Chão”, 1980
“Memorial do Convento”, 1982
“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, 1984
“A Jangada de Pedra”, 1986
“História do Cerco de Lisboa”, 1989
“O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, 1991
“Ensaio sobre a Cegueira”, 1995
“Todos os Nomes”, 1997
“A Caverna”, 2000
“O Homem Duplicado”, 2002
“Ensaio Sobre a Lucidez”, 2004
“As Intermitências da Morte”, 2005